INADIMPLÊNCIA DE 67,85%

Dois em cada três imóveis não pagam IPTU e deixam R$ 141 milhões em aberto em VG

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Dois em cada três imóveis não pagam IPTU e deixam R$ 141 milhões em aberto em VG

JB News

por Nayara Cristina

Várzea Grande enfrenta um paradoxo que ajuda a explicar parte das dificuldades históricas do município. Enquanto moradores cobram água nas torneiras, ruas pavimentadas, drenagem, iluminação, limpeza urbana, unidades de saúde estruturadas e manutenção dos bairros, a prefeitura deixou de receber mais de R$ 141 milhões referentes ao IPTU de 2026.

Dados da Secretaria Municipal de Gestão Fazendária mostram que 67,85% dos imóveis cadastrados ainda não quitaram o imposto. Dos 162.872 imóveis registrados no município, 110.501 estão inadimplentes. Apenas 52.371 proprietários efetuaram o pagamento, o equivalente a 32,15% do total.

O saldo em aberto chega a R$ 141.173.422,14. Até agora, a arrecadação municipal com o imposto alcançou R$ 60.267.376,59. Isso significa que, para cada imóvel regularizado, aproximadamente outros dois permanecem com pendências tributárias.

O volume não arrecadado surge em um momento crítico para Várzea Grande. A segunda maior cidade de Mato Grosso ainda convive com problemas estruturais acumulados ao longo de décadas e enfrenta dificuldades para garantir serviços básicos a uma população superior a 300 mil habitantes.

A falta de água continua sendo o símbolo mais evidente dessa precariedade. Moradores de diferentes bairros relatam interrupções frequentes, baixa pressão nas redes e longos períodos sem abastecimento. A crise obrigou o município a buscar apoio do Governo do Estado para reativar poços, recuperar equipamentos e aumentar a capacidade de produção.

Embora a tarifa de água seja uma receita específica do Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande e não se confunda com o IPTU, os dois problemas revelam uma fragilidade maior: a dificuldade do município para financiar, manter e ampliar sua estrutura urbana.

A cidade também possui bairros sem pavimentação adequada, vias deterioradas, falhas de drenagem, redes antigas, iluminação insuficiente e demandas crescentes nas áreas de saúde, educação, limpeza e mobilidade. São problemas que exigem planejamento, capacidade técnica e recursos contínuos.

A inadimplência do IPTU não pode ser apontada como a única responsável por esse quadro. Parte da deterioração estrutural é resultado de décadas de expansão urbana sem investimentos proporcionais, falhas de planejamento, baixa capacidade de arrecadação e dificuldades administrativas acumuladas por diferentes gestões.

Por outro lado, deixar R$ 141 milhões fora dos cofres municipais reduz a margem financeira da prefeitura para executar obras, realizar manutenções e oferecer serviços sem depender quase exclusivamente de repasses estaduais, transferências federais, convênios e emendas parlamentares.

O cenário também levanta outro questionamento: por que dois em cada três imóveis não pagaram o imposto? A inadimplência pode refletir dificuldades econômicas das famílias, falta de atualização cadastral, débitos acumulados, imóveis irregulares ou até a insatisfação de contribuintes que não percebem o retorno dos tributos nos bairros onde vivem.

Essa relação entre cobrança e entrega de serviços cria um ciclo difícil de romper. A população deixa de pagar porque não enxerga melhorias, enquanto a prefeitura alega precisar arrecadar para melhorar a cidade.

O Centro de Várzea Grande apresenta a situação mais grave, com 90% de inadimplência. Costa Verde, Jardim Eldorado, Paiaguás, São Mateus, Jardim Ikaray, Colinas Verdejantes e Jardim Paula também estão entre os bairros com os maiores índices de imóveis em débito.

A secretária municipal de Gestão Fazendária, Lucineia Ribeiro, afirmou que o IPTU é uma das fontes utilizadas para financiar os serviços públicos.

“A arrecadação do IPTU é uma das fontes de receita própria do município e contribui para o financiamento de serviços públicos. Todo recurso arrecadado é investido de volta no cidadão por meio dos serviços oferecidos pelo nosso município”, declarou.

Diante do elevado índice de inadimplência, a prefeitura tenta recuperar parte dos créditos com atendimento presencial e renegociação. Os contribuintes podem procurar o Paço Municipal, a Subprefeitura do Cristo Rei ou o Centro de Atendimento ao Contribuinte, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

Também estão disponíveis o atendimento pelo WhatsApp, no número (65) 98404-6296, e a emissão de boletos pelo site oficial da prefeitura. O pagamento pode ser realizado em casas lotéricas com o CPF do titular ou o número de inscrição do imóvel.

O Refis 2026 oferece condições especiais para a regularização das dívidas, com descontos que podem chegar a 80% sobre juros e multas.

A recuperação desses valores, porém, é apenas parte da solução. Para reverter o quadro de inadimplência, a administração municipal também precisará demonstrar ao contribuinte onde o dinheiro está sendo aplicado e transformar o aumento da arrecadação em resultados visíveis.

Em uma cidade marcada pela falta de água e por carências de infraestrutura, cobrar impostos sem melhorar os serviços amplia a desconfiança. Não arrecadar, por sua vez, reduz ainda mais a capacidade de enfrentar os problemas. Várzea Grande está presa entre essas duas realidades e precisa romper um ciclo que atravessa sucessivas administrações.

Os dados oficiais estão disponíveis na publicação da Prefeitura de Várzea Grande⁠.