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Por Nayara Cristina
Capturada na Bolívia após fugir de penitenciária em Cuiabá, Angélica Saraiva de Sá é apontada como mandante de dezenas de execuções no norte do Estado e investigada por comandar esquema de tráfico, extorsão e lavagem de mais de R$ 20 milhões.
Angélica Saraiva de Sá, de 34 anos, conhecida no mundo do crime como “Angeliquinha”, deve ser transferida para Mato Grosso na próxima semana, entre os dias 19 e 25 de outubro, para continuar cumprindo condenações que, somadas, ultrapassam 260 anos de prisão. Apontada pela Polícia Civil como uma das principais lideranças do Comando Vermelho (CV) no Estado, especialmente na região de Alta Floresta, ela foi capturada na Bolívia depois de permanecer mais de um ano foragida do sistema penitenciário mato-grossense.
A previsão de transferência foi divulgada neste sábado (17), mas a data exata, o horário de chegada a Cuiabá, o trajeto e a unidade prisional de destino permanecem sob sigilo por questões de segurança. O recambiamento depende dos procedimentos judiciais e administrativos necessários à transferência da custodiada.
Angeliquinha foi capturada em 22 de setembro de 2026, na cidade de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, durante uma operação conjunta da Polícia Civil de Mato Grosso com autoridades policiais bolivianas. Dois dias depois, em 24 de setembro, foi entregue à Polícia Federal em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, onde passou a aguardar as providências para o retorno ao Estado.
A prisão encerrou uma fuga iniciada em 17 de agosto de 2025, quando Angélica escapou da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, acompanhada de Jéssica Leal da Silva, de 36 anos, conhecida como “Arlequina”, também apontada como liderança de facção criminosa na região de Juína.
Na época da recaptura, Angeliquinha possuía seis mandados de prisão em aberto, expedidos ao longo de 2026, além de um extenso histórico de condenações por homicídios, tráfico de drogas e participação em organização criminosa.
Segundo a Polícia Civil, as investigações apontam que Angélica continuou exercendo influência sobre as atividades da facção mesmo depois de fugir do presídio e deixar o território brasileiro.
A fuga de Angeliquinha e Arlequina, registrada na madrugada de 17 de agosto de 2025, expôs fragilidades na segurança da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May.
De acordo com informações divulgadas na época, as duas detentas estavam custodiadas na cela 11, localizada no Raio 4 da unidade prisional. Elas teriam serrado duas grades da cela e rompido outra estrutura na parte superior do pavilhão, conseguindo alcançar a área externa do presídio.
A saída teria ocorrido por uma região onde funcionava uma obra de instalação de uma fábrica, cujo portão estaria apenas encostado e sem vigilância adequada.
A ausência das presas foi constatada durante a conferência realizada pelos policiais penais por volta das 6h30.
Após o episódio, a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus) informou que a Corregedoria-Geral e o setor de Inteligência iniciaram procedimentos para investigar as circunstâncias da fuga e eventuais falhas de segurança.
Também foram divulgadas informações sobre problemas em equipamentos de monitoramento e insuficiência de servidores em determinados postos de vigilância.
Depois de escapar, Angeliquinha seguiu para a Bolívia, onde, segundo a Polícia Civil, permaneceu na cidade de Santa Cruz de la Sierra.
Durante o período em que esteve escondida, ela teria utilizado documentos falsos e realizado procedimentos estéticos no rosto para modificar a aparência e dificultar sua identificação pelas autoridades brasileiras.
As alterações na aparência foram apontadas pelos investigadores como parte das estratégias utilizadas para permanecer fora do alcance da Justiça.
A localização da fugitiva foi resultado do cruzamento de informações de inteligência, acompanhamento de seus deslocamentos e cooperação entre policiais brasileiros e bolivianos.
A operação envolveu equipes da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO), da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), da Gerência Estadual de Polinter e das forças de segurança da Bolívia.
Uma das declarações mais graves sobre a atuação criminosa de Angélica foi feita pelo delegado Victor Hugo Caetano de Freitas, responsável por investigações de combate ao crime organizado em Mato Grosso.
Em setembro, depois da captura da fugitiva, o delegado afirmou que Angeliquinha seria responsável por determinar aproximadamente 80% dos homicídios ligados a disputas entre facções criminosas em Alta Floresta e municípios vizinhos.
“Ela é a mandante de, vamos colocar, 80% dos homicídios praticados por facção criminosa na cidade de Alta Floresta e circunvizinhas”, declarou Victor Hugo.
A estimativa representa uma avaliação da Polícia Civil sobre a influência atribuída à investigada e não corresponde, necessariamente, ao percentual de homicídios com condenações judiciais definitivas relacionadas a ela.
Segundo o delegado, Angélica exercia o comando de diferentes atividades criminosas na região, incluindo tráfico de drogas, extorsões em áreas de garimpo, circulação ilegal de armamentos e determinação de execuções de integrantes de organizações rivais.
As investigações também apontam que a influência da faccionada não teria sido interrompida durante o período em que permaneceu presa em Cuiabá.
Mesmo dentro da penitenciária feminina, Angeliquinha continuaria ocupando posição de liderança entre integrantes da organização criminosa.
Depois da fuga para a Bolívia, teria mantido contatos e influência sobre integrantes do grupo que atuavam em território mato-grossense.
A localização do país vizinho também é considerada relevante pelas autoridades em razão das rotas utilizadas por organizações criminosas para o tráfico internacional de entorpecentes.
Entre os episódios mais graves associados ao histórico criminal de Angeliquinha está a execução de quatro homens em Alta Floresta, em 2022, em um caso investigado como ação determinada por integrantes do Comando Vermelho contra pessoas apontadas como pertencentes a uma facção rival.
As vítimas foram identificadas como Jefferson Vale Paulino, de 27 anos; Alan Rodrigues Pereira, de 36; João Vitor da Silva, de 19; e Caio Paulo da Silva, de 31 anos.
Segundo as investigações, Angeliquinha teria participado da determinação das execuções, realizadas em meio à disputa pelo controle de atividades criminosas na região.
A investigação sobre os homicídios também envolveu apurações relacionadas à ocultação de cadáveres e à atuação de uma organização criminosa estruturada.
Em 2025, Angélica recebeu condenações que incluíram penas relacionadas a homicídios, ocultação de cadáver e integração à organização criminosa.
Com diferentes processos e sentenças, a soma das condenações atribuídas à faccionada ultrapassou 260 anos de reclusão, conforme os dados divulgados pela Polícia Civil em setembro de 2026.
O total das penas não significa, entretanto, que ela permanecerá necessariamente 260 anos presa. O tempo de cumprimento está sujeito às regras da legislação penal brasileira, incluindo o limite máximo legal de cumprimento de penas privativas de liberdade e as decisões do juízo da execução penal.
A atuação atribuída a Angeliquinha também foi investigada na Operação Showdown, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso em 5 de março de 2026.
A operação teve como objetivo desarticular um núcleo familiar apontado como responsável por fornecer suporte financeiro e operacional às atividades do Comando Vermelho no norte do Estado.
Ao todo, foram expedidas 31 ordens judiciais pela 5ª Vara Criminal de Sinop, incluindo quatro mandados de prisão, sete de busca e apreensão, seis medidas de sequestro de veículos, quatro de sequestro de imóveis, sete bloqueios de contas bancárias e três suspensões de atividades de pessoas jurídicas.
As investigações foram conduzidas pela GCCO/Draco em conjunto com a Delegacia de Alta Floresta.
Entre os alvos estavam familiares de Angeliquinha, incluindo seu pai, Paulo Felizardo, de 52 anos; sua filha, Kauany Beatriz de Sá Silva, de 20 anos; e Guilherme Luareth, de 24 anos, apontado como companheiro de Kauany.
Conforme a Polícia Civil, o grupo familiar teria sido utilizado para movimentar recursos financeiros provenientes de atividades criminosas, principalmente tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
As apurações também identificaram suspeitas relacionadas à utilização de empresas como instrumentos para dissimular a origem dos valores movimentados.
Um dos dados que chamaram a atenção dos investigadores foi a movimentação de aproximadamente R$ 20 milhões, em um período de dois anos, em contas relacionadas à filha de Angeliquinha.
Segundo o delegado Victor Hugo Caetano de Freitas, Kauany não apresentava renda declarada compatível com o volume financeiro identificado.
“A filha dela, uma menina de 20 anos, com uma renda inexistente, movimentou R$ 20 milhões na conta dela”, afirmou o delegado durante a apresentação de informações sobre a investigação.
A Polícia Civil suspeita que os recursos estejam relacionados às atividades da organização criminosa e tenham sido movimentados por meio de pessoas físicas e jurídicas utilizadas para dificultar o rastreamento do dinheiro.
As suspeitas de lavagem de dinheiro e participação no esquema são objeto de investigação e não representam, por si só, condenação definitiva de todos os familiares citados.
Após a captura em território boliviano e a entrega à Polícia Federal, a transferência de Angeliquinha passou a depender dos procedimentos judiciais envolvendo Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
A expectativa divulgada neste sábado é que o retorno aconteça durante a próxima semana.
As autoridades mantêm reservadas as informações operacionais relacionadas à movimentação da presa, especialmente em razão do histórico de fuga, das condenações acumuladas e da posição de liderança atribuída a ela dentro da organização criminosa.
Até o momento, não foi anunciado se Angélica retornará à Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, de onde fugiu em agosto de 2025, ou se será encaminhada a outra unidade considerada mais adequada às condições de custódia.
Também não foram divulgadas informações sobre eventual pedido de inclusão em regime penitenciário de segurança diferenciada.
O retorno da detenta ocorre em um contexto de intensificação das investigações sobre o financiamento de facções criminosas, o tráfico internacional de drogas e a utilização de estruturas familiares e empresariais para movimentação de recursos ilícitos.
Considerada pela Polícia Civil uma das principais lideranças do Comando Vermelho no norte de Mato Grosso, Angeliquinha deverá voltar ao sistema prisional estadual após uma fuga de mais de 13 meses, encerrada por uma operação internacional realizada em setembro.
A transferência representa uma nova etapa da execução das penas já impostas à condenada e das investigações ainda em andamento sobre a atuação atribuída a ela e a integrantes de seu núcleo criminoso.