JB News
Da redação
ELEIÇÃO DA MESA
Com quatro aliados derrotados nas urnas, ex-vice-prefeito vê disputa pela presidência do Legislativo ganhar peso político; eleição anulada pelo STF, resistência à convocação de nova votação e ação de cinco vereadores na Justiça acirram confronto entre Wanderley e Lucas do Chapéu do Sol
O ex-vice-prefeito de Várzea Grande e atual presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso (Fecomércio-MT), Tião da Zaeli (PL), chega à reta final de 2026 diante de um cenário político marcado por sucessivas derrotas eleitorais de candidatos apoiados por seu grupo e pela ameaça de perder mais um importante espaço de influência no município. Depois de apostar em Wellington Fagundes (PL) para governador, Janaína Riva (MDB) para senadora, Eduardo Botelho (MDB) para deputado estadual e Irajá Lacerda (PSD) para deputado federal, todos derrotados nas urnas de 4 de outubro, o grupo concentra agora suas atenções na permanência de Wanderley Cerqueira (MDB) à frente da Câmara Municipal de Várzea Grande.
A disputa, que inicialmente parecia restrita aos 23 vereadores do município, ganhou dimensão política e jurídica depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou a eleição antecipada da Mesa Diretora para o biênio 2027/2028. O impasse colocou em lados opostos Wanderley Cerqueira, aliado político de Tião, e Lucas do Chapéu do Sol (PL), identificado com o grupo da prefeita Flávia Moretti (PL), adversária política do ex-vice-prefeito.
Mais do que a escolha do próximo presidente da Câmara, a eleição passou a representar uma disputa pela manutenção de espaços de influência dentro da estrutura política de Várzea Grande. Para o grupo associado a Tião, uma nova derrota poderá aprofundar o desgaste provocado pelos resultados das eleições gerais e reduzir sua capacidade de articulação no município. Já uma vitória de Wanderley permitiria preservar um posto estratégico no Legislativo e interromper a sequência de resultados desfavoráveis.
O cenário começou a ser desenhado em 31 de março de 2026, quando Tião da Zaeli formalizou sua renúncia ao cargo de vice-prefeito, colocando fim à aliança administrativa construída com Flávia Moretti nas eleições municipais de 2024. O rompimento ocorreu após meses de divergências políticas, administrativas e disputas por espaços dentro da Prefeitura.
A decisão significou a saída de Tião de um dos principais cargos da administração municipal, conquistado nas urnas ao lado de Flávia. Ao justificar a renúncia, o empresário alegou falta de diálogo, divergências sobre os rumos da gestão e perda de participação nas decisões administrativas.
O movimento também estava relacionado à sua candidatura à presidência da Fecomércio-MT. Em 18 de maio, Tião foi eleito para comandar a entidade empresarial pelos quatro anos seguintes, com início do mandato em 1º de julho de 2026.
A mudança de posição institucional abriu uma nova etapa em sua trajetória. Fora do Executivo municipal e à frente de uma das principais entidades representativas do setor empresarial de Mato Grosso, Tião passou a concentrar parte de sua atuação em articulações políticas estaduais, buscando fortalecer alianças e preservar sua influência no cenário eleitoral.
A estratégia, entretanto, encontrou dificuldades nas urnas.
Na disputa pelo Governo de Mato Grosso, o grupo apostou na candidatura do senador Wellington Fagundes, do PL, que terminou derrotado por Otaviano Pivetta (Republicanos), eleito governador ainda no primeiro turno das eleições de 4 de outubro.
Pivetta conquistou 1.128.099 votos, equivalentes a 60,77% dos votos válidos, enquanto Wellington recebeu 430.442 votos, ou 23,19%. A diferença de quase 698 mil votos representou uma derrota expressiva para o projeto eleitoral defendido por Wellington e pelas lideranças que integraram seu campo de apoio.
O resultado também significou a frustração da tentativa de eleger um governador politicamente alinhado ao grupo que Tião ajudou a fortalecer durante a campanha.
No Senado, o cenário se repetiu com Janaína Riva, do MDB. A parlamentar recebeu 519.434 votos, mas não conquistou nenhuma das duas vagas em disputa, vencidas por Mauro Mendes (União Brasil) e José Medeiros (PL).
A derrota de Janaína teve repercussão especial no cenário político mato-grossense porque interrompeu seu projeto de chegar ao Senado Federal. Para seus aliados, a ausência de uma cadeira no Congresso representou a perda de uma possibilidade de representação política em Brasília.
Na Assembleia Legislativa, outra candidatura apoiada pelo grupo também terminou sem êxito. Eduardo Botelho, do MDB, ex-presidente da Casa e uma das figuras mais influentes do Legislativo estadual nas últimas legislaturas, não conseguiu garantir sua reeleição.
A derrota de Botelho teve peso adicional porque retirou do próximo mandato um parlamentar com longa experiência na condução da Assembleia e capacidade de articulação entre diferentes grupos políticos.
Para o campo associado a Tião, o resultado representou a perda de outra possibilidade de interlocução política dentro do Parlamento estadual.
Na disputa pela Câmara dos Deputados, Irajá Lacerda, do PSD, recebeu 57.887 votos, mas também ficou fora da lista de eleitos.
Com isso, os quatro candidatos apoiados pelo grupo nas principais disputas de 2026 não conseguiram os mandatos pretendidos. Embora tenham concorrido em eleições distintas e enfrentado realidades partidárias e eleitorais diferentes, os resultados passaram a compor um quadro de dificuldades para as alianças políticas construídas pelo ex-vice-prefeito.
É justamente nesse contexto que a eleição para a presidência da Câmara de Várzea Grande assumiu importância ainda maior.
Wanderley Cerqueira, do MDB, atual presidente do Legislativo municipal, mantém proximidade política com Tião e integra o campo de oposição à prefeita Flávia Moretti. A permanência dele no comando da Casa representa, para esse conjunto de lideranças, a possibilidade de conservar um espaço relevante de negociação e influência nas decisões municipais.
Do outro lado está Lucas do Chapéu do Sol, do PL, que disputa o comando do Legislativo para o biênio 2027/2028 e mantém alinhamento político com a prefeita.
A eleição, entretanto, está cercada por um impasse jurídico que se arrasta desde maio.
No dia 14 de maio de 2026, a Câmara Municipal realizou uma sessão extraordinária para escolher antecipadamente a Mesa Diretora responsável pela condução dos trabalhos legislativos nos anos de 2027 e 2028. A disputa foi apertada. Wanderley Cerqueira venceu Lucas do Chapéu do Sol por apenas um voto, obtendo 12 votos contra 11.
O resultado demonstrou o equilíbrio entre os grupos e evidenciou que a mudança de posicionamento de um único parlamentar poderia alterar o resultado da eleição.
A vitória de Wanderley, contudo, acabou sendo anulada pelo Supremo Tribunal Federal.
O ministro Dias Toffoli considerou irregular a antecipação da eleição, realizada em maio, por contrariar o entendimento estabelecido pela Corte sobre o período permitido para a escolha das Mesas Diretoras dos Legislativos.
A decisão, publicada em 21 de maio, apontou que a eleição para o segundo biênio deveria observar o marco temporal de outubro do ano anterior ao início do mandato.
Dessa forma, a votação realizada em maio não poderia produzir efeitos para a composição da Mesa Diretora de 2027/2028.
A Câmara Municipal tentou reverter a decisão, mas, em 26 de junho, Toffoli rejeitou o recurso apresentado e manteve a anulação da eleição que havia reconduzido Wanderley à presidência.
A intervenção do STF modificou completamente o cenário político. Wanderley, que havia assegurado sua permanência por uma diferença mínima de votos, passou a depender da realização de uma nova eleição para tentar conservar o comando do Legislativo no próximo biênio.
Com a chegada de outubro, período considerado adequado para a realização do novo pleito, a pressão pela convocação de uma sessão extraordinária aumentou.
O impasse ganhou força no dia 6 de outubro, quando Wanderley Cerqueira indeferiu um requerimento administrativo que solicitava a definição de uma nova eleição da Mesa Diretora.
O documento havia sido apresentado com a assinatura de 15 dos 23 vereadores da Câmara Municipal, número superior à maioria absoluta dos integrantes da Casa.
A recusa provocou reação entre parlamentares interessados na realização imediata da votação. Durante o debate político, o vereador Rogerinho da Dakar, líder da prefeita Flávia Moretti no Legislativo, criticou a postura do presidente e defendeu que o plenário tivesse participação na decisão sobre a convocação.
A situação deixou de ser apenas uma disputa interna quando cinco vereadores decidiram recorrer novamente ao Poder Judiciário.
Lucas do Chapéu do Sol, Bruno Rios, Jânio Calistro, Adilsinho e Charles da Educação ingressaram com mandado de segurança na 3ª Vara Especializada da Fazenda Pública de Várzea Grande, buscando obrigar o presidente da Câmara a convocar uma sessão extraordinária destinada exclusivamente à eleição da nova Mesa Diretora.
Na ação, os parlamentares solicitaram uma liminar para que a sessão fosse convocada no prazo de 24 horas.
Como pedido alternativo, requereram que a responsabilidade pela condução dos atos necessários à eleição fosse transferida ao primeiro vice-presidente da Câmara, Braz Jaciro, caso Wanderley permanecesse sem convocar a votação.
A justificativa apresentada foi de que a eleição anterior havia sido anulada pelo STF e que, com a chegada de outubro, já não existiria o impedimento temporal que havia invalidado a primeira escolha.
Ao analisar o pedido, o juiz Carlos Roberto Barros de Campos, da 3ª Vara Especializada da Fazenda Pública, decidiu não determinar imediatamente a realização da eleição.
Em decisão proferida no dia 6 de outubro e noticiada no dia 7, o magistrado determinou que Wanderley Cerqueira fosse notificado para apresentar informações no prazo de dez dias sobre a ausência de convocação da nova votação.
O juiz optou por ouvir o presidente antes de analisar a concessão da liminar, considerando que a posse da nova Mesa Diretora ocorrerá somente em janeiro de 2027.
A Câmara Municipal e o Município de Várzea Grande também foram incluídos no procedimento para ciência e eventual manifestação.
Depois da apresentação das informações, ou do encerramento do prazo processual correspondente, o processo deverá ser encaminhado ao Ministério Público de Mato Grosso, que terá prazo para emitir parecer.
Somente após essas etapas o Judiciário poderá voltar a examinar a necessidade de determinar a convocação da eleição por meio de decisão liminar.
Até esta quarta-feira, 14 de outubro, não havia confirmação pública, nas informações consultadas, de uma data oficialmente marcada para a nova votação da Mesa Diretora.
Também não foi localizada decisão posterior determinando a realização imediata da eleição.
O prazo de dez dias concedido ao presidente foi estabelecido na decisão de 6 de outubro, mas o encerramento efetivo da contagem depende da data da intimação e das regras processuais aplicáveis.
Assim, embora outubro seja o período admitido pelo entendimento do STF para a escolha da nova direção legislativa, isso não significa que uma sessão já esteja oficialmente agendada.
A indefinição prolonga o ambiente de tensão política dentro da Câmara e mantém em aberto o resultado de uma disputa que envolve dois grupos com interesses distintos no futuro comando do Legislativo municipal.
Para Wanderley Cerqueira, a eleição representa a possibilidade de assegurar a continuidade de sua gestão à frente da Casa. Para Lucas do Chapéu do Sol, significa a oportunidade de conquistar a presidência depois de ter sido derrotado por margem mínima na eleição posteriormente anulada.
Para Tião da Zaeli, o desfecho poderá ter repercussões que ultrapassam os limites administrativos da Câmara.
O ex-vice-prefeito rompeu com a prefeita, deixou o Executivo e passou a investir em alianças estaduais que não obtiveram os resultados eleitorais pretendidos. Nesse cenário, conservar um aliado no comando do Legislativo representa uma forma de manter presença política em Várzea Grande, município onde construiu uma parcela importante de sua trajetória.
É preciso considerar, entretanto, que o comando da Câmara não significa controle automático sobre os vereadores. A composição do Legislativo depende de articulações permanentes, interesses partidários e entendimentos políticos que podem mudar conforme o contexto.
A votação de maio, decidida por 12 a 11, já havia demonstrado a fragilidade da maioria que sustentava Wanderley naquele momento.
O pedido posterior de nova eleição, apresentado com apoio de 15 vereadores, reforçou a pressão institucional pela realização do pleito, embora a assinatura de um requerimento não signifique necessariamente compromisso de voto com determinada candidatura.
Ainda assim, a movimentação revela que o ambiente político não permaneceu estático depois da anulação determinada pelo STF.
A presidência da Câmara é estratégica porque concentra atribuições importantes relacionadas à condução dos trabalhos legislativos, organização das sessões, tramitação de matérias e interlocução institucional com a Prefeitura.
Em uma cidade marcada por conflitos políticos entre o Executivo e parte do Legislativo, a posição de quem preside a Casa pode influenciar diretamente a dinâmica das negociações e o relacionamento entre os poderes.
Para o grupo de Tião, uma derrota de Wanderley significaria perder a oportunidade de conservar esse espaço na nova Mesa Diretora. Para os aliados da prefeita, a eleição de Lucas representaria a chegada de uma liderança politicamente próxima ao Executivo ao comando da Câmara.
O resultado, portanto, poderá redesenhar parte das relações de força na política municipal.
A situação também expõe uma questão mais ampla: a diferença entre construir alianças eleitorais e transformá-las em vitórias efetivas.
Tião deixou a vice-prefeitura após um rompimento político expressivo e assumiu a Fecomércio-MT com a perspectiva de ampliar sua atuação institucional e representatividade no Estado.
O comando da entidade empresarial lhe assegura uma posição relevante em discussões econômicas, comerciais e de desenvolvimento regional. Entretanto, essa representatividade institucional não se traduz automaticamente em votos ou capacidade de influenciar resultados eleitorais.
As derrotas de Wellington Fagundes, Janaína Riva, Eduardo Botelho e Irajá Lacerda mostram os limites eleitorais das articulações nas quais o grupo esteve envolvido.
Não é possível atribuir esses resultados exclusivamente a Tião, já que cada candidatura enfrentou circunstâncias próprias, disputas partidárias e escolhas do eleitorado. O conjunto de derrotas, porém, constitui um fato político relevante quando observado sob a perspectiva das alianças do ex-vice-prefeito.
O desafio agora é preservar interlocutores e reconstruir pontes políticas num cenário em que outros grupos conquistaram posições importantes no Governo do Estado, na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional.
A eleição da Mesa Diretora de Várzea Grande entra nessa equação porque pode representar a manutenção de um ponto de apoio para futuras articulações municipais, especialmente diante das eleições de 2028.
Uma vitória de Wanderley permitiria ao grupo associado a Tião conservar influência na direção do Legislativo e demonstrar capacidade de articulação em uma disputa direta com o campo político da prefeita Flávia Moretti.
Uma derrota, por sua vez, acrescentaria mais um resultado desfavorável à sequência iniciada nas eleições gerais e poderia acelerar rearranjos entre lideranças que hoje integram o mesmo campo político.
Na política, derrotas sucessivas costumam produzir consequências que vão além das urnas. Elas podem alterar o comportamento de aliados, enfraquecer compromissos partidários e modificar a capacidade de negociação de grupos que anteriormente ocupavam posições estratégicas.
Por isso, o desfecho em Várzea Grande ganhou um significado que ultrapassa a simples alternância na presidência da Câmara.
Depois de apoiar candidatos derrotados para governador, senador, deputado federal e deputado estadual, Tião da Zaeli acompanha uma disputa que poderá preservar ou reduzir ainda mais o espaço político de seu grupo no município.
Wanderley Cerqueira continua sendo uma das principais referências desse campo dentro do Legislativo, enquanto Lucas do Chapéu do Sol representa uma articulação alinhada à prefeita.
A definição dependerá da nova votação, cuja realização permanece envolvida pelo processo judicial e pelas negociações entre os 23 vereadores.
Caso Wanderley consiga a recondução, o resultado poderá representar uma reação política para os aliados do ex-vice-prefeito depois de uma sequência de derrotas eleitorais.
Se Lucas conquistar a presidência, o impacto poderá ser mais profundo, exigindo do grupo de Tião uma reorganização de suas alianças e uma revisão de sua capacidade de influência no município.
Não se trata, necessariamente, do desaparecimento político do ex-vice-prefeito, que continua presidindo uma importante entidade empresarial de Mato Grosso. Trata-se da possibilidade de enfraquecimento de um projeto de articulação política que, até agora, não conseguiu transformar suas principais apostas eleitorais em mandatos.
Depois de perder as disputas pelo Governo, Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa, o grupo associado a Tião tem na eleição da Mesa Diretora uma oportunidade de preservar influência no Legislativo de Várzea Grande.
Se Wanderley perder, a sequência de cinco resultados desfavoráveis poderá alimentar um novo cenário de isolamento político e abrir espaço para o reposicionamento de aliados.
É nesse contexto que a expressão conhecida nos bastidores políticos encontra sentido: depois de quatro derrotas nas urnas, uma eventual quinta derrota na Câmara poderá fazer com que o grupo de Tião da Zaeli tenha de enfrentar a pergunta que nenhum articulador político gostaria de ouvir — quem será o último a apagar a luz?