CASO ZAMPIERI

Réu confesso; pistoleiro diz no júri que também mataria desembargador: “Fazia o pacote”

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Réu confesso; pistoleiro diz no júri que também mataria desembargador: “Fazia o pacote”

JB News

Por Nayara Cristina

O réu confesso pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri, Antônio Gomes da Silva, fez uma das declarações mais contundentes do Tribunal do Júri nesta quarta-feira (30), em Cuiabá, ao afirmar durante seu interrogatório que também seria capaz de matar o desembargador aposentado Sebastião de Moraes Filho, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), caso recebesse essa missão e tivesse, segundo ele, certeza do envolvimento do magistrado em corrupção.

Antônio está sendo julgado no Fórum de Cuiabá ao lado do coronel da reserva Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas e de Hedilerson Fialho Martins Barbosa pela participação no homicídio de Zampieri, executado a tiros em 5 de dezembro de 2023, no bairro Bosque da Saúde, na Capital.

A declaração ocorreu quando a defesa questionava Antônio sobre as razões pelas quais ele aceitou executar o advogado. Durante a resposta, o réu passou a fazer críticas à corrupção e foi perguntado diretamente se mataria o desembargador Sebastião caso recebesse a tarefa.

“Sem dúvida”, respondeu. Em outro momento, Antônio afirmou que seria necessário comprovar que o magistrado era corrupto e acrescentou: “Fazia o pacote”.

A declaração do réu não representa conclusão judicial sobre eventual prática criminosa atribuída ao desembargador. As suspeitas envolvendo integrantes do Judiciário passaram a ser investigadas a partir da extração de dados do telefone celular de Roberto Zampieri e resultaram em diferentes procedimentos, inclusive na Operação Sisamnes, conduzida pela Polícia Federal.

Durante o interrogatório, Antônio vinculou sua própria visão sobre o homicídio às informações que posteriormente tomou conhecimento a respeito de suspeitas de corrupção no sistema de Justiça. O executor confesso também afirmou que, após ser preso, teria perguntado a policiais se Zampieri era uma “boa pessoa” e disse ter ficado satisfeito com a resposta que, segundo ele, recebeu.

Zampieri foi morto dentro de seu veículo após deixar o escritório de advocacia. Antônio confessou ter realizado os disparos. A acusação sustenta que Hedilerson atuou como intermediário e que Caçadini participou da estrutura montada para a execução. Os três respondem perante o Tribunal do Júri por homicídio triplamente qualificado.

O caso ganhou uma dimensão muito maior depois da apreensão e perícia do celular da vítima. Conversas e outros dados encontrados no aparelho passaram a subsidiar investigações sobre possíveis negociações de decisões judiciais e relações de Zampieri com integrantes do Judiciário.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) chegou a determinar, em agosto de 2024, o afastamento cautelar de Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho diante de indícios apurados em procedimentos disciplinares. As investigações derivadas do chamado “celular-bomba” de Zampieri avançaram posteriormente para outros personagens do sistema de Justiça.

No primeiro dia do júri, o delegado da Polícia Federal Marco Bontempo também relatou circunstâncias relacionadas a Sebastião de Moraes Filho. Segundo o delegado, o magistrado chegou a ser investigado em uma das linhas de apuração do assassinato e uma mensagem enviada ao telefone de Zampieri minutos depois da execução chamou a atenção dos investigadores pelo conteúdo considerado incomum naquele contexto. O depoimento do delegado, contudo, não estabeleceu responsabilidade do desembargador pela morte.

O julgamento é presidido pelo juiz José Mauro Nagib Jorge. A acusação é conduzida pelos promotores de Justiça Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva Martins.

O Ministério Público sustenta que os três réus levados ao plenário nesta semana representam a estrutura responsável pela execução do homicídio e afirma que a apuração sobre os supostos mandantes tramita separadamente.

A fala de Antônio nesta quarta-feira acrescenta um novo e delicado capítulo ao julgamento justamente porque menciona diretamente um magistrado cujo nome já apareceu nas investigações derivadas do aparelho celular da vítima. Apesar das declarações feitas perante os jurados, eventuais responsabilidades de terceiros dependem das investigações e dos respectivos processos, não sendo objeto de julgamento pelo Conselho de Sentença nesta etapa.