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Da Redação
Otaviano Pivetta (Republicanos) deixou claro nesta terça-feira (1º) que não pretende atravessar o último mês da campanha apenas administrando ataques da oposição. Pressionado durante o primeiro debate televisivo da eleição, o governador respondeu abrindo uma ofensiva política sobre a própria base do principal adversário, Wellington Fagundes (PL), escancarou as portas do Republicanos para novos prefeitos e colocou Gisela Simona como personagem central do governo que pretende comandar a partir de 2027.
A movimentação ocorre justamente quando a campanha de Wellington enfrenta dificuldades para manter unidas lideranças do próprio PL. Em poucos dias, prefeitos importantes da sigla passaram a declarar apoio a Pivetta, entre eles Cláudio Ferreira, de Rondonópolis, e Flávia Moretti, de Várzea Grande. A rebeldia provocou reação da direção liberal, que retirou Cláudio do comando municipal do partido e endureceu o discurso contra filiados que abandonarem o palanque de Wellington.
Pivetta não demonstrou qualquer intenção de reduzir a pressão sobre essa ferida.
“O Republicanos está aberto. Acho que não tem nenhum prefeito precisando de partido. Os que quiserem são muito bem-vindos. Eu vou convidar os bons prefeitos, as boas prefeitas”, afirmou.
A declaração vai além de uma oferta de filiação. No ambiente político atual, funciona como recado aos gestores que permanecem formalmente em partidos adversários, mas já demonstram disposição para caminhar com o governador.
Cláudio Ferreira recebeu tratamento especial.
“O Cláudio é um quadro espetacular. Ele está fazendo um belo trabalho lá em Rondonópolis, aprovação elevada”, disse Pivetta.
O elogio acontece poucos dias depois de o prefeito desafiar o próprio partido e subir no palanque governista. A reação do PL transformou o apoio, que poderia ficar restrito a Rondonópolis, em um problema estadual para Wellington. Agora, toda nova adesão de um liberal a Pivetta tende a reforçar a imagem de divisão dentro da legenda que tenta levá-lo ao Palácio Paiaguás.
Flávia Moretti entrou na mesma equação.
A prefeita de Várzea Grande também contrariou o PL e declarou apoio a Pivetta. Ao falar dela nesta terça-feira, porém, o governador misturou política com uma das maiores fragilidades administrativas da cidade: o abastecimento de água.
“Flávia, nós vamos ajudar Várzea Grande.”
Em seguida, elevou o compromisso.
“Nós não vamos dormir tranquilos enquanto tiver gente sem água encanada em casa, que é o mínimo de dignidade que uma pessoa, uma família, uma mulher, um homem tem que ter. Nós vamos virar essa página.”
A frase projeta Pivetta para dentro de uma pauta municipal que atravessa décadas e afeta diretamente o cotidiano da população de Várzea Grande. Ao assumir o problema como responsabilidade também do Estado, ele fortalece politicamente a aliança com Moretti e transforma a crise da água em promessa eleitoral.
Mas o movimento mais importante da entrevista talvez tenha ocorrido quando Pivetta falou sobre Gisela Simona.
Até aqui apresentada naturalmente como candidata a vice, Gisela ganhou uma dimensão maior no discurso do governador. Pivetta passou a descrevê-la como uma espécie de marca política do governo que pretende construir caso seja reconduzido ao cargo.
“Sinto no meu coração que a presença da Gisela no governo vai nos permitir fazer um governo como nunca antes foi feito.”
A frase tem significado político porque Pivetta precisa resolver uma contradição típica de candidatos à continuidade: defender os resultados do governo Mauro Mendes, do qual participou desde o início, sem transmitir ao eleitor a ideia de que um eventual novo mandato será simplesmente uma reprodução do atual.
Foi por isso que ele fez questão de elogiar Mauro e, na mesma resposta, projetar Gisela como elemento de mudança.
“Com todo respeito ao Mauro, que foi um grande governador, meu companheiro Mauro. A Gisela como uma interlocutora junto do Palácio… Ela é um símbolo. Ela tem simbologia, ela tem história, ela tem identidade, ela tem luz própria. E é por isso que ela é candidata a vice.”
Pivetta, portanto, começa a desenhar uma identidade própria para o projeto que pede às urnas.
Mauro permanece como referência do ciclo administrativo. Gisela aparece como sinal de uma etapa seguinte.
Esse reposicionamento ganhou relevância depois de um debate em que propostas dividiram espaço com acusações sobre passado político, corrupção, violência contra a mulher, servidores públicos e trajetória dos candidatos. Pivetta e Wellington protagonizaram alguns dos confrontos mais fortes do programa, que também teve embates envolvendo Natasha Slhessarenko, Maurício Coelho, Rafaell Milas e Sargento Laudicério. (Gazeta Digital)
Pivetta foi particularmente pressionado por adversários quando o assunto chegou à acusação de violência doméstica feita no passado por sua ex-esposa. O caso teve o inquérito arquivado. Ao ser questionado posteriormente, o governador reagiu dizendo que não aceitará transformar o episódio em arma permanente da eleição.
“Esse assunto está esclarecido. Esse assunto não pode se transformar num espetáculo eleitoral. Eu fico triste. Eu não quero trazer para a cena uma pessoa que tem família. Eu tenho família. A Justiça me inocentou. Foi sofrido para mim. Foi muito sofrido. É um assunto que eu não devo nada. Eu fui inocentado. Simples assim.”
A maneira como Pivetta respondeu indica que sua campanha tentará impedir que o tema passe a determinar sua agenda na reta final.
Em vez de prolongar a discussão, ele imediatamente puxou a entrevista para a própria trajetória e para a ideia de independência.
“Todas as acusações que me imputaram nesse debate, eu me senti muito tranquilo porque não estão falando de mim, na prática. Eu não absorvo o que não é comigo. Eu sou um governador livre.”
É nesse conceito de “governador livre” que Pivetta tenta construir uma das diferenças entre ele e os adversários.
O republicano voltou a recordar que entrou para a política depois de alcançar estabilidade financeira na iniciativa privada.
“Aos 36 anos eu fiz o pé de meia, eu tinha feito o pé de meia, eu pulei para dentro da política para fazer diferente.”
A mensagem tem endereço eleitoral.
Ao insistir que já possuía patrimônio antes de ocupar cargos públicos, Pivetta tenta apresentar sua independência financeira como prova de que não necessita da política para interesses pessoais. A partir daí, reivindica liberdade para tomar decisões e transforma a própria passagem pela Prefeitura de Lucas do Rio Verde em certificado de capacidade administrativa.
“Ninguém contesta o que eu fiz em Lucas, a cidade que nós fizemos lá, sob a minha liderança, o que nós fizemos em Nova Mutum, sob a liderança do meu irmão. Nós somos servidores públicos de corpo e alma. Nós nos inserimos na vida pública para servir.”
A disputa eleitoral, dessa forma, começa a ganhar dois campos bastante definidos.
A oposição tenta cobrar Pivetta pelo passado, pelos problemas ainda existentes no Estado e por episódios capazes de produzir desgaste pessoal. Pivetta tenta responder colocando sobre a mesa aquilo que considera seu território mais seguro: gestão, patrimônio político construído no interior, relação com prefeitos e resultados administrativos.
Essa batalha ficou ainda mais evidente porque a eleição continua competitiva. Levantamentos divulgados ao longo de agosto mostraram Pivetta e Wellington disputando a liderança, sem que nenhum dos dois conseguisse estabelecer uma vantagem confortável.
Nesse cenário, apoios como os de Cláudio Ferreira e Flávia Moretti deixam de ser apenas fotografias de campanha.
Eles passam a ter valor estratégico.
São prefeitos do partido de Wellington que decidiram pedir votos justamente para Pivetta. E quanto mais a direção do PL reage com ameaças de punição, maior tende a ser a repercussão política dessas adesões.
É uma situação que o governador claramente decidiu explorar.
Ao mesmo tempo, Pivetta demonstra que não pretende depender de uma grande liderança nacional para tentar produzir uma arrancada artificial no último mês.
Questionado sobre o que prepara para setembro, respondeu sem anunciar padrinhos ou atos nacionais.
“Viver um dia de cada vez, sempre orientado pela luz divina. Eu tenho muita fé. Eu tenho a posse do necessário, portanto sou livre, tenho minha consciência tranquila e tenho muita fé no futuro.”
O governador ainda aproveitou a entrevista para falar sobre outro componente que poderá interferir diretamente no ambiente econômico de Mato Grosso: o clima.
Com o fim do vazio sanitário e a proximidade do plantio, Pivetta foi questionado sobre possíveis impactos da estiagem na arrecadação e nos investimentos do Estado. Evitou previsões econômicas e disse confiar na retomada das chuvas.
“Tenho certeza que a chuva vai vir.”
Também demonstrou preocupação com o impacto do calor e da baixa umidade sobre crianças e famílias mais vulneráveis e disse acreditar que Mato Grosso começará a superar o período crítico até o fim de setembro.
No conjunto, porém, foi a política que dominou a mensagem de Pivetta.
O governador entrou nesta terça-feira sendo pressionado a explicar passado e saiu apontando para o futuro da própria candidatura.
Abriu as portas para prefeitos, valorizou dois dos principais dissidentes do PL, colocou Gisela Simona num patamar político acima do papel tradicional de vice e avisou aos adversários que não pretende aceitar uma campanha pautada exclusivamente por acusações.
A pouco mais de um mês da eleição, o movimento mostra que Pivetta não quer apenas sobreviver à artilharia da oposição. Quer aproveitar as divisões do outro lado para avançar.
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