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Por Emerson Teixeira
A Operação Falsa Vantagem, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso na manhã desta quinta-feira (25), abriu uma nova frente de investigação sobre a suspeita de venda de influência no sistema de Justiça. O caso mira um grupo apontado como responsável por prometer interferência em decisões judiciais mediante pagamento de valores em dinheiro vivo. No centro da apuração aparecem a servidora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Mhayra Alves Pacheco Abes, assessora jurídica lotada no gabinete do desembargador Juvenal Pereira da Silva, e o advogado Ademir Rosa Gomes, que atua em Cuiabá e é apontado como uma das peças importantes da engrenagem investigada.
De acordo com a Polícia Civil, o grupo teria procurado familiares de um condenado e oferecido uma suposta solução para reverter a pena imposta pela Justiça. A promessa era direta: anular a sentença condenatória mediante o pagamento de R$ 150 mil em espécie. Para dar credibilidade à proposta, os investigados afirmavam ter acesso a uma servidora do Judiciário que teria condições de influenciar decisões ou interferir no andamento do caso.
A exigência de pagamento em dinheiro vivo chamou a atenção dos investigadores. Para a Polícia Civil, a forma escolhida para receber o valor não foi por acaso. A suspeita é de que o grupo tenha exigido a quantia em espécie justamente para dificultar o rastreamento financeiro, impedir a identificação do destino do dinheiro e reduzir os riscos de comprovação documental da negociação.
O esquema, no entanto, teria começado a ruir quando o resultado prometido não foi entregue. Segundo as apurações, a pena do condenado chegou a ser reduzida, mas não anulada, como havia sido garantido aos familiares. A partir daí, o beneficiário passou a cobrar a devolução do dinheiro pago, fato que também passou a ser investigado pela Polícia Civil e ajudou a expor a suposta trama.
A investigação aponta que Ademir Rosa Gomes teria atuado como um dos operadores do esquema, usando sua condição de advogado e sua circulação no meio jurídico para dar aparência de viabilidade à promessa de influência. Já Mhayra Alves Pacheco Abes, por ocupar função dentro do Tribunal de Justiça, é investigada justamente pelo possível papel de elo institucional usado pelo grupo para convencer as vítimas de que havia acesso privilegiado a decisões judiciais.
Mhayra é servidora do TJMT e atua como assessora no gabinete do desembargador Juvenal Pereira da Silva. Conforme informações públicas do Portal da Transparência, sua remuneração gira em torno de R$ 12 mil. Apesar da lotação da servidora no gabinete, não há, até o momento, qualquer indicação de que o desembargador tivesse conhecimento ou participação nos fatos investigados. A apuração, nesta fase, concentra-se na conduta individual dos investigados e na forma como o nome e a estrutura do Judiciário teriam sido usados para dar credibilidade ao golpe.
Além da assessora e do advogado, a operação também apura a participação de bacharéis em Direito, de um policial penal e de uma servidora pública do Poder Judiciário. Uma policial penal de Chapada dos Guimarães também aparece no radar da investigação, embora não tenha sido alvo de medida judicial nesta etapa. A Polícia Civil quer saber se cada integrante tinha uma função específica dentro da organização: quem abordava as vítimas, quem negociava os valores, quem sustentava a promessa de influência e quem ficava responsável por intermediar contatos dentro do ambiente jurídico.
Ao todo, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão domiciliar, expedidos pelo Núcleo de Justiça 4.0 do Juízo de Garantias — Polo Cuiabá. As diligências foram conduzidas pela Gerência de Combate ao Crime Organizado e pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado, a GCCO/Draco.
Durante a operação, os policiais buscaram apreender celulares, computadores, documentos, mídias eletrônicas e outros materiais capazes de revelar a dinâmica do esquema. A análise desses equipamentos será decisiva para identificar conversas, comprovantes, registros de encontros, negociações financeiras e eventuais contatos com outras pessoas que possam ter participado ou se beneficiado da prática.
O delegado Marlon Luz, responsável pelas investigações, afirmou que o objetivo dos mandados é esclarecer como os fatos ocorriam, há quanto tempo o grupo atuava, se a prática era habitual e se existem outras vítimas que também tenham sido convencidas a pagar por falsas promessas de influência judicial.
A Polícia Civil investiga os crimes de extorsão, exploração de prestígio, estelionato, corrupção e organização criminosa. A exploração de prestígio é um dos pontos centrais da apuração, porque envolve justamente a promessa de usar influência sobre agentes públicos ou integrantes do sistema de Justiça para obter vantagem indevida. Nesse caso, a suspeita é de que o grupo vendia a ideia de acesso privilegiado ao Judiciário para obter dinheiro de pessoas fragilizadas por processos criminais.
O nome da operação, Falsa Vantagem, faz referência à falsa expectativa criada junto às vítimas. Segundo a investigação, o grupo prometia um resultado judicial favorável como se tivesse controle sobre decisões, criando a impressão de que seria possível comprar uma solução dentro do sistema de Justiça.
A apuração também busca descobrir se o caso envolvendo a cobrança de R$ 150 mil foi um episódio isolado ou parte de uma prática repetida. A Polícia Civil não descarta que outras pessoas tenham sido abordadas com a mesma promessa de anular condenações, reduzir penas ou influenciar decisões judiciais mediante pagamento.
A operação integra as ações da Polícia Civil dentro da Operação Pharus, vinculada ao Programa Tolerância Zero, voltado ao enfrentamento de grupos criminosos em Mato Grosso. As investigações seguem em andamento e podem avançar para novas fases, dependendo do conteúdo encontrado nos aparelhos e documentos apreendidos.
ACRÉSCIMO
A assessora jurídica Mhayra Alves Pacheco Abes, lotada no gabinete do desembargador Juvenal Pereira da Silva, e o advogado Ademir Rosa Gomes passaram a ocupar o centro de uma das mais delicadas investigações conduzidas pela Polícia Civil de Mato Grosso em 2026. Ambos são apontados como integrantes de um grupo suspeito de vender influência dentro do sistema de Justiça, prometendo anular condenações mediante o pagamento de R$ 150 mil em dinheiro vivo. A investigação busca esclarecer se o caso representa um episódio isolado ou se faz parte de uma estrutura criminosa mais ampla especializada em explorar pessoas que buscavam reverter decisões judiciais.
As investigações conduzidas pela GCCO indicam que o suposto esquema não se limitava à promessa de anular uma condenação. A principal linha investigativa trabalha com a hipótese de que os envolvidos utilizavam o conhecimento da estrutura do Poder Judiciário e a credibilidade de alguns de seus integrantes para convencer vítimas de que possuíam influência suficiente para interferir em decisões judiciais. A suspeita é de que o grupo explorava justamente o desespero de familiares de condenados, oferecendo uma solução aparentemente possível, mas totalmente irregular, em troca de elevadas quantias em dinheiro.
Outro ponto que passou a chamar a atenção dos investigadores é a possível divisão de funções entre os integrantes do grupo. A Polícia Civil procura identificar quem era responsável por abordar as vítimas, quem conduzia as negociações financeiras, quem fazia as promessas relacionadas às decisões judiciais e qual teria sido, efetivamente, a participação de cada investigado dentro da suposta organização criminosa. A perícia nos celulares, computadores e documentos apreendidos deverá permitir o cruzamento de mensagens, ligações, registros bancários e demais provas digitais capazes de reconstruir toda a dinâmica do esquema.
No caso de Mhayra Alves Pacheco Abes, a investigação busca esclarecer se sua condição funcional dentro do Tribunal de Justiça foi utilizada apenas como argumento para convencer as vítimas ou se houve algum tipo de atuação relacionada aos fatos investigados. Até o momento, a Polícia Civil reforça que não existe qualquer elemento indicando participação ou conhecimento do desembargador Juvenal Pereira da Silva sobre o suposto esquema, permanecendo a investigação restrita às pessoas formalmente investigadas.
Já em relação ao advogado Ademir Rosa Gomes, a apuração pretende esclarecer se ele exercia apenas a função de intermediador das negociações ou se também era responsável por captar vítimas, negociar valores e sustentar a narrativa de que haveria influência suficiente para alterar decisões judiciais. Os investigadores também verificam se outras pessoas foram abordadas utilizando o mesmo discurso e se houve novos pagamentos além dos R$ 150 mil identificados neste caso.
A Polícia Civil ainda trabalha para descobrir como o grupo chegava até as vítimas. Entre as hipóteses investigadas estão indicações feitas por terceiros, acompanhamento de processos judiciais e utilização de contatos profissionais para identificar familiares de pessoas condenadas que estariam dispostas a pagar pela promessa de reversão de sentenças. Essas respostas deverão surgir após a conclusão das perícias no material apreendido durante a operação.
Fontes ligadas às investigações não descartam que a Operação Falsa Vantagem represente apenas a primeira etapa de um trabalho mais amplo. Caso sejam encontrados novos elementos nos equipamentos eletrônicos apreendidos, novas medidas judiciais poderão ser solicitadas, incluindo novas buscas, quebras de sigilo e identificação de outros possíveis integrantes do grupo.
Outro aspecto considerado fundamental pela investigação envolve o crime de exploração de prestígio, previsto no Código Penal. A infração ocorre quando alguém solicita ou recebe vantagem alegando possuir influência sobre magistrados, membros do Ministério Público, servidores públicos ou outras autoridades. Para a Polícia Civil, esse é um dos principais eixos da investigação, pois a suspeita é de que os investigados tenham utilizado justamente a suposta influência sobre integrantes do Judiciário para convencer as vítimas de que poderiam modificar decisões judiciais.
Com a conclusão da análise técnica dos aparelhos e documentos apreendidos, a Polícia Civil espera definir o real alcance do esquema, identificar novas vítimas e esclarecer se outras pessoas participaram da suposta organização criminosa investigada na Operação Falsa Vantagem.