DESAFIOS DO QUARTO MANDATO

Lula terá Congresso mais conservador em 2027, enfrentará desafios na economia, na área social e na governabilidade

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Lula terá Congresso mais conservador em 2027, enfrentará desafios na economia, na área social e na governabilidade

JBNews

Por José Teixeira

PL terá as maiores bancadas da Câmara e do Senado, enquanto o presidente precisará negociar com o Centrão para aprovar projetos, enfrentar a pressão sobre as contas públicas e cumprir promessas de campanha

Brasília, 25 de outubro de 2026 — A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato presidencial representa uma vitória histórica nas urnas, mas o cenário político que o aguarda em 2027 será marcado por dificuldades. O presidente terá pela frente um Congresso Nacional mais conservador, uma oposição fortalecida, governadores ligados à direita em estados estratégicos e desafios econômicos e sociais que exigirão decisões desde o início do novo mandato.

A principal diferença em relação aos primeiros governos de Lula está na composição do Legislativo. O Partido Liberal (PL), legenda de Flávio Bolsonaro, será a maior força tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal.

Dos 513 deputados federais, o PL ocupará 121 cadeiras. A federação formada por PT, PCdoB e PV terá 88 parlamentares, sendo 70 do Partido dos Trabalhadores.

O União Brasil e o Progressistas, reunidos na federação União Progressista, terão 87 deputados. O PSD contará com 43; o Republicanos, com 41; e o MDB, com 36.

O resultado indica que Lula não terá maioria automática para aprovar seus projetos. Para governar, dependerá de acordos com partidos de centro, que frequentemente negociam seu apoio de acordo com o conteúdo das propostas.

Um estudo do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) traçou o cenário de governabilidade para 2027.

Segundo a projeção, Lula poderá contar inicialmente com apenas 124 deputados de apoio consistente. Outros 246 parlamentares são classificados como integrantes de uma base de apoio condicionado, enquanto 143 aparecem no campo da oposição.

Isso significa que a sustentação política do governo não está assegurada, mesmo com uma maioria potencial formada por aliados e partidos dispostos a negociar.

Na prática, o presidente precisará conquistar votos para aprovar matérias como o Orçamento, mudanças tributárias, propostas trabalhistas e reformas constitucionais.

A situação no Senado Federal também será desafiadora.

O PL terá 28 dos 81 senadores, consolidando a maior bancada da Casa. O PT contará com 10 senadores, após ganhar uma cadeira com a eleição de Omar Aziz (PSD) para o Governo do Amazonas. A suplente Cheila Moreira, do PT, assumirá o mandato deixado por Aziz.

O MDB terá oito senadores. PP e União Brasil contarão com seis cada, e o Republicanos terá cinco.

No levantamento do DIAP, o cenário projetado para Lula aponta 16 senadores de apoio consistente, 31 de apoio condicionado e 34 de oposição.

Para aprovar propostas de emenda à Constituição, o governo precisará obter pelo menos 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos de votação em cada Casa.

É justamente nesse ponto que a força da oposição poderá impor limitações à agenda presidencial.

O mapa dos governos estaduais também demonstra o avanço da direita e a força de partidos de centro. O PL conquistou governos importantes, enquanto o PT preservou sua presença no Nordeste.

O Partido dos Trabalhadores terá quatro governadores: Jerônimo Rodrigues, na Bahia; Elmano de Freitas, no Ceará; Rafael Fonteles, no Piauí; e Cadu de Lula, no Rio Grande do Norte.

O PL governará Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e Rio de Janeiro, com Sergio Moro, Jorginho Mello, Luciano Zucco, Marcos Rogério, Arthur Henrique e Douglas Ruas, respectivamente.

O Republicanos controlará quatro estados, entre eles São Paulo, com Tarcísio de Freitas; Minas Gerais, com Cleitinho Azevedo; Espírito Santo, com Lorenzo Pazolini; e Mato Grosso, com Otaviano Pivetta.

O PSD terá cinco governadores: Omar Aziz, no Amazonas; Dr. Furlan, no Amapá; Eduardo Braide, no Maranhão; Raquel Lyra, em Pernambuco; e Fábio Mitidieri, em Sergipe.

O PP comandará Acre, Distrito Federal, Paraíba e Mato Grosso do Sul, com Mailza Assis, Celina Leão, Lucas Ribeiro e Eduardo Riedel.

O PSDB governará Alagoas, com JHC, e Tocantins, com Vicentinho Júnior. O MDB terá Daniel Vilela em Goiás, enquanto o Podemos comandará o Pará com Dr. Daniel.

O resultado evidencia que Lula terá de manter relações administrativas com governadores de diferentes posições políticas. A cooperação será necessária em áreas como segurança pública, saúde, educação, infraestrutura e investimentos federais.

Além das dificuldades políticas, a economia deverá ocupar o centro das decisões do novo mandato.

O governo terá de enfrentar o crescimento da dívida pública, a pressão sobre as despesas obrigatórias e a necessidade de demonstrar responsabilidade fiscal sem interromper programas sociais e investimentos.

A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda projetou crescimento de 2,3% para o Produto Interno Bruto em 2027. A previsão de inflação divulgada pela pasta para o mesmo ano foi de 3,8%.

Entretanto, as consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado apontaram divergências entre as expectativas do governo e as do mercado financeiro, principalmente em relação à inflação, aos juros e à trajetória das contas públicas.

Com taxas de juros ainda elevadas, o governo terá de estimular investimentos produtivos, ampliar o crédito, fortalecer a indústria, incentivar o comércio e buscar crescimento sustentável.

O desafio será equilibrar essas medidas com o controle da dívida e a recuperação da confiança de investidores e consumidores.

Na área social, Lula terá de conciliar a ampliação dos benefícios anunciados durante a campanha com a capacidade financeira do Estado.

Entre as prioridades estarão o Bolsa Família, o Pé-de-Meia, programas habitacionais, geração de empregos e políticas de redução da pobreza.

As consultorias do Congresso já advertiram sobre a necessidade de ajustes no projeto do Orçamento de 2027, inclusive para acomodar o reajuste do Bolsa Família.

O dilema será encontrar recursos para sustentar os programas sem comprometer outras áreas essenciais ou ampliar excessivamente o desequilíbrio fiscal.

Outro desafio será transformar investimentos públicos em melhorias percebidas diretamente pela população.

Na saúde, o governo enfrentará a cobrança pela redução das filas de consultas, exames e cirurgias, pelo financiamento do Sistema Único de Saúde e pela melhoria do atendimento em regiões mais afastadas.

Na educação, será necessário enfrentar dificuldades de aprendizagem, abandono escolar, desigualdades regionais e carência de infraestrutura nas escolas.

Na segurança pública, Lula encontrará pressão por medidas efetivas contra o crime organizado, o tráfico de drogas, as facções criminosas e a violência urbana.

Como a segurança depende de competências compartilhadas entre União e estados, a relação com governadores oposicionistas será especialmente importante.

A caneta presidencial continuará forte, mas encontrará limites

A Presidência da República mantém instrumentos relevantes de poder, como a nomeação de ministros, a condução da política externa, a apresentação de projetos de lei, a proposta de Orçamento e a sanção ou veto de medidas aprovadas pelo Congresso.

Entretanto, a chamada “caneta presidencial” não permite governar sem o Legislativo.

O Congresso pode alterar propostas do Executivo, impor derrotas em votações e derrubar vetos presidenciais. O fortalecimento das emendas parlamentares também ampliou a influência de deputados e senadores sobre a destinação de recursos públicos.

Para Lula, isso significará administrar uma relação permanente de negociação com lideranças partidárias, especialmente as do Centrão.

O cenário para 2027 é de um presidente politicamente vitorioso, mas sem uma base parlamentar sólida equivalente ao tamanho de sua vitória eleitoral.

Lula poderá buscar acordos amplos com o centro político para garantir estabilidade ou enfrentar maior resistência do Congresso caso priorize propostas sem apoio suficiente.

A oposição, por sua vez, terá espaço para fiscalizar o Executivo, apresentar projetos próprios e influenciar a agenda nacional.

O maior teste do quarto mandato será demonstrar capacidade de governar em um país dividido, melhorar as condições econômicas, responder às demandas sociais e preservar o equilíbrio das contas públicas.

A posse presidencial ocorrerá em 5 de janeiro de 2027, conforme o calendário estabelecido pela Emenda Constitucional nº 111, de 2021. Os governadores eleitos tomarão posse no dia seguinte.

A vitória nas urnas garante a Lula o comando do Executivo. Mas será a capacidade de negociação política, de gestão econômica e de entrega de resultados sociais que determinará o desempenho de seu governo até 2030.

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