MILAGRE CONTÁBIL

PF expõe nova engrenagem de fraudes no sistema financeiro brasileiro durante operação Miragem

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PF expõe nova engrenagem de fraudes no sistema financeiro brasileiro  durante operação Miragem

J B News

Por José Teixeira

A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira, colocou o Banco Digimais, ligado ao bispo Edir Macedo, no centro de uma nova investigação sobre crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. A ação abriu mais um capítulo da crise que vem atingindo bancos médios no país e reacendeu a comparação com o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

De acordo com a investigação, o Digimais teria manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios para esconder a real situação financeira da instituição, aparentar solvência diante dos órgãos de controle e viabilizar operações consideradas irregulares. A Justiça Federal autorizou busca e apreensão, quebra de sigilos bancário e fiscal e o bloqueio de bens e valores que podem chegar a R$ 670 milhões.

O ponto central da apuração está na suspeita de que o banco inflou artificialmente ativos, especialmente por meio de fundos de investimento e carteiras de crédito de difícil recuperação. Na prática, segundo os investigadores, operações internas teriam sido usadas para transformar ativos problemáticos em números positivos nos balanços, criando a aparência de saúde financeira.

É aí que o caso se aproxima do Banco Master. No Master, a suspeita era de fabricação, venda e superavaliação de carteiras de crédito, inclusive com operações apontadas como sem lastro real. No Digimais, a PF vê uma lógica parecida: ativos comprados por valores menores teriam sido reavaliados para montantes muito superiores, permitindo que o banco registrasse ganhos contábeis e sustentasse a imagem de solidez.

Apesar das semelhanças, a investigação não aponta, até agora, que Edir Macedo e Daniel Vorcaro atuassem juntos no mesmo esquema. O que aparece é uma proximidade de método: bancos fragilizados, ativos inflados, balanços maquiados, captação de investidores por meio de produtos financeiros atrativos e tentativa de transferir o prejuízo final para estruturas de proteção do sistema.

No caso do Digimais, a Polícia Federal chegou ao banco a partir de relatórios do Banco Central. A fiscalização teria identificado inconsistências contábeis, operações com partes relacionadas e manobras para manter nos balanços valores que deveriam ter sido corrigidos. Uma das suspeitas é de operação conhecida no mercado como “Zé com Zé”, quando o próprio grupo negocia ativos consigo mesmo para simular patrimônio, liquidez ou lucro.

Outro ponto sensível é a tentativa de reorganização societária do Digimais. O banco chegou a ser alvo de negociações envolvendo nomes ligados ao mercado financeiro, inclusive executivos com passagem pelo universo do Banco Master. Para os investigadores, esse movimento precisa ser analisado dentro do contexto de bancos em dificuldade tentando encontrar compradores, aportes ou saídas que evitem uma liquidação.

O caso também reacende o debate sobre o Fundo Garantidor de Créditos. Em bancos que captam recursos com CDBs de alta rentabilidade, o FGC funciona como uma rede de proteção para investidores dentro dos limites legais. O problema, segundo a leitura das investigações, é quando essa proteção passa a ser usada como incentivo para administradores assumirem riscos excessivos, sabendo que parte da conta poderá recair sobre o sistema.

A Operação Miragem mostra que a crise não está restrita a um banco ou a um empresário. Ela revela um padrão preocupante: instituições financeiras que crescem ou sobrevivem com base em ativos superavaliados, carteiras de crédito frágeis, fundos usados como camadas de ocultação e balanços que vendem ao mercado uma estabilidade que, segundo os órgãos de fiscalização, não existia.

No Digimais, os investigados poderão responder por gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela Lei dos Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. No Master, a apuração envolve suspeitas bilionárias, venda de carteiras sem lastro e impacto direto sobre investidores, bancos públicos e mecanismos de garantia.

O retrato que surge é o de um sistema financeiro cada vez mais sofisticado na aparência, mas vulnerável a velhas práticas: maquiagem de balanço, risco escondido, ativos reciclados e prejuízo socializado. A diferença é que, agora, a Polícia Federal e o Banco Central parecem seguir a trilha deixada pelos próprios números que os bancos tentaram transformar em milagre.