após a derrota eleitoral

Casa Branca ajudou e articulou para que Flávio chegasse aos EUA, revela NYT

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Casa Branca ajudou e articulou para que Flávio chegasse aos EUA, revela NYT

Articulação internacional

JB News

Por José Teixeira

Eduardo Bolsonaro acionou Jason Miller após ordem para entrega de passaportes; assessor confirmou participação na organização do avião que transportou o senador

A chegada de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos contou com uma articulação que envolveu seu irmão Eduardo, um funcionário da Casa Branca e uma autorização de entrada atribuída ao presidente Donald Trump. Os detalhes, publicados pelo The New York Times nesta quinta-feira, 29 de outubro, mostram como o candidato derrotado à Presidência brasileira conseguiu chegar a Miami com a família depois de receber ordem para entregar seus passaportes.

Segundo o jornal americano, Jason Miller, integrante da área de comunicação da Casa Branca e aliado da família Bolsonaro, providenciou o jato particular utilizado no deslocamento. Eduardo manteve contato com o assessor, e a organização começou na segunda-feira, 26 de outubro, após Flávio ser informado da determinação judicial sobre os documentos de viagem.

A participação de Miller também foi confirmada pelo Metrópoles. Ao veículo, o estrategista admitiu ter providenciado a aeronave. A informação acrescenta à logística da viagem a atuação de um funcionário ligado ao governo americano, enquanto autoridades brasileiras buscavam impedir que o senador deixasse o país.

Flávio havia sido derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, realizado no domingo, 25 de outubro. A ordem para entregar os passaportes estava relacionada a uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. O senador nega irregularidades e sustenta que sofre perseguição política e judicial.

O trajeto até os Estados Unidos começou pela fronteira entre Brasil e Argentina. Conforme informações atribuídas às autoridades migratórias argentinas, Flávio, a mulher e as duas filhas atravessaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, às 22h50 de terça-feira, 27 de outubro.

Cerca de 40 minutos depois, a família embarcou no avião particular. O Wall Street Journal identificou a aeronave como um Gulfstream de matrícula LV-JQW. O voo passou por Guayaquil, no Equador, para reabastecimento, antes de seguir para a Flórida.

O desembarque ocorreu na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, no Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka. A passagem pela imigração foi autorizada sob o mecanismo conhecido como parole, que permite a entrada temporária de estrangeiros em circunstâncias específicas.

Embora traduzido em algumas publicações como “liberdade condicional”, o termo tem natureza migratória nesse caso. Não significa soltura de uma prisão americana. Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, a autorização concedida ao senador e aos familiares permite a permanência por um ano, com vencimento previsto para outubro de 2027.

O mecanismo é utilizado em situações que envolvem razões humanitárias urgentes ou benefício público significativo. A concessão da autorização não equivale, por si só, à aprovação de um pedido de asilo ou à obtenção de residência permanente.

A ligação entre Miller e os Bolsonaro antecede a viagem. Estrategista republicano com atuação nas campanhas de Trump, ele manteve interlocução com Eduardo e fez manifestações públicas favoráveis ao grupo político brasileiro. Durante a campanha presidencial, chegou a pedir votos para Flávio depois de um encontro do senador com Trump em Washington.

A revelação sobre o avião se soma a informações divulgadas antes do segundo turno sobre a atuação de integrantes do governo americano em relação à disputa brasileira. Em reportagem publicada em 24 de outubro, a Reuters relatou que dois funcionários do Departamento de Estado defenderam medidas destinadas a enfraquecer Lula e favorecer a família Bolsonaro.

A agência identificou os envolvidos como Darren Beattie e Ricardo Pita. A apuração foi baseada em relatos de dez autoridades e ex-integrantes do governo americano com conhecimento do assunto. Segundo essas pessoas, a estratégia incluiu a defesa de sanções e pressões sobre o Brasil.

São episódios distintos: a reportagem da Reuters trata de iniciativas anteriores à votação, enquanto as informações sobre Miller e a autorização migratória descrevem a ajuda recebida por Flávio depois da derrota. Em conjunto, colocam sob questionamento o alcance da atuação de integrantes do governo Trump na política brasileira, sem constituir prova de alteração da contagem dos votos.

Procurada pelo New York Times, a Casa Branca não esclareceu especificamente a participação de Miller na organização do jato e remeteu às declarações públicas de Trump. O Departamento de Segurança Interna informou que Flávio e seus familiares passaram pela inspeção migratória e foram liberados conforme os procedimentos aplicáveis.

Já em território americano, Flávio divulgou uma declaração agradecendo a Trump e ao presidente argentino, Javier Milei. Na primeira versão, apresentou-se como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Depois, apagou a publicação e substituiu a expressão por “líder do Brasil”, mantendo as críticas à eleição e ao Judiciário.

No Brasil, a Polícia Federal informou que investiga as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais pelo senador. A corporação também esclareceu que as restrições aos passaportes e à saída do país não representavam, automaticamente, uma ordem de prisão.