SENTENÇA FINAL

Condenado pelo Tribunal do Júri, Carlinhos Bezerra receberá 36 anos de prisão por execução de ex-companheira e namorado em Cuiabá

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Condenado pelo Tribunal do Júri, Carlinhos Bezerra receberá 36 anos de prisão por execução de ex-companheira e namorado em Cuiabá

JB News

Por Nayara Cristina é

Após um julgamento que se estendeu por aproximadamente 13 horas, o empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, conhecido como Carlinhos Bezerra, foi condenado pelo Tribunal do Júri de Cuiabá a 36 anos de prisão em regime fechado pelos assassinatos da ex-companheira Thays Machado e do então namorado dela, Willian César Moreno, mortos a tiros em 18 de janeiro de 2023, na Capital. A sentença foi proferida pela juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, que também negou ao réu o direito de recorrer em liberdade, determinando o cumprimento imediato da pena.

Ao final da sessão, o Conselho de Sentença acolheu a maior parte da tese apresentada pelo Ministério Público e reconheceu que o feminicídio de Thays foi praticado por motivo torpe, com emprego de meio cruel, mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima e em contexto de violência doméstica e de gênero. No caso da morte de Willian, os jurados também entenderam que houve motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou qualquer possibilidade de reação da vítima. A estratégia da defesa de afastar parte das qualificadoras acabou rejeitada pelos sete jurados.

Durante o julgamento, a acusação reconstruiu toda a investigação conduzida pela Polícia Civil e apresentou depoimentos considerados decisivos para demonstrar que o crime foi resultado de uma perseguição contínua e obsessiva praticada pelo empresário após o término do relacionamento. Foram ouvidos o delegado Marcel Gomes de Oliveira, responsável pelo inquérito, a investigadora Lívia Cristina Silva Sales, que realizou a extração e análise dos aparelhos celulares, o delegado Philipe Pinho, responsável pela prisão do empresário em Campo Verde, além da investigadora Luciene Wolf, policial que atendeu Thays poucas horas antes da execução. O próprio réu também prestou depoimento perante os jurados.

Na sustentação da acusação, o promotor de Justiça Vinícius Gahyva afirmou que Carlinhos desenvolveu um comportamento possessivo e não aceitava o fim da relação, tratando Thays como se fosse sua propriedade. Segundo o Ministério Público, a recusa da vítima em reatar o namoro alimentou um sentimento de obsessão que culminou na execução do casal.

As provas digitais apresentadas durante o júri reforçaram essa linha de investigação. Conforme explicou a investigadora Lívia Sales, somente entre o último dia de 2022 e a data dos assassinatos foram registradas aproximadamente 914 ligações telefônicas feitas por Carlinhos para Thays. Mesmo diante das repetidas negativas da ex-companheira, o empresário continuava insistindo em restabelecer contato.

Outra descoberta chamou atenção dos jurados. A perícia identificou conversas entre Carlinhos e uma mulher cigana, contratada por ele mediante pagamento de R$ 550, com o objetivo de realizar um trabalho espiritual para tentar reatar o relacionamento. Ainda assim, todas as tentativas de aproximação foram rejeitadas pela vítima.

As investigações também revelaram que o empresário monitorava a rotina de Thays de forma permanente. Segundo o delegado Marcel Gomes de Oliveira, a perícia realizada no computador apreendido no escritório do réu encontrou mais de 40 registros de geolocalização, além de impressões contendo os trajetos e deslocamentos da vítima. Para a Polícia Civil, o material demonstrava que Carlinhos conhecia detalhadamente os hábitos e os locais frequentados por Thays.

O delegado ainda relatou que, durante o réveillon de 2023, poucos dias antes do crime, Thays percebeu que estava sendo seguida pelo ex-companheiro. Ao confrontá-lo, recebeu respostas agressivas, questionamentos sobre onde estava e com quem permanecia, além de ofensas. Conforme o inquérito, mesmo após o término, o empresário recusava-se a aceitar o fim da relação. Quando Thays bloqueava seus contatos telefônicos, ele comprava novos chips para continuar insistindo em conversar com ela.

Mensagens recuperadas dos celulares também foram apresentadas aos jurados. Em uma das conversas, Carlinhos exigia saber quem era o novo companheiro da ex-namorada. “Diz o nome. Aí saio fora”, escreveu. Thays respondeu reafirmando que o relacionamento havia terminado e pediu que ambos seguissem suas vidas, desejando felicidade ao empresário.

Ao prestar depoimento, Carlinhos sustentou uma versão diferente da apresentada pela acusação. Disse que acreditava que o relacionamento ainda não havia terminado quando Thays iniciou um namoro com Willian. Contou que, ao encontrar o casal junto, voltou para casa, mas afirmou que não conseguiu dormir e passou a imaginar diversas situações. Segundo ele, pretendia sair para beber, mas acabou encontrando novamente os dois em frente ao prédio onde morava a mãe de Thays.

O empresário declarou que apenas perguntou por que suas ligações não eram atendidas e afirmou que Willian teria reagido chamando-o de “corno babaca” e avançando em sua direção. Alegou que perdeu o controle em questão de segundos e efetuou os disparos, sustentando que teria agido em legítima defesa. A versão, entretanto, foi contrariada pelo conjunto de provas apresentado durante o julgamento e não convenceu o Conselho de Sentença.

Em outro momento do interrogatório, Carlinhos reconheceu que jamais deveria ter cometido o crime, afirmou que o arrependimento o acompanha diariamente e declarou que, se não tivesse encontrado Thays ao lado de Willian naquele dia, os homicídios não teriam ocorrido. Disse ainda que toda a sequência dos disparos aconteceu em cerca de dois segundos.

O empresário também revelou que enfrentou dificuldades para aceitar o fim do relacionamento, chegando a afirmar que sua personalidade seria influenciada pelo fato de ser do signo de Câncer. Contou ainda que tentou tirar a própria vida dentro da prisão ao ingerir cerca de 150 comprimidos de uma única vez e declarou que, durante o período de encarceramento, passou a acompanhar pregações do bispo Edir Macedo como forma de fortalecer o equilíbrio emocional.

O crime ocorreu na tarde de 18 de janeiro de 2023, em frente ao Edifício Residencial Monet, no bairro Consil, em Cuiabá. Thays havia ido até o prédio onde sua mãe morava apenas para entregar uma chave e estava acompanhada de Willian, com quem mantinha relacionamento havia aproximadamente um mês. Na madrugada daquele mesmo dia, o casal havia buscado Willian no aeroporto quando, segundo a investigação, foi abordado por Carlinhos, que já portava uma arma de fogo e teria feito ameaças.

Na ocasião, Thays acionou a Polícia Militar pelo telefone 190 e recebeu orientação para registrar ocorrência na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher e solicitar medidas protetivas, procedimento que acabou não sendo formalizado. Poucas horas depois, já no período da tarde, ela e Willian foram surpreendidos pelos disparos efetuados pelo empresário e morreram no local.

Ainda na noite do crime, Carlinhos foi localizado e preso em uma chácara da família. Durante o primeiro interrogatório na Polícia Civil, confessou a autoria dos assassinatos e alegou sofrer de diabetes e neuropatia, condições que, segundo ele, teriam provocado um intenso desequilíbrio emocional. A tese, contudo, não afastou sua responsabilidade criminal e foi rejeitada pelo Tribunal do Júri, que decidiu condená-lo pelo duplo homicídio qualificado.