JB News
Por José Teixeira
As eleições de 2026 ainda nem ganharam as ruas, mas os bastidores da disputa pelo Palácio Paiaguás já vivem uma de suas maiores crises. O rompimento entre o empresário Marcelo Maluf e o senador Wellington Fagundes (PL) escancarou uma guerra interna que atinge diretamente o Partido Novo, coloca em xeque a condução política da campanha liberal e lança dúvidas sobre o espaço que a legenda terá na disputa estadual.
A crise veio à tona depois que Marcelo Maluf divulgou uma nota pública na qual acusa Wellington Fagundes de descumprir um compromisso político firmado durante a construção da chapa majoritária. Segundo o empresário, ele foi comunicado pelo próprio senador de que não será mais o candidato a vice-governador, apesar de afirmar que a decisão de integrá-lo à chapa havia sido construída, formalizada dentro do processo partidário e consolidada durante a convenção.
O episódio ganha contornos ainda mais delicados porque Maluf não era apenas um nome cogitado para a vice. O empresário havia sido lançado pelo Novo como pré-candidato ao Governo de Mato Grosso, assumindo a missão de liderar um projeto próprio da legenda. No decorrer das negociações, entretanto, retirou sua candidatura para atender ao convite de Wellington Fagundes e integrar a chapa como vice-governador. Na prática, abriu mão de disputar o comando do Estado para fortalecer uma aliança que, segundo ele, acabou sendo desfeita de forma unilateral.
Na nota, Maluf afirma que aceitou o convite acreditando na palavra empenhada e na seriedade dos compromissos assumidos. Segundo ele, a decisão não nasceu de uma conversa informal, mas de um acordo político que mobilizou lideranças, estruturou estratégias eleitorais e colocou toda uma campanha em andamento.
O empresário afirma que, ao ser informado de sua retirada da chapa, percebeu que o problema não era apenas a troca de um candidato, mas a forma como a política vinha sendo conduzida. Em um dos trechos mais duros da manifestação, sustenta que política se faz com responsabilidade, compromisso, seriedade e, sobretudo, com palavra, acrescentando que Wellington Fagundes e o PL de Mato Grosso demonstraram enorme dificuldade em compreender esses princípios, contribuindo, segundo ele, para “apodrecer a boa política”.
Maluf também faz um ataque direto à credibilidade do senador. Na avaliação do empresário, quem pretende governar Mato Grosso precisa demonstrar que sua palavra possui valor, respeitando compromissos assumidos, aliados e pessoas que aceitaram caminhar ao seu lado. Em seguida, faz o questionamento mais contundente da nota ao afirmar, em síntese, que não é possível pedir a confiança de mais de três milhões de mato-grossenses quando não se consegue honrar compromissos assumidos dentro da própria estrutura política.
Ainda segundo Maluf, a decisão representa uma falta de respeito não apenas à sua pessoa, mas a todo o projeto político que vinha sendo construído. Ele afirma que pessoas foram mobilizadas, compromissos foram assumidos e apoiadores acreditaram em uma composição que acabou sendo simplesmente descartada. “Não faço política dessa maneira e não aceitarei naturalizar esse tipo de comportamento”, declarou.
O empresário também afirma que Mato Grosso merece uma política marcada pela previsibilidade, seriedade e respeito aos acordos firmados. Na nota, ele sustenta que quem altera compromissos conforme as conveniências do momento precisa explicar à sociedade por que sua palavra de hoje deveria merecer confiança amanhã.
Ao encerrar a manifestação, Maluf afirma deixar o episódio com a consciência tranquila por ter cumprido rigorosamente tudo aquilo que assumiu. Segundo ele, caberá agora aos responsáveis pela mudança responder pelas escolhas realizadas e pela forma como decidiram conduzir o processo.
A crise também expõe um cenário de perda de protagonismo do Partido Novo. Nas eleições municipais de 2024, a legenda ocupou posição central na chapa vencedora de Abilio Brunini à Prefeitura de Cuiabá, elegendo a coronel Vânia Rosa para a vice-prefeitura e consolidando espaço relevante na política da Capital. Dois anos depois, o partido iniciou o processo eleitoral lançando candidatura própria ao Governo do Estado, mas retirou Marcelo Maluf da disputa para integrar a chapa de Wellington Fagundes.
Agora, diante da possibilidade de outro nome ocupar a vaga de vice, o Novo corre o risco de chegar à eleição sem candidatura própria ao Governo e também sem o espaço na chapa majoritária que motivou a construção da aliança com o PL. Nos bastidores, cresce a avaliação de que a legenda deixou de ocupar o banco da frente das articulações para assumir um papel secundário, dependendo das decisões tomadas pelo grupo político comandado por Wellington.
O episódio ainda revela uma evidente contradição política. Há poucas semanas, o próprio Wellington Fagundes defendia publicamente a presença de Marcelo Maluf na chapa, classificando a composição como desejável e destacando que o empresário ajudaria a ampliar a representatividade da Baixada Cuiabana no projeto eleitoral. Agora, segundo a versão apresentada por Maluf, foi o próprio senador quem comunicou que outro nome ocupará a vaga.
Até o momento, Wellington Fagundes não apresentou publicamente sua versão sobre as acusações feitas por Marcelo Maluf nem anunciou oficialmente quem deverá ocupar a vaga de vice-governador.
Enquanto a definição não ocorre, a nota divulgada pelo empresário já produz efeitos políticos. Muito além de uma simples troca de nomes, o documento transforma uma disputa interna em um debate sobre confiança, palavra e credibilidade, justamente no momento em que os candidatos começam a pedir ao eleitor mato-grossense um voto de confiança para governar o Estado pelos próximos quatro anos.
VEJA A NOTA
NOTA À IMPRENSA
Política se faz com responsabilidade, compromisso, seriedade e, sobretudo, palavra. Infelizmente, o senador Wellington Fagundes e o Partido Liberal de Mato Grosso demonstraram enorme dificuldade em compreender o significado desses princípios - o que só contribui para apodrecer a boa política.
Aceitei o convite para integrar, como candidato a vice-governador, a chapa liderada pelo senador Wellington Fagundes. A decisão não foi fruto de uma conversa informal ou de uma possibilidade lançada ao acaso. Foi uma escolha política apresentada, construída e formalizada dentro do processo partidário, inclusive com a realização da convenção.
A partir dessa decisão, compromissos foram assumidos, pessoas foram mobilizadas, estratégias foram definidas e todo um projeto de campanha começou a ser estruturado. Fiz isso de boa-fé, acreditando na palavra empenhada e na seriedade de uma decisão tomada por quem pretende governar Mato Grosso.
Hoje fui comunicado pelo senador Wellington Fagundes de que outro nome será indicado para ocupar a vaga de vice.
Não se trata apenas de uma mudança de candidatura. Trata-se da forma como a política é conduzida.
Quem pretende governar um Estado precisa, antes de tudo, demonstrar que sua palavra tem valor. Precisa respeitar compromissos, aliados e pessoas que aceitaram caminhar ao seu lado. Não é possível pedir confiança a mais de três milhões de mato-grossenses quando não se consegue honrar compromissos assumidos dentro da própria casa.
O que ocorreu comigo representa uma falta de respeito não apenas pessoal, mas política. Um projeto foi prejudicado, pessoas que acreditaram nele foram desconsideradas e compromissos formalmente construídos foram simplesmente descartados.
Não faço política dessa maneira e não aceitarei naturalizar esse tipo de comportamento.
Mato Grosso merece uma política feita com seriedade, previsibilidade e respeito. Quem muda compromissos conforme as conveniências do momento precisa explicar à sociedade por que sua palavra de hoje deverá merecer confiança amanhã.
Saio deste episódio com a consciência tranquila. Cumpri rigorosamente aquilo que assumi. Outros terão de responder pelas escolhas que fizeram e pela maneira como decidiram fazê-las.
Marcelo Maluf