TECNOLOGIA COM RAÍZES EM MT

Do telex à inteligência artificial: Stelmat celebra 42 anos de história em Cuiabá

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Do telex à inteligência artificial: Stelmat celebra 42 anos de história em Cuiabá

JBNews


por Nayara Cristina

Do telex à inteligência artificial: Stelmat completa 42 anos e transforma trajetória cuiabana em tecnologia

Empresa nasceu do esforço dos irmãos Allan e Emmanuel Araújo, começou com uma linha telefônica dada pelo pai e atravessou quatro décadas de revoluções tecnológicas; hoje, grupo investe em IA, segurança, conectividade e desenvolvimento de soluções próprias

Parece uma cena de outro tempo. Sem carro e ainda no início da vida profissional, os irmãos Allan e Emmanuel Araújo precisaram pegar carona na boleia de um caminhão para entregar um telex. Allan tinha apenas 17 anos e ajudava a dar os primeiros passos em um negócio que, quatro décadas depois, se transformaria em uma empresa de tecnologia com raízes fincadas em Cuiabá.

“Eu tinha uma cara de criança”, recorda Allan, aos risos. Hoje, ao olhar para trás, ele encontra uma referência ainda mais próxima para dimensionar o quanto era jovem: seu próprio filho tem a mesma idade que ele tinha naquela época.

A história iniciada em 1984 chegou aos 42 anos em 24 de setembro de 2026. A Stelmat comemorou a data reunindo colaboradores, amigos, parceiros e empresários ligados ao setor de tecnologia, em uma celebração que também serviu para revisitar as transformações enfrentadas pela companhia desde uma época em que o telex representava velocidade na comunicação empresarial até o atual avanço da inteligência artificial.

O primeiro patrimônio decisivo para colocar o negócio de pé não foi um computador, um servidor ou um sofisticado equipamento eletrônico. Foi uma linha telefônica.

Naquele período, conseguir uma linha era difícil e o serviço tinha grande valor. O pai dos irmãos entregou aos filhos justamente esse patrimônio para ajudá-los a abrir a empresa.

“Era essencial para a abertura da empresa, e foi o que ele conseguiu dar para nós”, relata Allan.

Foi a partir dessa estrutura modesta, segundo ele construída “com muito sacrifício”, que a empresa começou a ocupar espaço no mercado cuiabano.

Nos primeiros anos, a Stelmat não fabricava equipamentos nem desenvolvia produtos próprios. O negócio estava concentrado na comercialização de hardware e na implantação de tecnologias disponíveis no mercado. Mas os irmãos encontraram uma forma de se diferenciar: antes de vender um equipamento, buscavam entender qual problema o cliente precisava resolver.

Na prática, exerciam uma função que anos mais tarde seria consolidada pelo mercado de tecnologia como a de integradora de soluções.

“A gente era um intérprete. Conhecia as dores dos clientes e tinha boas parcerias com os fabricantes”, explica Allan.

O portfólio acompanhou as sucessivas transformações tecnológicas. Do telex, a empresa avançou para os sistemas de PABX e, posteriormente, para o cabeamento estruturado. Essas áreas atravessaram décadas e ainda fazem parte dos serviços oferecidos pelo grupo.

Com a informatização acelerada das empresas e instituições públicas, vieram novas demandas. Switches, servidores, sistemas de armazenamento de dados e redes passaram a integrar a atividade da companhia.

Um dos marcos dessa trajetória ocorreu no ano 2000, quando a Stelmat participou da implantação da rede de fibra óptica do Centro Político Administrativo, em Cuiabá. A infraestrutura acompanhava uma transformação que começava a mudar definitivamente a maneira como órgãos, empresas e pessoas se comunicavam.

Sobreviver durante mais de quatro décadas em um setor marcado pela rápida obsolescência exigiu que a companhia acompanhasse permanentemente o que surgia no mercado.

“Na tecnologia, a gente dorme com uma verdade e amanhece com outra”, resume Allan.

Essa necessidade levou a empresa a olhar não apenas para fornecedores brasileiros, mas também para os grandes polos internacionais de desenvolvimento tecnológico. Nos últimos dois anos, representantes da Stelmat fizeram quatro ou cinco viagens à China para acompanhar soluções e tendências, ao mesmo tempo em que mantiveram relações construídas historicamente com fabricantes dos Estados Unidos.

“A gente não tem ideologia que monte fronteiras”, afirma Allan ao explicar que a escolha das tecnologias está vinculada às soluções consideradas adequadas para cada projeto.

UMA EMPRESA CONSTRUÍDA TAMBÉM POR QUEM CRESCEU DENTRO DELA

Os 42 anos da Stelmat não são contados apenas pela sucessão de equipamentos e sistemas que passaram pela empresa. A história também está nas trajetórias profissionais construídas dentro do grupo.

Um desses exemplos é Lumara Lobo, atual diretora de Projetos do Grupo Stelmat.

Ela chegou à empresa há 17 anos como estagiária do curso de Sistemas de Informação. Sua primeira atividade estava ligada ao monitoramento da infovia de Cuiabá.

“A Stelmat é uma escola. Ela te abre espaços para ter conhecimento em diversas áreas da tecnologia”, afirma.

O contato com projetos de redes acabou mudando também sua formação profissional. Quando começou a trabalhar na elaboração desses projetos, percebeu que precisaria de formação em Engenharia Elétrica para assumir determinadas responsabilidades técnicas e assinar os trabalhos.

A especialização passou a acompanhar a própria expansão das funções exercidas dentro da companhia.

Interessada em conectividade, Lumara recebeu apoio da empresa para buscar capacitação e uma certificação em São Paulo. Durante dois meses, realizou viagens para completar a formação.

Sua trajetória ocorreu também em um ambiente técnico que, principalmente no início de sua carreira, era predominantemente masculino.

“Quando eu entrei, nós éramos cinco mulheres na área técnica”, relembra.

Segundo Lumara, a distribuição de oportunidades dentro da empresa não fazia distinção entre homens e mulheres.

A carreira ganhou uma nova dimensão em 2017. Antes mesmo de concluir Engenharia Elétrica, ela assumiu a gerência comercial e participou da estruturação de áreas como pré-vendas, licitações e contratos.

Também passou a defender uma presença maior dos profissionais técnicos durante as negociações comerciais.

“Se um arquiteto sai para vender, por que o engenheiro também não pode sair?”, questiona.

Posteriormente, Lumara chegou à diretoria de Projetos, posição em que passou a acompanhar as iniciativas desde a concepção até a entrega ao cliente.

Ao longo dessa trajetória, acumulou formações em Sistemas de Informação, Segurança da Informação, Engenharia Elétrica, Engenharia de Segurança do Trabalho e Redes de Computadores.

“Muito orgulho por ter começado lá como estagiária”, resume.

DE INTEGRADORA A DESENVOLVEDORA DE SOLUÇÕES

Se durante boa parte de sua história a Stelmat se especializou em integrar equipamentos e tecnologias desenvolvidos por grandes fabricantes, a estratégia começou a mudar nos últimos anos.

Há cerca de dois anos, a companhia criou um laboratório de inovação. O objetivo, segundo Allan, era dar um novo passo: deixar de atuar exclusivamente na integração para desenvolver soluções próprias.

“Passar a ser protagonista nas soluções”, define.

Uma das iniciativas surgidas nesse ambiente foi o Aluno Presente, sistema destinado ao acompanhamento da frequência de estudantes das redes municipais de ensino e também ao controle da merenda escolar.

A proposta é permitir que os dados ajudem a administração pública a acompanhar a presença dos alunos e dimensionar melhor a alimentação servida nas unidades, buscando aperfeiçoar a gestão e reduzir desperdícios.

A experiência acumulada pela empresa com sistemas de Circuito Fechado de Televisão, o CFTV, também resultou na criação de outro braço do grupo: a Stelseg, voltada ao segmento de segurança e monitoramento.

A empresa opera com monitoramento durante 24 horas e possui aproximadamente 800 clientes.

Para Allan, embora a companhia seja recente, a experiência acumulada pelo grupo acompanha o negócio desde sua origem.

“Ela já nasceu com 41 anos de experiência”, afirma.

Entre as tecnologias mais recentes desenvolvidas nesse segmento está uma solução apresentada durante a Conecta MT, feira promovida pela CDL e pelo Sebrae.

O sistema amplia a função tradicional das câmeras. Em vez de servirem apenas para registrar imagens, os equipamentos passam a funcionar também como sensores capazes de identificar presença e gerar alertas.

A partir da detecção, operadores podem acompanhar a ocorrência remotamente e até interagir por voz com quem estiver no local, buscando inibir uma eventual invasão antes que o crime seja consumado.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ABRE UMA NOVA FASE

Depois do telex, dos sistemas telefônicos, das redes estruturadas, da fibra óptica, dos servidores, do armazenamento de dados e do monitoramento inteligente, a Stelmat chegou a uma nova fronteira tecnológica: a inteligência artificial.

Durante a comemoração dos 42 anos, o CEO do Grupo Stelmat, Sandro Araújo, revelou que a empresa já trabalha com um servidor próprio dedicado à inteligência artificial.

Uma experiência realizada internamente mostrou à direção da companhia a dimensão da mudança.

Segundo Sandro, um desenvolvedor júnior conseguiu concluir em aproximadamente 15 dias um módulo de software que, pelos métodos tradicionais de desenvolvimento, demandaria meses de trabalho.

A redução do tempo necessário para determinadas tarefas alterou a percepção da empresa sobre o impacto que a inteligência artificial terá sobre os processos de desenvolvimento de tecnologia.

“Não fomos nós que mudamos. O mundo mudou em três meses”, afirmou Sandro.

Para o CEO, a velocidade dessa transformação também impõe um desafio aos profissionais. Em vez de disputar com as máquinas atividades que podem ser automatizadas, as pessoas precisarão ampliar justamente capacidades essencialmente humanas.

Sandro desafiou a equipe a aperfeiçoar a comunicação, a capacidade de compreender o outro e de identificar necessidades que não podem ser reduzidas apenas a comandos e processamento de dados.

Para ele, será cada vez mais necessário “entender a humanidade e a necessidade do próximo”.

A reflexão resume uma trajetória marcada por sucessivas rupturas tecnológicas.

Em 1984, dois irmãos ainda adolescentes precisavam pegar carona em um caminhão para entregar um telex. O negócio começou com uma linha telefônica dada pelo pai, em uma época em que possuir telefone representava patrimônio e estrutura indispensável para uma empresa.

Em 2026, aquela companhia trabalha com fibra óptica, redes, servidores, segurança eletrônica, desenvolvimento de softwares, monitoramento inteligente e um servidor próprio de inteligência artificial capaz de acelerar processos que antes consumiam meses.

Entre essas duas cenas estão 42 anos de atividade, diferentes gerações de trabalhadores e uma sucessão de tecnologias que nasceram, dominaram o mercado e, em muitos casos, desapareceram.

A empresa que começou vendendo equipamentos passou a integrar soluções e agora busca desenvolver sua própria tecnologia.

Mesmo acompanhando mercados internacionais e procurando tendências em países como China e Estados Unidos, Allan destaca a ligação da companhia com Mato Grosso.

“A gente se orgulha muito de estar no estado e de estar aqui hoje”, afirma.

Do telex à inteligência artificial, praticamente todas as ferramentas que cercavam a empresa em seus primeiros anos foram transformadas. A aposta da Stelmat para os próximos capítulos, porém, permanece ligada ao princípio que orientou os irmãos ainda no começo da atividade: compreender primeiro a necessidade das pessoas para depois encontrar a tecnologia capaz de atendê-la.

Quarenta e dois anos depois daquela carona na boleia de um caminhão, a tecnologia é outra. Para a Stelmat, o componente humano continua sendo parte essencial da equação.