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Por Nayara Cristina
A inauguração da Italcam Mato Grosso, em Cuiabá, nesta segunda-feira, não foi apenas um ato institucional. O evento consolidou um movimento econômico de longo alcance, inserindo o estado em uma nova fase de integração internacional baseada em comércio qualificado, atração de investimentos e transferência de tecnologia. A missão italiana liderada por Graziano Messana e pelo cônsul-geral Domenico Fornara ocorre em um timing estratégico: logo após a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e a União Europeia, considerado um dos mais relevantes tratados comerciais das últimas décadas.
A fala do governador Otaviano Pivetta sintetiza o eixo central dessa nova etapa. Ao ser questionado se o novo cenário internacional poderia impactar negativamente o atual volume de exportações, ele foi direto: “não atrapalha em nada; pelo contrário, amplia mercado e melhora as condições para negociar”. A afirmação reflete uma leitura técnica do comércio exterior brasileiro, que hoje já opera com forte diversificação geográfica — tendo a China como principal destino (cerca de 26,6% das exportações) e a Europa como um bloco relevante, com aproximadamente 14% de participação.
No caso específico da relação Brasil–Itália, os números mostram uma base consolidada, mas ainda subexplorada. O fluxo bilateral gira entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões por ano, com o Brasil exportando principalmente commodities agrícolas e minerais, enquanto importa da Itália bens de maior valor agregado, como máquinas industriais, equipamentos agrícolas de precisão, tecnologia de processamento e soluções para manufatura. Trata-se de uma relação típica de complementaridade econômica, que agora tende a evoluir para um modelo mais integrado.
Dentro desse cenário, Mato Grosso assume papel estratégico. Maior produtor agrícola do país, o estado é responsável por volumes expressivos de soja, milho, algodão e carne — produtos que alimentam cadeias industriais na Europa, inclusive na Itália. Embora as estatísticas sejam consolidadas em nível nacional, especialistas apontam que uma parcela significativa das exportações brasileiras destinadas ao mercado europeu tem origem direta ou indireta em Mato Grosso.
A diferença agora está na mudança de perfil dessa relação. Durante o encontro, Graziano Messana deixou claro que o objetivo não é apenas ampliar o comércio tradicional, mas estruturar uma presença econômica mais profunda. “O Brasil já é um grande exportador, mas o que queremos é construir uma relação mais sofisticada, com investimento direto, inovação e integração industrial”, indicou. Na prática, isso significa sair de um modelo centrado em exportação de matéria-prima para um ciclo que inclui industrialização local e desenvolvimento tecnológico.
Esse ponto converge diretamente com a estratégia apresentada por Pivetta. O governador destacou que Mato Grosso vive uma transição econômica: de um polo essencialmente produtor para um ambiente que busca agregar valor. “Nós já temos escala e competitividade. Agora precisamos trazer indústria, tecnologia e inteligência para dentro da produção”, afirmou. Segundo ele, a parceria com a Itália pode acelerar esse processo, especialmente em áreas como mecanização avançada, processamento de alimentos, bioenergia e logística.
Hoje, a presença italiana no Brasil já é relevante. Empresas italianas atuam em setores como máquinas agrícolas, armazenagem, infraestrutura e tecnologia industrial. Em Mato Grosso, essa relação ocorre principalmente por meio da venda de equipamentos e soluções tecnológicas voltadas ao agronegócio. Com a instalação da Italcam no estado, a tendência é que esse vínculo avance para investimentos diretos, joint ventures e implantação de unidades produtivas.
Outro fator decisivo é o próprio acordo entre Mercosul e União Europeia. O tratado prevê redução gradual de tarifas, facilitação regulatória e maior segurança jurídica para investidores. Na prática, isso pode reduzir custos de exportação, ampliar margens e tornar produtos brasileiros mais competitivos no mercado europeu. Para Mato Grosso, isso representa a possibilidade de ampliar não apenas o volume exportado, mas também a qualidade dessa pauta.
A leitura econômica predominante entre os participantes do encontro é que o estado está diante de uma janela de oportunidade rara. De um lado, mantém mercados consolidados como a China; de outro, ganha acesso ampliado à Europa, com condições mais favoráveis. Nesse contexto, a Itália surge como porta de entrada estratégica, tanto pela tradição industrial quanto pela capacidade de investimento em inovação.
Ao final da agenda, ficou evidente que a Italcam Mato Grosso não é apenas uma representação institucional, mas um instrumento de política econômica. Ela cria um canal direto entre empresários italianos e o setor produtivo local, reduz barreiras de negociação e acelera decisões de investimento.
A síntese do movimento foi traduzida pelo próprio Pivetta: Mato Grosso não pretende apenas exportar mais, mas exportar melhor — e, sobretudo, produzir com mais tecnologia e valor agregado. Se essa estratégia se consolidar, o estado pode não apenas ampliar sua participação na balança comercial brasileira, mas redefinir seu papel dentro da economia global.
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