FIM DE UMA ERA

Urnas derrubam dinastia: derrotas de Janaína e Jéssica encerram 32 anos dos Riva no poder em MT

· 6 min de leitura
Urnas derrubam dinastia: derrotas de Janaína e Jéssica encerram 32 anos dos Riva no poder em MT

JB News

Por Nayara Cristina

Derrotas de Janaína para o Senado e de Jéssica na disputa pela Assembleia interrompem presença da família em mandatos estaduais; Wellington Fagundes, sogro de Janaína, também sai derrotado na corrida pelo Governo

As eleições deste domingo, 4 de outubro, produziram uma das maiores mudanças geracionais da política de Mato Grosso. Depois de 32 anos de presença praticamente contínua nos espaços de poder do Estado, a família Riva chegará a 2027 sem mandato eletivo. A derrota de Janaína Riva (MDB) na disputa pelo Senado e o insucesso de sua irmã, Jéssica Riva (MDB), na tentativa de conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa interrompem uma sequência iniciada ainda em 1994, quando José Geraldo Riva foi eleito deputado estadual pela primeira vez.

O resultado ganha dimensão ainda maior porque não atingiu apenas as duas filhas do ex-deputado. Wellington Fagundes (PL), sogro de Janaína e candidato ao Governo, também foi derrotado. Em uma única eleição, portanto, fracassaram três projetos que poderiam colocar o mesmo núcleo político e familiar simultaneamente no Palácio Paiaguás, no Senado Federal e na Assembleia Legislativa.

A eleição de 2026 não significou apenas a troca de nomes. Ela interrompeu uma das mais duradouras sequências familiares da política mato-grossense.

José Riva chegou à Assembleia Legislativa a partir da eleição de 1994 e, ao longo dos anos seguintes, tornou-se um dos personagens mais influentes do Legislativo estadual. Acumulou sucessivos mandatos, comandou a Assembleia em diferentes períodos e exerceu influência política que ultrapassava os limites do Parlamento.

Durante cerca de duas décadas, Riva esteve no centro das articulações políticas de Mato Grosso. Governos mudaram, partidos foram reorganizados, novas lideranças surgiram, mas o então deputado continuou ocupando posição de destaque no tabuleiro estadual.

Quando sua trajetória parlamentar chegou ao fim, a família conseguiu realizar uma transição praticamente imediata.

Em 2014, Janaína Riva disputou pela primeira vez uma cadeira de deputada estadual. Aos 25 anos, recebeu 48.171 votos e foi eleita para a Assembleia Legislativa. Quando o mandato de José Riva terminou, em janeiro de 2015, o sobrenome permaneceu no Parlamento por meio da filha.

Mas Janaína não permaneceu apenas à sombra da trajetória do pai.

Ao longo dos anos seguintes, consolidou uma carreira eleitoral própria, ampliou sua votação e passou a ocupar posições importantes dentro da Assembleia. Em 2018 e novamente em 2022, terminou as eleições como a candidata a deputada estadual mais votada de Mato Grosso.

Foram três mandatos consecutivos.

A parlamentar tornou-se uma das principais lideranças do MDB e passou a figurar permanentemente nas discussões sobre disputas majoritárias no Estado. Depois de mais de uma década na Assembleia, Janaína decidiu que 2026 seria o momento de tentar um voo político maior.

Abriu mão da possibilidade de disputar novamente uma cadeira de deputada estadual e entrou na corrida pelo Senado da República.

Era a eleição mais importante e mais arriscada de sua trajetória.

Mato Grosso escolheria dois senadores, e Janaína iniciou a campanha figurando entre os nomes competitivos. Pesquisas divulgadas durante a disputa chegaram a colocá-la em condições de brigar diretamente por uma das duas cadeiras.

As urnas, entretanto, produziram outro resultado.

Mauro Mendes (União) e José Medeiros (PL) conquistaram as duas vagas destinadas a Mato Grosso no Senado. Janaína terminou fora das cadeiras e sofreu a primeira grande interrupção de sua trajetória eleitoral depois de três vitórias consecutivas para a Assembleia Legislativa.

A derrota tinha ainda uma consequência adicional.

Ao decidir disputar o Senado, Janaína deixava aberta a cadeira política que ocupava havia três legislaturas. Para manter a presença da família na Assembleia, outra integrante dos Riva entrou em cena.

Jéssica Riva, irmã de Janaína e filha de José Riva, lançou-se candidata a deputada estadual pelo MDB.

O movimento poderia ampliar de maneira inédita a presença política da família caso as duas fossem eleitas. Janaína chegaria ao Senado enquanto Jéssica assumiria uma cadeira na Assembleia.

O projeto, porém, não resistiu às urnas.

Jéssica não conseguiu entrar no grupo dos 24 deputados estaduais que formarão a próxima legislatura. A candidata chegou à reta final da campanha aparecendo em posições competitivas em levantamentos de intenção de voto, mas a votação deste domingo não foi suficiente para garantir uma cadeira.

A derrota teve um significado muito maior do que o resultado individual de uma candidatura.

Sem Janaína na Assembleia e sem Jéssica entre os eleitos, a família perdeu a representação parlamentar que vinha mantendo desde a década de 1990.

A sucessão que havia funcionado entre José e Janaína não conseguiu se repetir entre Janaína e Jéssica.

Em 2014, enquanto o pai deixava a Assembleia, a filha conquistava uma cadeira.

Em 2026, quando Janaína resolveu deixar o Legislativo estadual para buscar o Senado, Jéssica tentou assumir esse espaço. Desta vez, o eleitorado não confirmou a continuidade.

É justamente esse movimento que transforma a eleição deste domingo em um marco na história política recente de Mato Grosso.

A derrota de Janaína ocorreu ainda em um cenário particularmente adverso para seu núcleo político e familiar.

Seu sogro, Wellington Fagundes, senador da República e candidato do PL ao Governo do Estado, também terminou o domingo derrotado.

Wellington enfrentou Otaviano Pivetta (Republicanos) na principal disputa eleitoral de Mato Grosso e não conseguiu impedir a vitória do adversário ainda no primeiro turno. Pivetta ultrapassou a barreira necessária para liquidar a eleição e recebeu aproximadamente 61% dos votos válidos.

A dimensão da derrota mostrou que a mudança produzida pelas urnas não ficou restrita às eleições legislativas.

Enquanto Wellington perdia a corrida pelo Palácio Paiaguás, Janaína ficava sem uma das duas cadeiras do Senado e Jéssica não conseguia chegar à Assembleia.

Os três resultados atingiram simultaneamente um núcleo que entrou em 2026 disputando alguns dos cargos mais importantes da eleição mato-grossense.

Wellington poderia assumir o Governo.

Janaína buscava o Senado.

Jéssica tentava chegar à Assembleia.

Nenhuma das três candidaturas alcançou o objetivo.

Embora Wellington não seja integrante da família Riva por origem — ele é sogro de Janaína —, sua presença nesse cenário é politicamente relevante justamente pelo vínculo familiar e pela convergência construída ao redor das candidaturas desta eleição.

O resultado também evidencia uma mudança mais ampla no mapa de poder do Estado.

Otaviano Pivetta venceu a eleição para governador. Mauro Mendes e José Medeiros conquistaram as duas vagas para o Senado. A Assembleia Legislativa saiu das urnas com uma nova distribuição de forças, com o Podemos formando a maior bancada da próxima legislatura.

Dentro dessa reorganização, desaparece do Parlamento estadual um sobrenome que esteve presente por mais de três décadas.

O peso histórico disso pode ser medido pelo tempo.

Quando José Riva foi eleito pela primeira vez, em 1994, Mato Grosso vivia uma realidade política completamente diferente. Desde então, o Estado atravessou sucessivos governos, mudanças partidárias, transformações econômicas profundas e o crescimento acelerado provocado principalmente pelo agronegócio.

Durante todo esse período, primeiro José e depois Janaína mantiveram a família diretamente inserida na estrutura política estadual.

José Riva transformou-se em uma das figuras mais conhecidas da Assembleia Legislativa. Sua carreira também foi marcada por controvérsias, investigações e processos judiciais, elementos que fizeram seu nome ultrapassar durante anos as próprias disputas eleitorais.

Janaína conseguiu construir um caminho diferente e manter competitividade eleitoral mesmo depois do encerramento da trajetória parlamentar do pai.

A força de suas urnas ficou demonstrada principalmente em 2018 e 2022, quando liderou a votação para deputado estadual.

Foi justamente esse desempenho que alimentou a possibilidade de uma candidatura ao Senado.

Mas eleições proporcionais e majoritárias possuem dinâmicas completamente diferentes.

Na disputa por uma cadeira de deputada estadual, Janaína havia construído uma base eleitoral capaz de colocá-la no topo da votação. Na corrida estadual pelo Senado, precisou enfrentar nomes com estruturas políticas igualmente grandes e campanhas construídas para alcançar os 142 municípios.

O resultado mostrou o tamanho desse desafio.

A derrota não elimina Janaína da política de Mato Grosso, nem permite afirmar que a família Riva deixou definitivamente a vida pública. Ela permanece uma liderança conhecida, possui capital eleitoral acumulado e poderá voltar a disputar cargos nas próximas eleições.

O que as urnas encerraram neste domingo é algo mais específico e historicamente mensurável: a sequência ininterrupta de mandatos eletivos da família iniciada com José Riva e mantida posteriormente por Janaína.

É isso que diferencia 2026 das eleições anteriores.

Durante décadas, quando um ciclo parecia chegar ao fim, outro começava.

José Riva deixou o Parlamento, mas Janaína já estava eleita.

Janaína decidiu deixar a Assembleia, mas desta vez a tentativa de transferência política para Jéssica não se concretizou.

Não haverá essa passagem imediata de uma geração para outra.

Quando os deputados estaduais eleitos neste domingo assumirem seus mandatos, em fevereiro de 2027, a Assembleia Legislativa começará uma legislatura sem José Riva, sem Janaína Riva e sem outro integrante da família ocupando uma das 24 cadeiras.

Será a primeira legislatura iniciada nessas condições desde que José Riva entrou para a política estadual na década de 1990.

Por isso, a noite eleitoral deste domingo representa mais do que derrotas individuais.

Ela estabelece uma linha divisória na história recente do poder em Mato Grosso.

O grupo entrou nas eleições de 2026 tentando ampliar sua presença institucional. Poderia terminar o pleito com influência no Governo, representação no Senado e continuidade na Assembleia.

Saiu sem nenhum desses três objetivos.

Wellington Fagundes não conquistou o Governo. Janaína Riva não conquistou o Senado. Jéssica Riva não conquistou a Assembleia.

E, no caso específico dos Riva, a consequência atravessa gerações.

A família que durante 32 anos manteve representação política direta no Estado terá de acompanhar a próxima legislatura fora dos mandatos eletivos que ajudaram a transformar seu sobrenome em um dos mais conhecidos da política mato-grossense.

As urnas não permitem decretar o desaparecimento de nenhuma liderança política. Derrotados podem retornar, alianças podem ser reconstruídas e novos projetos eleitorais podem surgir.

Mas o resultado de 4 de outubro de 2026 já produziu um fato histórico que independe do que acontecerá no futuro.

Depois de mais de três décadas de presença contínua, a próxima legislatura começa sem um Riva no poder em Mato Grosso.