JB News
Da redação
Operação Bóreas identificou ao menos nove viagens clandestinas, três aeronaves e uma estrutura formada por líderes, pilotos, operadores logísticos e responsáveis pela movimentação e ocultação do dinheiro
A investigação da Polícia Federal que deu origem à Operação Bóreas revelou a estrutura de uma organização criminosa suspeita de utilizar aeronaves e pistas clandestinas para transportar grandes carregamentos de cocaína e armas de fogo da Bolívia e do Peru para o Brasil. Conforme os elementos reunidos durante a apuração, o grupo teria realizado pelo menos nove operações aéreas entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025, com cargas que variavam de 450 a 500 quilos de droga por voo.
A ofensiva foi deflagrada pela Polícia Federal no dia 25 de agosto, com apoio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Tocantins (FICCO-TO). A operação cumpriu três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão, além de medidas destinadas à apreensão de aeronaves, ao bloqueio de valores e ao sequestro de patrimônio dos investigados.
As ordens foram expedidas pelo juiz federal André Dias Irigon, da 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Tocantins. A Polícia Federal também solicitou a inclusão de dez investigados na lista de Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo utilizado para localizar e prender pessoas procuradas internacionalmente.
Segundo a investigação, a organização mantinha uma divisão estruturada de tarefas, com integrantes responsáveis pela liderança, coordenação logística, execução dos voos clandestinos, suporte em terra, segurança armada, pagamento das despesas e ocultação do patrimônio supostamente obtido com o tráfico.

A apuração aponta que as cargas eram retiradas principalmente da região do Chapare, na Bolívia, e também do Peru. Para ingressar no território brasileiro sem passar pelos pontos convencionais de fiscalização, os suspeitos utilizariam pistas clandestinas localizadas nos países vizinhos e em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins.
Ao menos três aeronaves foram identificadas no decorrer das investigações: um monomotor Cessna 210, de prefixo PS-PIX; um Cessna 182; e um monomotor Bonanza, de prefixo PT-IDT. A Justiça determinou que os aviões fossem apreendidos e encaminhados aos pátios da Justiça Federal em Palmas.
A análise de celulares e mensagens atribuídas aos investigados teria permitido à Polícia Federal reconstruir parte das viagens, identificar os responsáveis pelas aeronaves e mapear a comunicação utilizada durante as operações. Além das centenas de quilos de cocaína, os investigadores encontraram referências ao transporte de armas de grosso calibre, entre elas fuzis.
Apontado como líder da estrutura e proprietário de fato das aeronaves, Eron Ferreira Barata Fonseca, conhecido pelos apelidos de “Boy” e “Paulista”, seria responsável pela coordenação dos fretes clandestinos. Conforme a apuração, ele negociava o transporte das cargas e mantinha contato com pessoas interessadas na contratação dos aviões.
Em uma das conversas anexadas ao processo e divulgadas pela imprensa, Eron teria se definido como “freteiro”, afirmando que trabalhava para quem possuía drogas para transportar. O diálogo é tratado pelos investigadores como um dos indícios da função que ele desempenharia dentro do grupo.
Cleverson Vale Amorim, conhecido como “Clevinho”, e Whylason Ribeiro da Silva Neto, chamado de “Capitão Neto”, são apontados como pilotos responsáveis pela execução das viagens. Herivelto Pinto de Sousa, conhecido como “Cabeça”, também aparece na investigação como integrante do núcleo de pilotos.
Matheus Matias de Oliveira, o “Teteu”, e Hebert Alves Chapino, conhecido como “Ayrton Senna” ou “Toddynho”, teriam a missão de coordenar a logística das operações. Segundo os investigadores, os dois repassavam coordenadas geográficas de pistas clandestinas, frequências de rádio, informações sobre abastecimento e orientações necessárias para o apoio às aeronaves em solo.

Mensagens examinadas pela Polícia Federal apresentariam coordenadas, frequências de comunicação e referências codificadas utilizadas durante os voos. Em uma das conversas, também é mencionada a existência de galões de combustível posicionados no final de uma pista, o que, para os investigadores, demonstra o planejamento necessário para manter os aviões em operação em áreas afastadas.
Márcio Rabello Mesquita Theodoro, conhecido como “Pollo”, irmão da advogada e empresária Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro, também é apontado como integrante dos voos clandestinos. Ele foi preso em fevereiro de 2025, após uma aeronave com aproximadamente 475 quilos de cocaína ser interceptada na região de Caseara, no Tocantins.
Em uma das mensagens atribuídas a Márcio, ele teria mencionado a expectativa de ganhar meio milhão de dólares em apenas um mês e o objetivo de alcançar US$ 1 milhão. Em outro diálogo, teria reclamado do excesso de peso colocado em uma aeronave, afirmando que 600 quilos representavam risco elevado e que quase havia sofrido um acidente.
As comunicações também fazem referência ao suposto transporte de armas. Em um dos diálogos, um interlocutor pergunta se seria possível levar “cinco”, ao que Márcio teria respondido que faria o transporte, desde que os objetos estivessem “sem bala”. A Polícia Federal interpreta a conversa como uma possível negociação envolvendo armamentos.
Anderson Santos Passos seria o responsável pelo pagamento das despesas necessárias à manutenção das aeronaves e à realização das viagens. Ele teria gerenciado transferências de dinheiro e conversões de moedas, inclusive valores em bolivianos destinados ao abastecimento, à hospedagem e ao suporte operacional dos pilotos.
Já Douglas de Azevedo Carvalho, conhecido como “Manxa”, é apontado como uma das pessoas que contratavam os serviços da organização para transportar cocaína. Em mensagem atribuída a ele, Douglas teria falado sobre a retirada de cargas no Chapare e o envio do material para cidades como Belo Horizonte e São Paulo, além de mencionar a possibilidade de realizar entre três e quatro operações por mês.

Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro, sócia do bar Tatu Bola, localizado na Praça Popular, em Cuiabá, aparece na investigação como suposta integrante do núcleo responsável pela ocultação patrimonial e pela lavagem de dinheiro. A Polícia Federal não atribui a ela a liderança dos voos, mas suspeita que contas bancárias, imóveis, veículos e joias teriam sido utilizados para dissimular a origem de valores vinculados ao grupo.
Durante o cumprimento de mandado na residência da empresária, em Cuiabá, os agentes apreenderam R$ 84,8 mil em espécie, um veículo Volkswagen T-Cross e um aparelho celular. Conversas incluídas na investigação mostram Thatiana oferecendo uma coleção de joias de ouro e diamantes e encaminhando diferentes dados bancários para o recebimento de valores, inclusive contas registradas em nome de pessoas físicas e jurídicas distintas.
Thatiana foi presa durante a operação e encaminhada à Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá. Posteriormente, o juiz André Dias Irigon revogou a prisão preventiva por considerar que não havia elementos atuais e individualizados suficientes para manter a empresária encarcerada.
Apesar de deixar a prisão, ela ficou submetida a medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica, a entrega do passaporte e a proibição de deixar o país. A empresária também deverá permanecer à disposição da Justiça e cumprir as demais determinações estabelecidas no processo.
A defesa de Thatiana nega que ela tenha participado do esquema criminoso. Caberá à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal demonstrar se o dinheiro, as movimentações bancárias, as joias e os demais bens identificados durante a apuração possuem relação com o tráfico internacional. As suspeitas ainda serão submetidas ao contraditório e à análise da Justiça.
Além das prisões e apreensões, o magistrado autorizou o acesso e o espelhamento dos dados encontrados nos aparelhos eletrônicos, o bloqueio de ativos financeiros pelo Sisbajud, a indisponibilidade de imóveis por meio da Central Nacional de Indisponibilidade de Bens e a restrição de veículos pelo Renajud.
De acordo com a Polícia Federal, os investigados poderão responder por tráfico internacional de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro, além de outros crimes que eventualmente sejam identificados durante o avanço das investigações. Até uma eventual condenação definitiva, todos devem ser considerados inocentes.