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Por José Teixeira
Mercados chegam à sexta-feira sob pressão de incertezas fiscais, balanços corporativos e crise de segurança no setor de criptomoedas; dólar acumula forte valorização e investidores acompanham indicadores de emprego e decisões de juros.
O mercado financeiro brasileiro chega à sexta-feira (30 de outubro) depois de uma semana marcada por forte desvalorização das ações, disparada do dólar, incertezas sobre a condução da política econômica e uma sucessão de acontecimentos internacionais que ampliaram a cautela dos investidores. A divulgação de uma queda de 53% no lucro da mineradora Vale e um ataque cibernético estimado em US$ 6,3 bilhões contra a Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, acrescentaram novos fatores de pressão aos negócios.
Na Bolsa brasileira, o Ibovespa acumulava perdas de 16,6% na semana até o fechamento de quarta-feira (28), quando terminou o pregão aos 171.006,10 pontos, após recuar 2,68% naquele dia. O movimento ocorreu em meio à reavaliação dos riscos fiscais e políticos do Brasil, depois do segundo turno das eleições presidenciais.
O dólar também apresentou forte oscilação. Na quarta-feira, a moeda norte-americana encerrou cotada a aproximadamente R$ 5,34, acumulando valorização de 6,95% na semana até aquele momento.
A alta do dólar representa um encarecimento da moeda utilizada como referência nas principais transações internacionais, com possíveis reflexos sobre importações, insumos industriais, combustíveis, fertilizantes e outros produtos negociados no mercado externo.
O movimento também influencia empresas exportadoras, que recebem parte de suas receitas em moeda estrangeira, mas podem enfrentar custos financeiros e operacionais associados às oscilações cambiais.
A combinação de perdas na Bolsa e valorização do dólar reflete uma busca dos investidores por proteção diante de um cenário considerado mais incerto.
Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno presidencial, investidores estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 2,846 bilhões da Bolsa brasileira, segundo dados da B3 divulgados durante a semana.
A saída de recursos externos contribuiu para aumentar a pressão sobre as ações, especialmente em um ambiente no qual os agentes financeiros procuram avaliar a futura condução da política fiscal, a trajetória da dívida pública e as perspectivas para os juros.
O mercado acompanha também as decisões do Banco Central e do Federal Reserve, autoridade monetária dos Estados Unidos.
Na quarta-feira, o Fed manteve sua faixa de juros entre 3,75% e 4% ao ano, decisão que não foi suficiente para interromper a instabilidade no mercado brasileiro.
Os juros norte-americanos influenciam diretamente o fluxo internacional de capitais porque afetam a remuneração dos títulos considerados de menor risco e a atratividade relativa dos investimentos em países emergentes.
Quando os investidores encontram condições mais favoráveis para manter recursos em ativos denominados em dólar, economias como a brasileira podem enfrentar maior volatilidade cambial e pressão sobre seus mercados de ações.
No cenário corporativo, a Vale divulgou na quinta-feira (29) um balanço que reforçou as preocupações com o desempenho das grandes companhias ligadas às commodities.
A mineradora registrou lucro líquido atribuível aos acionistas de US$ 1,255 bilhão no terceiro trimestre de 2026, queda de 53% em relação ao mesmo período do ano passado.
Na comparação com o segundo trimestre deste ano, o lucro apresentou recuo de aproximadamente 9%.
Apesar da redução expressiva do resultado final, a receita líquida da companhia alcançou US$ 10,599 bilhões entre julho e setembro, crescimento de 2% em relação ao terceiro trimestre de 2025.
A diferença entre o comportamento da receita e do lucro mostra que a companhia conseguiu manter o faturamento em patamar elevado, mas enfrentou pressão sobre sua rentabilidade.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, conhecido como Ebitda ajustado, somou US$ 3,327 bilhões, recuo de 24% na comparação anual.
Já o Ebitda proforma informado pela companhia ficou em US$ 3,508 bilhões, com redução de 20% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Os dois indicadores possuem critérios de cálculo diferentes e, por isso, não devem ser tratados como números contraditórios.
A redução do lucro está relacionada ao ambiente de preços das commodities minerais e às condições operacionais e financeiras enfrentadas pela empresa.
O minério de ferro continua sendo um dos principais produtos de exportação do Brasil e possui forte dependência da demanda internacional, especialmente da indústria siderúrgica asiática.
Oscilações no preço internacional do minério afetam diretamente a receita e a rentabilidade das grandes mineradoras, mesmo quando os volumes comercializados permanecem elevados.
A Vale também atua na produção de cobre e níquel, minerais utilizados em diferentes cadeias industriais, incluindo equipamentos elétricos, baterias e infraestrutura.
A companhia informou que manteve suas projeções de produção para 2026 e que os negócios de cobre e níquel seguem em direção à metade superior das faixas previstas para o ano.
A manutenção dessas estimativas sinaliza que a redução do lucro trimestral não levou a empresa, naquele momento, a alterar suas metas operacionais anunciadas para o exercício.
O desempenho da Vale possui relevância para a economia brasileira porque a companhia integra o grupo de maior peso no mercado acionário nacional e participa de uma cadeia de produção e exportação com efeitos sobre transporte ferroviário, portos, fornecedores industriais e arrecadação tributária.
Em Mato Grosso, a repercussão do cenário internacional de commodities deve ser observada especialmente pelo efeito do câmbio e dos custos logísticos sobre o agronegócio.
O Estado possui uma economia fortemente vinculada à produção e à exportação de soja, milho, algodão e carne bovina, produtos cujos preços são influenciados por condições internacionais de oferta e demanda.
A valorização do dólar pode elevar, em reais, a receita de operações de exportação, mas também encarece insumos importados utilizados no processo produtivo.
Fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas e componentes industriais são exemplos de produtos cujos custos podem sofrer influência das oscilações cambiais.
O efeito líquido sobre o produtor depende dos contratos de venda, das operações de proteção cambial, do momento de aquisição dos insumos e das condições específicas de cada atividade.
Portanto, a alta do dólar não representa automaticamente ganho para todo o setor exportador.
Ao mesmo tempo, a instabilidade financeira pode afetar o custo do crédito, a disposição dos investidores para financiar projetos e a avaliação de riscos relacionados a novas operações empresariais.
No mercado internacional, a principal notícia desta sexta-feira é o ataque cibernético contra a Binance, que provocou forte queda das criptomoedas e ampliou a preocupação com a segurança das plataformas digitais.
A corretora informou que o incidente pode ter afetado aproximadamente US$ 6,3 bilhões em ativos digitais.
A dimensão definitiva das perdas ainda está sendo apurada, e o valor estimado dos ativos afetados não deve ser confundido com prejuízo líquido já confirmado.
Segundo as informações divulgadas pela empresa, aproximadamente US$ 3 bilhões em ativos relacionados ao incidente haviam sido congelados por meio de mecanismos de rastreamento e bloqueio utilizados no setor de criptomoedas.
A atuação envolveu a colaboração de empresas emissoras de moedas digitais estáveis, instituições especializadas em análise de transações e autoridades responsáveis pela investigação.
A Tether e a Circle, responsáveis por duas das principais stablecoins utilizadas internacionalmente, participaram do bloqueio de recursos relacionados ao episódio.
A Binance informou que os fundos dos usuários permanecem protegidos e declarou que pretende cobrir eventuais perdas decorrentes do ataque.
A corretora também adotou medidas temporárias de segurança, incluindo a suspensão de depósitos e saques enquanto suas equipes realizavam verificações técnicas.
A investigação inicial aponta que o incidente pode ter começado com o comprometimento de um computador utilizado por um engenheiro da área de operações tecnológicas.
O acesso indevido teria permitido a execução de transações não autorizadas por meio de sistemas internos da plataforma.
A empresa informou que, até aquele momento, não havia identificado evidências de vazamento das chaves privadas utilizadas para proteger suas carteiras digitais.
Essas informações ainda estão sujeitas ao avanço da investigação técnica.
O ataque reacendeu a preocupação com a segurança das grandes plataformas de negociação de criptoativos e provocou uma onda de vendas no mercado.
Durante a madrugada desta sexta-feira, o bitcoin chegou a ser negociado próximo de US$ 76.460, seu menor patamar em aproximadamente seis semanas.
No início da manhã, a criptomoeda apresentava queda próxima de 3%, cotada em torno de US$ 77.409.
Em reais, o bitcoin era negociado próximo de R$ 418 mil, embora a cotação varie continuamente conforme a plataforma e o momento da consulta.
Outras criptomoedas também registraram perdas expressivas.
O ethereum recuava aproximadamente 3,9%, enquanto o XRP apresentava queda próxima de 2,9%. A solana perdia cerca de 3,4%, e o BNB, ativo associado ao ecossistema da Binance, registrava desvalorização de aproximadamente 6,6%.
A queda atingiu especialmente investidores que utilizam operações alavancadas, nas quais o tamanho das posições supera o capital inicialmente aplicado.
Dados de plataformas de acompanhamento do mercado apontaram aproximadamente US$ 1,53 bilhão em liquidações de posições alavancadas em 24 horas.
Desse total, cerca de US$ 1,29 bilhão correspondia a posições que apostavam na valorização dos ativos digitais.
Quando o mercado se movimenta rapidamente na direção contrária à posição do investidor, as plataformas podem encerrar automaticamente as operações para limitar perdas e proteger as garantias exigidas.
Esse mecanismo pode intensificar movimentos de queda, porque as liquidações forçadas acrescentam novas ordens de venda a um mercado que já enfrenta pressão.
No caso do bitcoin, as liquidações alcançaram aproximadamente US$ 499 milhões. O ethereum respondeu por cerca de US$ 358 milhões.
A dimensão do incidente na Binance também despertou preocupação porque a plataforma possui grande participação no volume global de negociações de criptomoedas.
Problemas de segurança em instituições desse porte podem afetar a confiança dos investidores e provocar repercussões em diferentes ativos digitais, mesmo quando não existe ligação direta com as carteiras comprometidas.
O episódio também reacendeu discussões sobre mecanismos de custódia, proteção de recursos dos clientes e fiscalização das empresas que atuam na negociação de criptoativos.
O mercado internacional já havia registrado grandes ataques contra plataformas de criptomoedas, incluindo o episódio envolvendo a Bybit em fevereiro de 2025, quando foram desviados aproximadamente US$ 1,5 bilhão em ativos digitais.
Caso o valor estimado do incidente da Binance seja confirmado como perda efetiva, o episódio poderá superar os principais ataques anteriormente registrados no setor.
Entretanto, o valor final dependerá da identificação dos ativos efetivamente desviados, das quantias recuperadas e da conclusão das investigações.
A turbulência nas criptomoedas ocorre em um momento no qual os mercados tradicionais também enfrentam dúvidas sobre a trajetória dos juros, o crescimento econômico e os resultados financeiros das grandes empresas.
Nos Estados Unidos, investidores acompanham indicadores de emprego e atividade econômica para avaliar a possibilidade de mudanças na política monetária.
Dados que apontem um mercado de trabalho mais aquecido podem reforçar expectativas de manutenção dos juros elevados por mais tempo.
Por outro lado, sinais de desaceleração econômica podem aumentar as apostas em medidas de estímulo, dependendo do comportamento da inflação.
No Brasil, os investidores também observam os indicadores de emprego, inflação, arrecadação e contas públicas.
Essas informações são utilizadas para avaliar a capacidade de financiamento do governo, as perspectivas de crescimento e o comportamento futuro dos juros.
A política fiscal tornou-se um dos principais fatores de atenção após a eleição presidencial, em um cenário no qual o mercado procura identificar quais medidas serão adotadas para controlar despesas, preservar receitas e administrar a dívida pública.
A instabilidade da semana demonstra que o desempenho dos ativos brasileiros depende tanto de decisões domésticas quanto de acontecimentos internacionais.
A queda do lucro da Vale afeta a percepção sobre o setor de mineração e as grandes exportadoras. O ataque à Binance amplia a aversão ao risco no mercado de criptomoedas. A valorização do dólar e a pressão sobre a Bolsa brasileira refletem a cautela dos investidores diante das perspectivas econômicas.
Para Mato Grosso, os desdobramentos mais relevantes estão relacionados ao câmbio, ao custo dos insumos, ao financiamento da produção agropecuária e às condições de exportação.
O Estado depende de cadeias produtivas conectadas ao mercado internacional e pode sentir os efeitos da volatilidade mesmo quando os acontecimentos têm origem fora do país.
A definição do balanço final da semana dependerá do comportamento dos mercados ao longo desta sexta-feira, incluindo a evolução do Ibovespa, do dólar, das ações da Vale e das principais criptomoedas.
Até o início da manhã de 30 de outubro, os números disponíveis mostram uma semana de forte instabilidade, com perdas expressivas na Bolsa brasileira, valorização da moeda norte-americana, redução da rentabilidade da Vale e um incidente de segurança de grande dimensão no mercado global de ativos digitais.
O encerramento do pregão desta sexta-feira permitirá medir o resultado definitivo da semana e verificar se os investidores conseguiram recuperar parte das perdas ou se a pressão sobre os ativos financeiros permaneceu até o fechamento.