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Por Emerson Teixeira
Prisão de André Barbosa na Bolívia é o mais recente desdobramento da Operação Codinome Fantasma, investigação iniciada em 2024 que atingiu o tráfico, o comércio de armas, a corrupção no sistema prisional e o núcleo financeiro do crime organizado
A prisão do médico André Barbosa, de 38 anos, na Bolívia, representa o mais recente avanço da Operação Codinome Fantasma, uma investigação de longo alcance conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso contra uma facção criminosa com atuação no tráfico de drogas, comércio ilegal de armas, lavagem de dinheiro e infiltração no sistema prisional.
André foi capturado na última sexta-feira (14), em uma ação conjunta da polícia boliviana e da Interpol. Ele era procurado pela Justiça brasileira e tinha mandado de prisão preventiva expedido pela 5ª Vara Criminal de Sinop, no âmbito da terceira fase da operação.
O médico também estava incluído na lista de Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo internacional utilizado para localizar pessoas procuradas pelas autoridades de outros países. A captura ocorreu após um trabalho de inteligência da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) de Sinop, com apoio do Ministério Público de Mato Grosso e da Polícia Federal.
A inclusão do nome do investigado no sistema internacional demonstra que a apuração ultrapassou as fronteiras brasileiras. Segundo a Polícia Civil, a cooperação com a Interpol e com autoridades estrangeiras tornou-se necessária porque alguns alvos deixaram o país ou passaram a mudar constantemente de endereço para dificultar o cumprimento das decisões judiciais.
Com a prisão formalizada na Bolívia, as autoridades brasileiras deverão iniciar os procedimentos para trazer André de volta ao país, conforme as normas e os acordos de cooperação mantidos entre Brasil e Bolívia. Até que esse processo seja concluído, o médico permanecerá sob responsabilidade das autoridades bolivianas.
A investigação que chegou ao médico começou em fevereiro de 2024, quando policiais civis de Sinop identificaram um esquema de tráfico de drogas que também estaria ligado à circulação clandestina de armas e à lavagem do dinheiro obtido com atividades criminosas.
Ao aprofundar a apuração, a Polícia Civil identificou diferentes núcleos de atuação. Um deles seria responsável pela venda e distribuição de drogas; outro faria a compra, troca e comercialização de armas de fogo; e um terceiro teria a missão de recolher, movimentar e ocultar os recursos provenientes dos crimes.
Para disfarçar a origem do dinheiro, os investigados teriam utilizado empresas fictícias ou estabelecimentos legalmente constituídos, mas supostamente inseridos no esquema de lavagem. O nome “Codinome Fantasma” surgiu justamente em referência à criação de pessoas jurídicas de fachada, usadas para simular atividades comerciais e dar aparência legítima ao patrimônio da organização.
A primeira fase foi deflagrada em 24 de outubro de 2024 e levou às ruas 143 ordens judiciais em cinco cidades de Mato Grosso. A operação resultou na prisão de 66 pessoas, além da apreensão de armas, drogas e dinheiro. Naquele momento, a apuração apontou que uma distribuidora de água e gás teria sido utilizada para lavar recursos do tráfico. A ação foi conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso.
A análise de celulares, documentos, movimentações bancárias e demais provas recolhidas nessa primeira ofensiva revelou novos suspeitos e ampliou o alcance da investigação. Os elementos encontrados indicaram que a facção não se limitava à venda de drogas, mas mantinha uma estrutura dividida, com pessoas encarregadas das armas, do dinheiro, das empresas e da comunicação com integrantes presos.
Em maio de 2025, a Polícia Civil deflagrou a Operação Codinome Fantasma II. Foram expedidas 94 ordens judiciais, sendo 31 mandados de prisão, 51 de busca e apreensão e 12 medidas de bloqueio de contas e sequestro de bens. As diligências alcançaram Sinop, Cuiabá e Rondonópolis, além de endereços em Santa Catarina.
A segunda fase revelou uma ramificação considerada especialmente grave: a suspeita de infiltração da facção na Penitenciária Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira, conhecida como Ferrugem, em Sinop. Entre os investigados estava um policial penal suspeito de facilitar a entrada de celulares e outros materiais proibidos na unidade.
Os aparelhos introduzidos irregularmente em presídios são considerados instrumentos estratégicos para as facções porque permitem que integrantes encarcerados continuem transmitindo ordens, organizando cobranças, movimentando dinheiro e comandando crimes do lado de fora. Por isso, ao atingir esse núcleo, a operação procurou interromper a comunicação entre a liderança presa e os executores em liberdade.
Outro grupo investigado atuava principalmente no bairro Jardim Violeta, em Sinop. Conforme a apuração, esse núcleo estaria envolvido com tráfico, lavagem de dinheiro e circulação ilegal de armas destinadas à prática de crimes com violência ou grave ameaça.
A Codinome Fantasma II mobilizou 215 policiais civis e contou com o apoio do Núcleo de Inteligência da Delegacia Regional de Sinop e da Diretoria de Inteligência da Polícia Civil. Os crimes apurados incluíram tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, integração de organização criminosa, posse e porte ilegal de armas, corrupção ativa e passiva e facilitação da entrada de celulares em estabelecimento prisional. A segunda fase deu continuidade às provas reunidas em 2024.
Depois de atacar os núcleos responsáveis pelas drogas, armas e comunicação prisional, a Polícia Civil avançou sobre o patrimônio da organização. Em 24 de março de 2026, foi deflagrada a Operação Codinome Fantasma III, com prioridade para a descapitalização da facção.
Essa etapa teve como principais alvos os empresários Geslaine de Sousa e Ivonei Fernandes, apontados pela investigação como peças centrais do esquema. Segundo a Polícia Civil, os dois estariam ligados tanto à distribuição de entorpecentes quanto à movimentação e ocultação dos valores obtidos ilegalmente.
Geslaine foi presa em Barra de São Francisco, no Espírito Santo, onde estava na casa de familiares e já possuía um mandado de prisão em aberto. Ivonei, por sua vez, foi alvo de ordem de busca e apreensão.
A investigação indica que o casal utilizava uma transportadora sediada em Várzea Grande para movimentar dinheiro de origem criminosa. Além dela, outras empresas dos setores de turismo e alimentos teriam sido inseridas na estrutura. Duas dessas pessoas jurídicas, conforme a apuração divulgada, teriam sido criadas exclusivamente para fazer circular os valores da facção.
O grupo teria movimentado aproximadamente R$ 8 milhões. A estimativa foi obtida a partir da análise patrimonial e financeira dos investigados, que permitiu aos policiais acompanhar os valores enviados por integrantes responsáveis pela distribuição das drogas até as pessoas apontadas como lideranças do esquema.
O delegado José Getúlio Daniel, responsável pela investigação, explicou na época que alguns investigados mudavam constantemente de residência e mantinham mais de um endereço para dificultar o trabalho policial. Mesmo vivendo em outras cidades ou estados, eles teriam continuado vinculados às atividades criminosas praticadas em Sinop.
Na terceira fase, a 5ª Vara Criminal de Sinop autorizou quatro mandados de prisão preventiva, 27 buscas domiciliares e o bloqueio de 30 contas bancárias. A Justiça também determinou a apreensão de caminhões e veículos de passeio, o sequestro de nove imóveis e a suspensão das atividades de quatro empresas.
As medidas patrimoniais ultrapassaram R$ 10 milhões. Os mandados foram cumpridos em Sinop, Santa Carmem, São José dos Quatro Marcos, Cuiabá e Várzea Grande, além de Anápolis, em Goiás, e Barra de São Francisco, no Espírito Santo. A operação contou com a participação das unidades especializadas no combate ao crime organizado dos estados envolvidos. A terceira fase concentrou-se no núcleo financeiro da facção.
Foi dentro dessa frente de investigação que o médico André Barbosa passou a ser procurado. A Polícia Civil atribui a ele suposto envolvimento com a organização criminosa e com a lavagem de dinheiro investigada na Codinome Fantasma III. Os detalhes específicos sobre a função que teria exercido no esquema não foram integralmente divulgados pelas autoridades até o momento.
A prisão na Bolívia, meses depois da deflagração da terceira fase, mostra que a operação permaneceu ativa após o cumprimento inicial dos mandados. O rastreamento dos foragidos continuou por meio do compartilhamento de informações entre a Draco de Sinop, a Polícia Federal, o Ministério Público, a Interpol e as autoridades estrangeiras.
Somadas, as três fases tiveram ao menos 298 ordens judiciais expressamente anunciadas, além de apreensões de drogas, armas, dinheiro, veículos e imóveis. O avanço ocorreu em etapas: primeiro, a identificação e prisão de integrantes; depois, o combate à entrada de celulares no presídio e aos núcleos armados; por fim, o bloqueio das empresas, das contas e do patrimônio que, segundo a investigação, sustentavam a organização.
O impacto da operação sobre o crime organizado está justamente nessa atuação simultânea. A prisão de executores reduz a capacidade operacional imediata, mas o bloqueio financeiro procura impedir que a facção substitua rapidamente os integrantes presos, compre novas cargas de drogas e armas, pague colaboradores ou mantenha apoio aos integrantes encarcerados.
Ao suspender empresas e sequestrar imóveis e veículos, a investigação também busca atingir a tentativa de transformar dinheiro ilegal em patrimônio aparentemente legítimo. Sem essa engrenagem, a facção perde parte da capacidade de inserir os lucros do tráfico na economia formal e de financiar novas atividades criminosas.
A Codinome Fantasma integra a Operação Inter Partes, inserida no programa Tolerância Zero do Governo de Mato Grosso. A estratégia anunciada pelas forças de segurança combina três frentes: prisão de integrantes considerados de alta posição, apreensão de drogas e armas e retirada dos recursos financeiros usados para manter as organizações.
A prisão de André Barbosa não encerra o caso. Ela abre uma nova etapa, que deverá incluir seu retorno ao Brasil, interrogatório e eventual confronto de suas declarações com as provas bancárias, patrimoniais e digitais reunidas durante a investigação.
André e os demais citados são investigados ou acusados no âmbito da operação, e as responsabilidades individuais ainda dependem da análise da Justiça. Todos têm direito ao contraditório e à ampla defesa.