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Por Nayara Cristina
Do local Guilherme Augusto
A inauguração do primeiro trecho operacional da Ferrovia Estadual Senador Vicente Emílio Vuolo, realizada neste sábado (20), em Dom Aquino, foi marcada por um duro alerta do governador Otaviano Pivetta sobre os impactos da política econômica nacional nos investimentos em infraestrutura e no crescimento da produção brasileira.
Ao discursar diante de autoridades federais, estaduais e representantes do setor produtivo, Pivetta afirmou que os elevados juros praticados no país estão comprometendo a capacidade de investimento em obras estruturantes e dificultando a expansão da logística nacional. Segundo ele, o Brasil enfrenta um cenário incompatível com projetos de longo prazo, especialmente aqueles ligados ao transporte ferroviário, considerado fundamental para a competitividade do agronegócio e da indústria.
“Com juros de 15% ao ano, é impossível qualquer investimento de longo prazo ter viabilidade econômica”, afirmou o governador.
A declaração foi feita justamente durante a entrega do primeiro trecho da ferrovia que liga Rondonópolis a Dom Aquino, obra considerada um marco para a infraestrutura logística de Mato Grosso. Para Pivetta, a expansão dos trilhos representa uma necessidade estratégica diante do crescimento acelerado da produção agrícola do estado.
O governador destacou que apenas duas locomotivas conseguem transportar uma composição de aproximadamente dois quilômetros e meio, equivalente a cerca de 300 bitrens trafegando simultaneamente pelas rodovias. Segundo ele, isso significa menos acidentes, menor desgaste das estradas, redução dos custos de manutenção da malha viária, maior segurança para os motoristas e diminuição significativa das emissões de poluentes.
“Quem ganha é toda a sociedade. Ganha o produtor, ganha o consumidor, ganha o meio ambiente e ganha a economia brasileira”, ressaltou.
Durante o discurso, Pivetta associou diretamente a dificuldade de expansão da infraestrutura brasileira ao desequilíbrio das contas públicas. Na avaliação dele, o fato de a União gastar mais do que arrecada obriga o governo a buscar recursos constantemente no mercado financeiro, elevando os juros e reduzindo a capacidade de investimento da iniciativa privada.
Segundo o governador, Mato Grosso enfrentou situação semelhante em 2019, quando promoveu um amplo ajuste fiscal para reorganizar as contas públicas. Ele afirmou que o equilíbrio financeiro conquistado permitiu ao estado ampliar investimentos sem comprometer sua saúde fiscal.
“O Mato Grosso fez o dever de casa. Organizamos as contas, reduzimos a dívida e criamos condições para investir. É isso que o Brasil precisa fazer para que os juros voltem a patamares compatíveis com o crescimento econômico”, declarou.
Pivetta também chamou atenção para o impacto dos juros nos próprios financiamentos de infraestrutura. Ele citou o caso da ferrovia estadual, construída com apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), observando que o custo do dinheiro se tornou um dos principais obstáculos para novos projetos.
Segundo ele, quando a concessão foi estruturada, os financiamentos trabalhavam em um ambiente econômico muito diferente do atual. Com a elevação das taxas de juros nos últimos anos, empresas concessionárias passaram a enfrentar maior dificuldade para manter o ritmo dos investimentos inicialmente planejados.
Apesar disso, o governador afirmou que o Estado continuará cobrando o cumprimento integral do contrato firmado com a concessionária Rumo, que prevê a extensão dos trilhos até Cuiabá e, posteriormente, até Lucas do Rio Verde.
“Nós temos um contrato muito bem feito em nome do povo de Mato Grosso. Os trilhos precisam chegar a Cuiabá e seguir para Lucas do Rio Verde. Vamos cobrar o cumprimento desse compromisso”, afirmou.
O governador também voltou a criticar a burocracia ambiental federal, citando como exemplo a demora para obtenção de licenças em obras estratégicas para Mato Grosso. Segundo ele, projetos importantes enfrentam dificuldades que acabam atrasando investimentos e prejudicando o desenvolvimento regional.
Para Pivetta, o Brasil possui mercado, produção, demanda e capacidade empresarial suficientes para ampliar sua infraestrutura. O principal desafio, segundo ele, está em criar um ambiente econômico mais favorável para os investimentos de longo prazo.
O governador lembrou que Mato Grosso adicionou aproximadamente 46 milhões de toneladas à sua produção agrícola nos últimos sete anos — volume equivalente à produção anual de estados inteiros da federação. Diante desse crescimento, afirmou que a ampliação da malha ferroviária deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade econômica.
“Estamos produzindo cada vez mais. O mercado existe, a demanda existe e a ferrovia é essencial para acompanhar esse crescimento. O Brasil precisa voltar a criar condições para investir”, concluiu.
A inauguração da Ferrovia Vicente Vuolo foi acompanhada pelo presidente em exercício Geraldo Alckmin, ministros, parlamentares, prefeitos e representantes do setor produtivo. A obra é considerada a primeira ferrovia estadual do país e integra um dos maiores projetos logísticos em andamento no agronegócio brasileiro.
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