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Por Emerson Teixeira
Sob a presidência de Luciene Carvalho, instituição centenária abre espaço para a diversidade, a cultura popular, as artes urbanas e pessoas em situação de vulnerabilidade
Aos 105 anos, a Academia Mato-grossense de Letras (AML) atravessa um processo de renovação marcado pela abertura de suas portas a públicos que, historicamente, permaneceram distantes das instituições literárias centenárias. Sem abandonar a missão de preservar a memória e valorizar a literatura, a entidade passou a abrigar com maior frequência manifestações da cultura popular, artes urbanas, atividades formativas e debates relacionados à diversidade e à inclusão social.

Essa aproximação ganhou força a partir de 2023, quando a escritora e poeta Luciene Carvalho assumiu a presidência da instituição. Atualmente em seu segundo mandato, ela conduz uma gestão voltada à ampliação do acesso à Casa Barão, sede da Academia localizada no Centro Histórico de Cuiabá, e ao diálogo com diferentes expressões culturais e segmentos da sociedade mato-grossense.
Uma das principais ações desse novo momento é o projeto Casa Aberta, promovido mensalmente, com entrada gratuita, em parceria com o Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel). A programação reúne literatura, ancestralidade, cultura popular, audiovisual, artes urbanas, questões de gênero, manifestações afro-brasileiras e saberes dos povos originários, entre outras linguagens.
Em 2026, o projeto sediou uma mesa temática do V Congresso da Associação Internacional de Estudos Literários e Culturais Africanos (Afrolic), inserindo a Casa Barão no circuito de discussões de um evento internacional. Outras edições trataram da violência contra a mulher, do aniversário de Cuiabá, da identidade mato-grossense, da curadoria, da literatura e de manifestações populares.

A atuação social da AML também avançou com o curso “Identidade Cuiabana – Conhecendo o Patrimônio Histórico e Cultural de Cuiabá”. Desenvolvida em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Defensoria Pública de Mato Grosso, a iniciativa atendeu pessoas em situação de vulnerabilidade social que vivem ou circulam pelo Centro Histórico da Capital.
O trabalho articulou patrimônio, conhecimento, formação e cidadania, aproximando essa população da história e da cultura preservadas no coração de Cuiabá. Ao comentar a experiência, Luciene Carvalho destacou o princípio que orienta a política de inclusão adotada pela Academia.
“Não podemos deixar de fora essa população que já sofre por tanta exclusão”, afirmou.
Os resultados dessa experiência também estão registrados na publicação “Identidade Cuiabana – Vozes poéticas do Centro Histórico”, apresentada entre as novidades das comemorações dos 105 anos. A obra reúne textos de acadêmicos, escritores contemporâneos e pessoas em situação de rua, colocando lado a lado diferentes vivências e interpretações sobre o Centro Histórico.

A transformação institucional também se reflete na composição da própria Academia. Atualmente, as mulheres ocupam aproximadamente 40% das cadeiras da AML, presença considerada significativa na trajetória de uma entidade fundada há mais de um século.
A gestão de Luciene Carvalho carrega ainda um marco histórico. Em 2023, ela se tornou a primeira mulher negra a presidir uma Academia de Letras no Brasil. Reeleita para o biênio 2025–2027, a escritora permanece à frente da AML em uma fase dedicada a aproximar tradição e contemporaneidade, literatura e comunidade, patrimônio e inclusão.
“Assim, ao completar 105 anos, a Academia Mato-grossense de Letras não celebra apenas o tempo transcorrido desde sua fundação. A programação coloca lado a lado memória e contemporaneidade, escritores e comunidade, patrimônio e tecnologia, tradição e novas formas de produzir e compartilhar conhecimento”, destacou Luciene.
Segundo a presidente, os ladrilhos hidráulicos, as paredes construídas em adobe e taipa e o acervo da Casa Barão continuam preservando e contando a história da instituição. Agora, porém, esse patrimônio passa a ser compartilhado com uma parcela mais ampla da sociedade.
“A diferença é que, aos 105 anos, mais pessoas estão sendo convidadas a entrar, ocupar a Casa e também fazer parte dessa história”, completou.
As comemorações começaram nesta terça-feira (8), com a inauguração do Ponto das Letras, reconhecido como Ponto de Cultura da AML. A agenda também contou com um Encontro de Saberes destinado a professores da rede municipal de ensino, com a participação da acadêmica Cristina Campos, além de uma abordagem sobre o Intensivismo e o lançamento de uma cartilha temática.
A programação prossegue nesta quinta-feira (10), a partir das 14h30, com a Ciranda Literária, exposição e venda de livros e a presença de crianças e adolescentes da rede municipal de educação. Também serão realizados o Encontrinho de Saberes, coordenado por Jorge Barbosa, uma Oficina de Cultura Urbana, projeções e atividades envolvendo Inteligência Artificial. O público poderá acompanhar ainda instalações com artefatos relacionados aos povos originários e à cultura urbana.
Às 18h30, haverá a recepção do projeto Casa Aberta e uma visita guiada pela Casa Barão. Às 19h, será realizada a sessão festiva, com saudação do acadêmico Aclyse Mattos e um Encontro de Saberes entre Ricardo Cavaliere, integrantes da AML e a comunidade. A Celebração dos Amigos da AML ocorrerá às 20h. Na sequência, às 20h30, serão lançados uma revista, um game, um totem e um documentário.
O encerramento será no sábado (12), com a Assembleia da AML e um Encontro de Saberes entre o professor e escritor Alberto Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras, e membros da Academia Mato-grossense de Letras.

Todas as atividades são gratuitas e realizadas na Casa Barão, localizada na Rua Barão de Melgaço, nº 3.869, no Centro de Cuiabá. A programação também poderá ser acompanhada pelo canal da Academia Mato-grossense de Letras no YouTube. Mais informações estão disponíveis no Instagram oficial da entidade, pelo perfil @academiamtdeletras.