DISPUTA NA CÂMARA
JB News
Por Emerson Teixeira
A possibilidade de o grupo formado em torno da candidatura do vereador Ilde Taques (Podemos) assumir o comando da Câmara Municipal de Cuiabá deverá mudar a relação política entre o Legislativo e o Palácio Alencastro. O prefeito Abilio Brunini (PL) afirmou nesta quarta-feira (30) que enxerga uma forte presença de vereadores de oposição na composição que apoia Ilde e admitiu que, caso esse campo político prevaleça na eleição da Mesa Diretora, a tendência é de uma relação institucional “um pouco mais distante” a partir do próximo ano.
Ao analisar o cenário político da Câmara, Abilio fez uma distinção entre o funcionamento institucional dos dois Poderes e a relação política que mantém individualmente com os parlamentares. Segundo o prefeito, uma eventual vitória do grupo de Ilde não impediria o Executivo de encaminhar projetos ao Legislativo, mas mudaria o ambiente de diálogo construído até agora.
A eleição da Mesa Diretora está marcada para 6 de outubro. Ilde afirma reunir atualmente 15 dos 27 vereadores e, se os apoios forem mantidos até a votação, dispõe de maioria numérica. O próprio vereador, entretanto, rejeita a classificação de oposicionista e sustenta que sempre integrou a base do Executivo, tendo apenas assumido uma posição independente durante a disputa interna pelo comando da Câmara.
Abilio reconhece que Ilde historicamente integrou sua base, mas demonstra preocupação com os parlamentares que passaram a sustentar a candidatura do vereador do Podemos.
Ao falar sobre a composição, o prefeito citou nominalmente vereadores que considera integrantes da oposição ou que, em sua avaliação, passaram a adotar posições contrárias ao Executivo.
“O vereador Dídimo é o quê? É oposição. O vereador de esquerda, na oposição. O vereador Jefferson, de esquerda, na oposição. O vereador Chico 2000 optou pela oposição. O vereador, hoje o Edivair Cabral, oposição também”, afirmou.
Abilio também mencionou outros parlamentares, entre eles Daniel Monteiro, Michelly Alencar, Sargento Joelson e Alex Rodrigues, ao explicar por que considera que a candidatura adversária passou a ser sustentada por um grupo politicamente distante de sua administração.
“Aí esse grupo decide se unir e alguns vereadores que estavam na base optam por se unir a esse grupo. Qual é o pensamento do Poder Executivo ou do prefeito? É que um grupo ligado à oposição optou por construir um projeto para assumir a Câmara Municipal de Cuiabá”, declarou.
A composição política mencionada pelo prefeito é contestada pelo próprio Ilde. O candidato à presidência afirmou nesta semana que continua pertencendo à base de Abilio e que o afastamento ocorreu especificamente em razão da disputa pela Mesa. Ilde também declarou que, caso seja eleito, pretende reconstruir o diálogo com o Executivo e manter cooperação institucional entre Prefeitura e Câmara.
A preocupação apresentada por Abilio vai além da eleição interna do Legislativo. O prefeito utilizou a rejeição da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 como exemplo do que considera consequência prática da deterioração da relação entre Executivo e parte dos vereadores.
A proposta foi rejeitada pela Câmara em 16 de julho. O projeto recebeu 12 votos favoráveis e oito contrários, mas precisava de pelo menos 14 votos para ser aprovado. Outros sete vereadores se abstiveram. A própria Câmara classificou a situação como inédita na história recente do Legislativo cuiabano.
Para Abilio, a rejeição demonstrou que divergências políticas dentro do Legislativo já começaram a alcançar matérias estruturantes da administração municipal.
“Nós tivemos já um posicionamento muito sério, que foi pela primeira vez na história da Câmara Municipal a recusa da LDO”, afirmou.
O prefeito criticou a decisão e argumentou que os vereadores poderiam ter apresentado emendas e alterações antes de rejeitar integralmente a proposta.
“Cabe aos vereadores emendar uma LDO, fazer alterações da LDO e, por fim, aprovar. Isso traz prejuízos para o município? Claro que sim”, declarou.
Abilio também sustentou que a elaboração da LDO passou por audiências públicas e recebeu participação popular. O processo de tramitação da proposta efetivamente incluiu audiências públicas antes da análise pelas comissões e posterior votação em plenário. (Câmara Municipal de Cuiabá)
Para o prefeito, a rejeição da matéria serve como sinal de alerta sobre como poderá funcionar a relação entre os Poderes caso o bloco que hoje sustenta Ilde controle também a direção política e administrativa da Câmara.
“Então, o que nós podemos esperar para o ano que vem? Uma relação institucional um pouco mais distante”, disse.
Abilio comparou ainda o ambiente político de Cuiabá com a relação entre Executivo e Legislativo em Várzea Grande. Segundo ele, a formação de um grupo de oposição controlando a Câmara pode provocar dificuldades institucionais semelhantes às que, na avaliação do prefeito, ocorrem no município vizinho.
“A gente já viu esse cenário em Várzea Grande e está vendo lá em Várzea Grande como está essa situação. Ela é uma situação que traz preocupações para a gente. Não preocupações no sentido de relacionamento parlamentar, mas de relacionamento institucional”, afirmou.
Apesar do tom crítico, Abilio disse esperar que as diferenças políticas não impeçam o funcionamento regular dos dois Poderes.
“Eu espero que o papel institucional seja preservado. Ou seja, o Poder Legislativo cumpra com o seu papel de Poder Legislativo e o Poder Executivo cumpra com o seu papel de Poder Executivo”, declarou.
O prefeito defendeu que as divergências pessoais e eleitorais permaneçam no campo político e não interfiram na análise das matérias de interesse da cidade.
Ao mesmo tempo, deixou claro que a relação política individual com vereadores que adotarem postura de enfrentamento direto contra sua administração poderá ser reduzida. Abilio utilizou Alex Rodrigues (PV) como exemplo.
“Hoje, por exemplo, qualquer pessoa que tenta buscar um contato comigo através do vereador Alex Rodrigues não terá”, afirmou.
Segundo Abilio, não seria coerente manter Alex como interlocutor político direto da Prefeitura enquanto o vereador faz críticas públicas à administração.
“Como eu vou ter o vereador Alex Rodrigues batendo em mim, me ofendendo, me atacando e, ao mesmo tempo, tentando intermediar algum interesse da população junto ao prefeito? Não tem lógica”, disse.
O prefeito ponderou, porém, que considera legítima a existência de oposição dentro do Legislativo. Para ele, a diferença está entre fiscalizar e divergir politicamente da Prefeitura e transformar essa atuação em confronto pessoal.
“Uma coisa é um vereador estar na oposição e ter o seu papel institucional. Outra coisa é o vereador ir para a oposição e querer fazer um papel de picuinha ou fazer o papel de apenas acusação. Faz parte. É a escolha deles”, declarou.
A disputa pelo comando da Câmara ganhou novos contornos depois que Ilde reuniu 15 parlamentares em torno de sua candidatura. O grupo inclui vereadores que sempre estiveram na oposição, parlamentares independentes e nomes que anteriormente mantinham relação de proximidade com o Executivo. (Diario de Cuiabá)
Do outro lado, a atual presidente Paula Calil (PL), que inicialmente buscava permanecer no comando da Casa, recuou da disputa. O grupo governista passou a se movimentar em torno de Dilemário Alencar (União) como alternativa para enfrentar Ilde. (Mídia News)
Ilde, por sua vez, tem procurado afastar a interpretação de que sua eventual eleição significará automaticamente a instalação de uma Câmara de oposição. Nesta semana, afirmou que “sempre foi base”, lembrou que participou da aprovação de projetos importantes para o Executivo e disse que pretende reconstruir a relação com Abilio depois da eleição. (Estadão MT)
É justamente essa diferença de interpretação que marca a reta final da disputa. Enquanto Ilde apresenta sua candidatura como um movimento de independência interna do Legislativo, Abilio considera que a composição formada ao redor do vereador deu peso político à oposição e poderá modificar a interlocução entre os dois Poderes.
A definição ocorrerá em 6 de outubro. Até lá, a disputa pela presidência da Câmara deixou de representar apenas uma eleição administrativa interna e passou a determinar também como poderá funcionar a relação política entre o Palácio Alencastro e o Legislativo cuiabano no próximo biênio.
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