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Por Nayara Cristina
Após bate-boca entre o candidato do Mobiliza e o marido da médica nos bastidores da TV Vila Real, Natasha diz ter se sentido atacada, questiona tratamento recebido por ser mulher e afirma que adversário “vai responder na Justiça”
O primeiro grande confronto televisionado entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso extrapolou o embate político, incendiou os bastidores da TV Vila Real e terminou na Polícia Civil. Um dia depois da confusão envolvendo Maurício Coelho (Mobiliza), a candidata Natasha Slhessarenko (PSD) e o marido dela, o médico Roberto Carlos Fraife Barreto, o episódio ganhou uma nova dimensão com a confirmação de dois boletins de ocorrência e a promessa de uma guerra também no campo judicial.
Ao avaliar o debate realizado nesta terça-feira (1º), em Cuiabá, Natasha começou destacando a importância democrática do encontro promovido pelo Grupo Gazeta. Para ela, a abertura de espaço aos candidatos permite que o eleitor conheça propostas e posições. O tom, entretanto, mudou completamente quando a médica foi questionada sobre a confusão que havia acabado de ocorrer nos bastidores.
Natasha revelou que somente durante o andamento do programa soube de uma declaração que Maurício teria feito ao diretor de marketing de sua campanha, Lucas Mendes Pimenta, antes do início do debate.
“Na hora que o meu marqueteiro chegou, ele bateu no ombro e falou assim: ‘eu vou trucidar a sua candidata’. Só que ele não me contou isso”, relatou.
Segundo Natasha, a informação chegou posteriormente ao marido, Roberto Fraife, que decidiu procurar Maurício durante um intervalo do programa para cobrar explicações.
“No intervalo, o meu marido, como todo marido, chegou lá e falou: ‘pô, não ameaça minha mulher, né?’. Aí ele ficou meio irritado”, afirmou.
Foi justamente essa abordagem que provocou uma das cenas mais tensas do debate fora das câmeras principais. Imagens registradas nos corredores mostram Maurício e Roberto discutindo frente a frente. Em determinado momento há contato entre os dois, e integrantes das campanhas, além da própria Natasha, intervêm para afastá-los. A cobertura do próprio Grupo Gazeta registrou que o episódio ocorreu no intervalo que antecedeu o terceiro bloco e que, posteriormente, Maurício e Natasha também tiveram uma discussão antes da retomada da transmissão.
Mas a declaração mais contundente de Natasha veio quando ela foi perguntada diretamente se havia se sentido atacada pelo adversário durante o debate.
“Senti, senti, senti, senti”, respondeu.
Na sequência, Natasha colocou uma questão de gênero no centro da controvérsia e questionou se Maurício teria adotado o mesmo comportamento caso estivesse diante de um homem.
“Eu fico me perguntando: eu não sei se ele fez esse tipo de ameaça para algum outro dos quatro candidatos, tirando ele. Será que se eu fosse homem, será que ele teria feito esse tipo de ameaça?”, questionou.
A candidata afirmou ainda que, além da frase que teria sido dita antes do programa, interpretou a própria postura de Maurício durante o confronto eleitoral como uma tentativa de direcionar contra ela os ataques mais duros do debate.
“Ele vai responder na Justiça. Já foi feito o boletim de ocorrência, porque isso não se faz. E eu senti no debate ali realmente ele querendo me trucidar”, declarou.
O episódio efetivamente chegou à polícia. A assessoria jurídica da campanha de Natasha registrou dois boletins de ocorrência relacionados à confusão. O primeiro coloca a candidata como vítima de uma suposta ameaça e relata que Maurício teria abordado Lucas Pimenta antes do debate e dito: “Hoje vou trucidar sua candidata”. O documento afirma que a declaração teria provocado preocupação quanto à segurança e à integridade da candidata.
Esse primeiro boletim foi registrado pela Delegacia Digital às 16h41 desta terça-feira. O fato foi informado como ocorrido por volta das 11 horas nas dependências da TV Vila Real, no bairro Consil, em Cuiabá. O registro foi encaminhado à 3ª Delegacia de Polícia da Capital para apuração de possível crime de ameaça.
A crise não parou por aí.
Às 17h41, aproximadamente uma hora depois, um segundo boletim foi registrado, desta vez tendo como vítima Roberto Carlos Fraife Barreto. O marido de Natasha acusa Maurício de difamação, com referência também à possibilidade de injúria, em razão das declarações dadas pelo candidato à imprensa depois do confronto nos bastidores. Os dois registros serão analisados pela Polícia Civil.
Maurício, porém, apresenta uma versão completamente diferente sobre o episódio.
O candidato do Mobiliza afirma que foi ele quem sofreu uma tentativa de intimidação. Segundo seu relato, Roberto teria se aproximado durante o intervalo e dito que “esse negócio vai ficar feio”. Maurício relacionou a abordagem aos questionamentos que havia feito a Natasha durante o debate, principalmente sobre os R$ 4,5 milhões repassados pelo diretório nacional do PSD à campanha da médica.
Maurício também nega ter ameaçado Natasha ou utilizado a expressão nos termos apresentados pela campanha adversária. Depois da repercussão, classificou o episódio como um “papelão” e anunciou que pretende processar Natasha, Roberto e Lucas Pimenta nas esferas cível e criminal. Segundo ele, sua defesa pretende acusá-los de calúnia, injúria e difamação e reunir vídeos e outros registros para sustentar sua versão dos acontecimentos.
O pano de fundo da confusão foi justamente um dos embates mais duros do programa. Maurício pressionou Natasha sobre os recursos públicos destinados à campanha pelo Fundo Eleitoral. O PSD repassou R$ 4,5 milhões à candidatura da médica. Natasha respondeu defendendo a legalidade do recurso e reagiu com questionamentos sobre o histórico do adversário.
No áudio concedido após o programa, Natasha também voltou a uma pergunta feita por ela durante o confronto envolvendo investigações relacionadas a Maurício. Ao ser questionada sobre uma discussão ocorrida dentro do estúdio, disse não se recordar exatamente daquele momento, mas aproveitou para provocar o adversário.
“Aliás, ele não respondeu, né? O que a Polícia Federal foi bater lá na porta dele. Essa pergunta aí ele não respondeu”, declarou.
O histórico citado pela candidata exige uma distinção. Relatórios da Polícia Federal produzidos no âmbito da Operação Bilanz citaram quatro notas fiscais, no total de R$ 1,8 milhão, emitidas por empresa pertencente a Maurício por serviços relacionados à Unimed Cuiabá. Já em junho de 2025, Maurício foi apontado como principal alvo da Operação Short Code, esta conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso, que investigava uma suposta rede de divulgação de conteúdo contra a direção da cooperativa. Coelho negou as acusações relacionadas ao caso.
Natasha também foi questionada depois do debate sobre suspeitas envolvendo eventuais candidaturas ou estruturas eleitorais irregulares. Ela chegou a afirmar que tinha “fortes suspeitas”, mas imediatamente evitou transformar a percepção em acusação sem provas.
“Eu não posso falar de suspeitas. Suspeita a gente não trabalha com suspeita. A gente tem que trabalhar com casos que você evidencia mais”, afirmou.
A declaração reforçou a estratégia adotada pela candidata ao deixar o estúdio: sustentar que houve um ataque direcionado contra ela, mas transferir a discussão sobre a suposta ameaça para a esfera policial e judicial.
O episódio transforma o debate da TV Vila Real em mais do que apenas mais um capítulo da troca de acusações entre candidatos. A frase atribuída a Maurício, a reação do marido de Natasha, o confronto registrado em vídeo, as acusações mútuas de intimidação e os dois boletins de ocorrência colocaram a disputa pelo Palácio Paiaguás em um novo patamar de tensão.
E Natasha decidiu explorar politicamente justamente o ponto mais sensível da confusão: ser a única mulher envolvida diretamente na disputa.
“Será que se eu fosse homem, ele teria feito esse tipo de ameaça?”, questionou.
Agora, além da batalha pelos votos, Maurício Coelho, Natasha Slhessarenko e Roberto Fraife Barreto terão suas versões confrontadas também pelas autoridades. O que começou como troca de farpas em um debate eleitoral terminou como caso de polícia — e com potencial para continuar repercutindo durante a campanha ao Governo de Mato Grosso.
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