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Por José Teixeira
Presidente critica a mentira, o negacionismo e o milicianismo, promete mudanças nas regras das plataformas digitais e quer fortalecer a tecnologia nacional para reduzir a dependência dos Estados Unidos e da China
Brasília, 25 de outubro de 2026 — Reeleito para um quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou um discurso duro contra seus adversários políticos e a atuação das redes sociais na eleição presidencial de 2026. Em seu primeiro pronunciamento após a vitória, Lula afirmou, conforme trechos relatados da transmissão, que a população brasileira derrotou uma ofensiva digital construída para prejudicar sua candidatura.
O presidente associou o resultado das urnas à derrota do negacionismo e da disseminação de informações falsas durante a campanha. Segundo sua avaliação, a mobilização popular conseguiu superar ataques que teriam buscado influenciar o eleitorado por meio das plataformas digitais.
As declarações reforçam uma das principais bandeiras que Lula pretende levar ao quarto mandato: ampliar a responsabilização das empresas de tecnologia e estabelecer regras mais rígidas contra práticas criminosas na internet.
Lula também relatou constrangimento diante do nível dos confrontos registrados nos debates presidenciais contra Flávio Bolsonaro (PL).
Ao comentar sua experiência política e diplomática, o presidente afirmou que já participou de encontros com importantes líderes mundiais, mas que não imaginava enfrentar, numa disputa presidencial brasileira, adversários que classificou como representantes do milicianismo.
A declaração representa uma acusação política grave dirigida ao campo adversário e marcou o tom de confronto do pronunciamento. A associação feita por Lula não equivale, por si só, à comprovação judicial de envolvimento de seu oponente com organizações criminosas.
Durante a campanha, Lula e Flávio Bolsonaro trocaram acusações em debates televisionados. O enfrentamento ficou especialmente intenso nas discussões sobre segurança pública, corrupção e relações políticas.
Um dos pontos centrais da agenda tecnológica defendida pelo presidente é a necessidade de o Brasil desenvolver suas próprias plataformas e estruturas digitais, reduzindo a dependência de empresas norte-americanas e chinesas.
Lula considera que o país precisa deixar de ocupar apenas a posição de consumidor de tecnologias estrangeiras e passar a produzir soluções nacionais de inteligência artificial, processamento de dados e serviços digitais.
A proposta envolve fortalecer empresas brasileiras, universidades, centros de pesquisa e instituições públicas capazes de desenvolver tecnologias estratégicas.
O objetivo é ampliar a soberania digital, evitando que informações fundamentais para o funcionamento do Estado e da economia brasileira dependam exclusivamente de sistemas controlados por empresas de outros países.
A posição também representa uma preocupação geopolítica: atualmente, Estados Unidos e China disputam a liderança mundial em inteligência artificial, infraestrutura computacional e desenvolvimento de equipamentos avançados.
Lula também defendeu ampliar a participação brasileira na infraestrutura de data centers, instalações responsáveis pelo armazenamento e processamento de grandes volumes de informações.
No pronunciamento relatado, o presidente abordou a necessidade de aumentar a presença nacional nesse setor e aproveitar melhor os recursos minerais, os equipamentos e os insumos utilizados na fabricação das tecnologias.
A referência à possibilidade de ampliar a participação brasileira para metade da infraestrutura ou de seus componentes ainda depende de confirmação documental quanto ao alcance exato da proposta.
O governo já possui uma política de incentivos para o setor. A Lei nº 15.504, de 2026, criou regras para o Redata, programa destinado a estimular a instalação e a modernização de data centers no país.
Pela legislação, empresas beneficiadas precisam disponibilizar ao mercado brasileiro pelo menos 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados abrangida pelos incentivos. Também devem realizar investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Portanto, a eventual meta política de participação nacional de 50% não deve ser confundida com a exigência de 10% já prevista na legislação.
Além da construção de estruturas de processamento, o desafio envolve produzir equipamentos, componentes e soluções tecnológicas em território brasileiro, criando oportunidades para a indústria nacional.
Outro ponto da estratégia é utilizar de maneira mais eficiente as riquezas minerais do Brasil.
O país possui recursos importantes para diferentes cadeias tecnológicas, incluindo minerais empregados na fabricação de baterias, equipamentos eletrônicos, sistemas de energia e componentes industriais.
O desafio, segundo a visão defendida pelo presidente, é fazer com que essas riquezas não sejam apenas exportadas como matéria-prima, mas também contribuam para o desenvolvimento industrial e científico brasileiro.
Isso exige investimentos em pesquisa, beneficiamento mineral, fabricação de componentes e transferência de tecnologia.
A produção nacional de equipamentos poderia gerar empregos especializados, movimentar universidades e ampliar a participação brasileira em setores de maior valor agregado.
Para que o projeto avance, Lula também destacou a importância da formação de profissionais nas áreas científicas e tecnológicas.
O desenvolvimento de plataformas brasileiras, sistemas de inteligência artificial e data centers depende de engenheiros, matemáticos, pesquisadores, programadores e especialistas em processamento de dados.
A ampliação do ensino de matemática e ciências, desde a educação básica, será essencial para preparar novas gerações para essas atividades.
No ensino superior, universidades e institutos de pesquisa deverão desempenhar papel estratégico na formação de profissionais e na produção de conhecimento.
O governo já conta com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que inclui ações de infraestrutura, pesquisa, capacitação e inovação.
A intenção é transformar investimentos científicos em capacidade de produção nacional, reduzindo a vulnerabilidade brasileira diante de mudanças nas relações comerciais e tecnológicas internacionais.
A intenção de estabelecer novas regras para o ambiente digital já constava do programa de governo apresentado por Lula durante a campanha eleitoral.
Entre as propostas estão o combate à desinformação, a proteção de crianças e adolescentes, o fortalecimento da educação digital e uma maior responsabilização das plataformas por conteúdos criminosos.
Antes da eleição, Lula também criticou diretamente a Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, acusando-a de permitir distorções no ambiente digital. A empresa negou favorecer candidatos e afirmou que seus sistemas não distribuem publicações de acordo com preferências ideológicas.
O tema chegou à Justiça Eleitoral, que determinou medidas para impedir tratamento desigual na distribuição de conteúdos políticos durante o segundo turno.
Apesar do discurso firme, Lula não poderá alterar sozinho todas as regras de funcionamento das plataformas digitais.
Mudanças legislativas abrangentes dependerão de aprovação do Congresso Nacional, que terá em 2027 uma composição mais conservadora e uma oposição fortalecida.
O debate deverá envolver questões sensíveis, como liberdade de expressão, transparência dos algoritmos, proteção de dados, combate a fraudes digitais e os limites da atuação do Estado sobre conteúdos publicados na internet.
A oposição poderá questionar eventuais propostas que considere excessivas ou capazes de abrir espaço para censura. O governo, por sua vez, deverá defender que a liberdade de expressão não afasta a responsabilização por crimes.
Os investimentos em infraestrutura nacional também precisarão considerar seus custos, o consumo de energia e água, as exigências ambientais e a necessidade de atrair empresas privadas.
O pronunciamento sinaliza que o combate à desinformação e a busca pela soberania tecnológica poderão ocupar posições centrais no início do quarto mandato de Lula.
Depois de superar Flávio Bolsonaro em uma virada histórica no segundo turno, o presidente passa a enfrentar um novo desafio: transformar as promessas de regulamentação digital, investimentos científicos e fortalecimento da indústria tecnológica brasileira em projetos concretos.
A intenção de reduzir a dependência de plataformas estrangeiras coloca o Brasil diante de uma disputa que envolve economia, educação, segurança de dados e relações internacionais.
Para Lula, o desafio será demonstrar que o país tem capacidade de usar suas riquezas naturais, suas universidades e seus profissionais para conquistar maior autonomia tecnológica.
Ao mesmo tempo, terá de negociar com um Congresso dividido e enfrentar os questionamentos sobre os limites da regulamentação digital.
O quarto mandato poderá, assim, ser marcado não apenas pelo confronto político em torno das redes sociais, mas também por uma tentativa de reposicionar o Brasil na corrida mundial pela inteligência artificial e pela infraestrutura digital.
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