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Por Nayara Cristina
Minutos antes do início do novo julgamento dos acusados pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri, nesta terça-feira (29), em Cuiabá, a defesa do coronel da reserva do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas fez duras críticas à condução das investigações e levantou a possibilidade de que os responsáveis por arquitetar e ordenar o crime não estejam entre os três homens submetidos ao Tribunal do Júri.
O advogado Jaime Rodrigues Carvalho, responsável pela defesa de Caçadini, afirmou estar preocupado com a possibilidade de que os responsáveis pela concepção do assassinato estejam fora do plenário enquanto Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Caçadini são julgados.
“Eu fico preocupado dos verdadeiros autores, arquitetos e mandantes estarem passando aqui agora e sorrindo de tudo que nós estamos fazendo aqui agora”, declarou o advogado pouco antes do início da sessão.
Jaime também atacou diretamente a forma como a investigação foi conduzida. Segundo ele, o trabalho investigativo teria ocorrido “sem eira nem beira” e “a toque de caixa”.

As declarações representam a tese da defesa de Caçadini e serão confrontadas durante o julgamento com as provas e argumentos apresentados pelo Ministério Público. O coronel é acusado de participar do financiamento do assassinato.
O advogado afirmou esperar que o Conselho de Sentença acolha a versão defensiva e absolva seu cliente.
“Hoje, com o espírito de justiça, o Tribunal do Júri, o Tribunal do Povo de Cuiabá, há de restabelecer a verdade”, declarou.
A manifestação ocorre em uma fase particularmente importante do Caso Zampieri porque o processo relacionado ao assassinato ganhou novos acusados ao longo das investigações.
Além dos três homens que enfrentam o júri nesta terça-feira, o Ministério Público denunciou outras pessoas em uma ação que aponta uma estrutura dividida em diferentes núcleos para planejar, financiar, executar e posteriormente ocultar informações sobre o homicídio.
Na denúncia apresentada após o aprofundamento das investigações, Aníbal Manoel Laurindo e Elenice Ballarotti Laurindo foram apontados pelo Ministério Público como integrantes do chamado núcleo mandante.

Eles não integram, porém, o julgamento realizado nesta terça-feira.
A acusação do Ministério Público sustenta que o assassinato teria relação com uma disputa judicial envolvendo a Fazenda Lagoa Azul, propriedade avaliada em aproximadamente R$ 100 milhões. Zampieri atuava juridicamente em uma das frentes relacionadas ao conflito fundiário.
A investigação sobre o assassinato passou por diferentes etapas desde dezembro de 2023.
No inquérito inicialmente conduzido pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, Caçadini chegou a ser apontado como possível mandante e financiador. Com o avanço das apurações e a realização de diligências complementares, o caso ganhou novos personagens e uma estrutura acusatória mais ampla.
Posteriormente, o Ministério Público apresentou denúncia contra nove pessoas. A acusação passou a apontar Aníbal e Elenice como supostos mandantes, enquanto atribuiu funções distintas aos demais denunciados.
Segundo a denúncia, Antônio Gomes da Silva é apontado como o responsável por efetuar os disparos que mataram Zampieri.
Hedilerson Fialho Martins Barbosa é acusado de atuar como intermediário, participando da contratação do executor e do fornecimento da arma utilizada no homicídio.
Etevaldo Caçadini, por sua vez, é acusado de integrar o financiamento da execução.
Além deles, a denúncia alcançou Gilberto Louzada da Silva, Peterson Venites Komel Júnior, Salézia Maria Pereira de Oliveira e Mario Jorge Bucater, além de Aníbal e Elenice.
O Ministério Público sustenta que a estrutura relacionada ao assassinato estava dividida em quatro núcleos. A acusação também passou a investigar supostos pagamentos destinados a impedir que participantes revelassem quem estaria por trás da contratação do homicídio.
Essas acusações integram outros desdobramentos processuais e não significam condenação dos denunciados.
É justamente nesse contexto que a declaração de Jaime Rodrigues Carvalho ganha peso na abertura do julgamento desta terça-feira. A defesa questiona a reconstrução feita pela investigação e pretende afastar de Caçadini a responsabilidade criminal que lhe é atribuída.
Do outro lado, o Ministério Público deverá defender perante os jurados a acusação construída contra o coronel e os outros dois réus.
O trio responde pelo homicídio de Roberto Zampieri com qualificadoras relacionadas à promessa de recompensa, recurso que dificultou a defesa da vítima, emprego de arma de fogo de uso restrito e concurso de agentes.
Zampieri tinha 56 anos quando foi assassinado na noite de 5 de dezembro de 2023, em frente ao escritório onde trabalhava, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá.
O advogado estava dentro de uma Fiat Toro quando foi surpreendido pelo executor e atingido por diversos disparos.
O julgamento iniciado nesta terça-feira é a segunda tentativa de levar os três acusados ao veredicto do Conselho de Sentença.
A primeira sessão começou em 28 de julho. Seis testemunhas chegaram a prestar depoimento, entre elas delegados da Polícia Civil e da Polícia Federal envolvidos nas diferentes etapas da investigação.
O julgamento, entretanto, não chegou à fase de votação dos jurados.
No segundo dia da sessão, um integrante do Conselho de Sentença apresentou problemas de saúde e precisou receber atendimento médico. Diante da impossibilidade de prosseguir com a mesma composição de jurados, o juiz José Mauro Nagib Jorge dissolveu o conselho e determinou a realização de um novo júri.
Por isso, nesta terça-feira um novo Conselho de Sentença será responsável por analisar as acusações contra Antônio Gomes, Hedilerson Fialho e Etevaldo Caçadini.
O julgamento é presidido pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, da 11ª Vara Criminal, Justiça Militar e Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá. Na acusação atuam os promotores Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva.
Ao longo da sessão, acusação e defesas deverão reconstruir diante dos novos jurados a cadeia de acontecimentos que, segundo a denúncia, culminou na execução de Roberto Zampieri.
A afirmação da defesa de Caçadini de que os “verdadeiros autores, arquitetos e mandantes” poderiam estar fora daquele plenário passa, portanto, a integrar uma das linhas de confronto do julgamento. Caberá ao Conselho de Sentença decidir, a partir das provas apresentadas e das teses sustentadas pelas partes, se os três homens levados ao júri tiveram a participação no homicídio que lhes é atribuída pela acusação.