OPERAÇÃO SILENCIAR

Advogado preso teria levado cliente da delegacia para execução com 16 tiros e 15 facadas em Cuiabá

· 5 min de leitura
Advogado preso teria levado cliente da delegacia para execução com 16 tiros e 15 facadas em Cuiabá

JBNews

Por Emerson Teixeira

Polícia aponta que Ênio Martimiano acompanhou jovem após sua liberação e participou de crime ordenado pelo Comando Vermelho; vítima foi morta por suspeita de ser informante, mas investigação não comprovou delação

O advogado Ênio Martimiano da Cunha Júnior, de 40 anos, preso na manhã desta quarta-feira (14 de outubro), durante a Operação Silenciar, é apontado pela Polícia Civil de Mato Grosso como coautor da tortura e execução de Gabriel Martins Pereira, de 25 anos. Segundo a investigação, o profissional acompanhou o jovem desde sua saída da Central de Flagrantes de Cuiabá até o local onde ele foi assassinado com 16 tiros e 15 golpes de faca, em novembro de 2024.

A revelação foi feita pelo delegado Michael Paes, da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que detalhou a participação dos quatro investigados e afirmou que o assassinato foi motivado por uma suspeita de traição dentro do Comando Vermelho. Os criminosos acreditavam que Gabriel havia repassado informações à Polícia Militar sobre um carregamento de drogas, mas as investigações não encontraram elementos que confirmassem a suposta delação.

O crime aconteceu na madrugada de 8 de novembro de 2024, no bairro Recanto da Siriema, em Cuiabá, depois que Gabriel passou pela Central de Flagrantes, onde havia sido conduzido em razão de uma ocorrência policial envolvendo a apreensão de mais de 100 quilos de entorpecentes.

Na ocasião, a autoridade policial entendeu que não existiam elementos suficientes para manter o jovem preso em flagrante. Gabriel acabou liberado, enquanto a ocorrência envolvendo os entorpecentes continuou sob investigação.

O que deveria representar seu retorno para casa, entretanto, terminou em uma sequência de acontecimentos que culminou em sua morte.

Conforme o delegado Michael Paes, Gabriel estava acompanhado de familiares, do advogado Ênio Martimiano e de outro homem ligado à organização criminosa. Depois da liberação, o advogado e o outro suspeito acompanharam a saída da vítima da unidade policial.

Segundo a reconstrução apresentada pela DHPP, os familiares foram deixados em casa. Posteriormente, o grupo buscou outros dois envolvidos, entre eles um integrante que exercia a função de disciplina da facção criminosa.

A partir desse momento, Gabriel foi levado até uma estrada vicinal, em uma região isolada do bairro Recanto da Siriema, onde teria sido submetido a sessões de tortura antes de ser executado.

O laudo pericial identificou 16 disparos de arma de fogo, 15 golpes de faca e outras lesões no corpo da vítima, incluindo sinais compatíveis com possíveis queimaduras.

Para os investigadores, a violência empregada demonstra que o assassinato não foi um ato impulsivo, mas uma execução planejada, praticada como forma de vingança e intimidação.

SUSPEITA DE DELAÇÃO NÃO FOI CONFIRMADA

Um dos pontos mais relevantes revelados pela investigação é que a acusação utilizada pelos integrantes do Comando Vermelho para justificar a morte de Gabriel não foi comprovada.

De acordo com o delegado Michael Paes, os criminosos passaram a desconfiar do jovem depois que a Polícia Militar apreendeu uma quantidade expressiva de drogas. A facção acreditava que Gabriel havia fornecido informações sobre a localização dos entorpecentes.

Entretanto, a investigação da DHPP não encontrou confirmação de que ele tivesse colaborado com as forças de segurança.

“A gente acha que nem foi ele. Foi um mérito da Polícia Militar que localizou essa droga”, afirmou o delegado.

A avaliação policial indica que a apreensão ocorreu em decorrência do trabalho desenvolvido pelos militares e não necessariamente por informações transmitidas pela vítima.

Mesmo sem comprovação da suposta delação, Gabriel foi submetido à punição determinada pelos integrantes da organização criminosa.

Para a DHPP, o homicídio também tinha a finalidade de espalhar medo entre moradores e integrantes da própria facção, demonstrando as consequências impostas a quem fosse considerado informante.

ADVOGADO É APONTADO COMO COAUTOR

A participação atribuída ao advogado Ênio Martimiano da Cunha Júnior é um dos aspectos centrais da Operação Silenciar.

Segundo a Polícia Civil, ele não teria apenas prestado assistência jurídica a Gabriel durante sua passagem pela delegacia. Os elementos reunidos pela investigação apontam que o profissional acompanhou os acontecimentos posteriores à liberação e esteve presente no local da execução.

O delegado Michael Paes afirmou que os investigadores conseguiram reunir elementos técnicos que indicam a presença dos quatro suspeitos na cena do assassinato.

“Ficou muito claro na investigação que os quatro indivíduos estavam no local. A gente tem dados técnicos que comprovam isso”, declarou.

A Polícia Civil também suspeita que Ênio mantinha vínculos com integrantes da organização criminosa, aos quais prestaria suporte jurídico havia anos.

O delegado destacou, entretanto, que a defesa de pessoas investigadas ou integrantes de organizações criminosas constitui uma atividade legítima da advocacia. O que está sendo atribuído a Ênio é uma conduta que, conforme a investigação, teria ultrapassado os limites da atuação profissional e representado participação direta em um homicídio.

O advogado foi preso preventivamente em sua residência, no bairro Pascoal Ramos, em Cuiabá. A ação contou com acompanhamento de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT).

QUATRO INDICIADOS E UM FORAGIDO

A Operação Silenciar foi deflagrada nesta quarta-feira (14), após quase dois anos de investigação conduzida pela DHPP.

A Justiça, por meio da 12ª Vara Criminal de Cuiabá, expediu quatro mandados de prisão preventiva contra os investigados pelo assassinato.

Além do advogado Ênio Martimiano da Cunha Júnior, foram identificados João Paulo Corbelino Costa, Geison dos Santos Nascimento, conhecido como “Todynho” ou “Americano”, e Gleison Corrêa dos Santos.

João Paulo e Geison já estavam presos na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, por outros delitos. Os novos mandados de prisão foram cumpridos dentro da unidade prisional.

Geison é apontado pela investigação como motorista do veículo utilizado no crime e responsável pelos golpes de faca contra Gabriel.

Já Gleison Corrêa dos Santos, que exerceria a função de disciplina do Comando Vermelho à época do assassinato, continuava foragido até a divulgação das informações nesta quarta-feira.

A Polícia Civil utilizou laudos periciais, análise de imagens, dados de monitoramento eletrônico e informações de inteligência para reconstruir os acontecimentos e identificar a participação atribuída a cada investigado.

Com a conclusão do inquérito e o indiciamento dos quatro suspeitos, a investigação policial avançou para a etapa de responsabilização criminal dos envolvidos.

EXECUÇÃO PARA IMPOR O SILÊNCIO

A Polícia Civil trabalha com a conclusão de que o assassinato de Gabriel foi uma demonstração de poder da organização criminosa, motivada pela suspeita de que a vítima teria colaborado com a polícia.

O emprego de tortura e a quantidade de disparos e facadas reforçam, segundo os investigadores, o caráter de intimidação da execução.

A operação recebeu o nome de Silenciar justamente em referência à tentativa de impor medo e impedir que pessoas repassassem informações às autoridades.

A DHPP também ressaltou que a participação atribuída a um advogado no crime representa uma situação excepcional e não deve ser confundida com a atuação regular dos profissionais da advocacia.

Os quatro investigados foram indiciados no inquérito policial. A prisão preventiva e o indiciamento não representam condenação definitiva, e os suspeitos têm direito à ampla defesa e ao contraditório.

O caso segue para os desdobramentos na Justiça, enquanto a Polícia Civil mantém as diligências para localizar o investigado que permanece foragido.