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Justiça manda prender novamente quatro PMs da Rotam acusados de forjar confronto para ocultar arma usada em assassinato de advogado Renato Nery

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Justiça manda prender novamente quatro PMs da Rotam acusados de forjar confronto para ocultar arma usada em assassinato de advogado Renato Nery

JB News

Por Emerson Teixeira

A determinação para que quatro policiais militares da Rotam retornem à prisão colocou novamente o caso do advogado Renato Gomes Nery no centro do debate público em Mato Grosso. A decisão representa mais um desdobramento de uma investigação que, desde o assassinato do jurista, vem revelando uma série de elementos que apontam para uma possível rede de participação criminosa envolvendo execução, ocultação de provas e supostas tentativas de dificultar o trabalho das autoridades.

A ordem de prisão foi expedida pelo juiz João Bosco Soares da Silva, da 14ª Vara Criminal de Cuiabá, em cumprimento à decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que restabeleceu as prisões preventivas dos policiais Jorge Rodrigo Martins, Wailson Alesandro Medeiros Ramos, Wekcerlley Benevides de Oliveira e Leandro Cardoso.

Os militares são investigados por suposta participação em uma fraude processual que teria sido montada poucos dias após a morte de Renato Nery. Conforme apontam as investigações, o grupo teria participado da construção de uma ocorrência policial que simulava um confronto armado, com o objetivo de inserir na cena uma pistola Glock G17 apontada pelos investigadores como a arma utilizada na execução do advogado.

A suspeita é de que a ocorrência tenha sido utilizada para criar uma narrativa alternativa capaz de desviar o foco das investigações e dificultar a identificação dos verdadeiros responsáveis pelo homicídio.

O caso ganhou repercussão nacional pela gravidade dos fatos e pelo perfil da vítima. Renato Nery era uma figura conhecida no meio jurídico mato-grossense, com atuação consolidada na advocacia e participação em causas de grande relevância ao longo de sua trajetória profissional.

O advogado foi baleado em frente ao seu escritório, em Cuiabá, no dia 5 de julho de 2024. Socorrido em estado grave, ele chegou a passar por procedimentos médicos, mas não resistiu aos ferimentos. A execução provocou forte comoção entre advogados, magistrados, membros do Ministério Público e representantes de diversas instituições ligadas ao sistema de Justiça.

A partir do homicídio, a Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) iniciou uma ampla investigação que, ao longo dos meses, passou a revelar uma estrutura muito mais complexa do que inicialmente se imaginava.

As apurações apontaram indícios de que o crime teria sido planejado e executado por diversos envolvidos, cada um com funções específicas dentro da suposta organização criminosa. A investigação passou então a concentrar esforços não apenas na identificação dos executores, mas também de intermediários, financiadores e possíveis mandantes.

Uma das principais linhas investigativas está relacionada a disputas fundiárias e conflitos envolvendo propriedades rurais de elevado valor econômico. Embora as investigações ainda estejam em andamento, os elementos reunidos pelas autoridades indicam que o homicídio pode ter sido motivado por interesses patrimoniais milionários.

Foi justamente durante o aprofundamento dessas investigações que surgiu a suspeita envolvendo os policiais militares.

Segundo a apuração, uma semana após a execução de Renato Nery, uma ocorrência registrada no bairro Pascoal Ramos, em Cuiabá, chamou a atenção dos investigadores. O caso foi inicialmente apresentado como um confronto policial, mas análises técnicas, depoimentos e perícias passaram a indicar possíveis inconsistências entre a versão apresentada e os elementos encontrados pelas autoridades.

As divergências levantaram a hipótese de que a ação teria sido utilizada para ocultar a origem da arma apontada como sendo a utilizada no assassinato do advogado.

Diante do avanço das investigações, a Polícia Civil deflagrou fases sucessivas da Operação Office Crime, que passou a reunir provas, colher depoimentos e executar medidas judiciais contra os suspeitos envolvidos na execução e nos desdobramentos posteriores do crime.

Uma das etapas mais importantes ocorreu com a Operação Office Crime – A Outra Face, que teve como foco justamente a apuração de possíveis fraudes e tentativas de manipulação de provas relacionadas ao homicídio.

Os quatro policiais chegaram a ser presos durante a investigação, mas posteriormente obtiveram liberdade mediante medidas cautelares. Entretanto, após análise dos recursos apresentados no processo, o Superior Tribunal de Justiça entendeu que permaneciam presentes os requisitos para a manutenção das prisões preventivas, determinando o retorno dos militares ao sistema prisional.

O entendimento da Corte Superior foi de que a gravidade concreta dos fatos investigados, somada à necessidade de preservação da instrução criminal, justificaria a medida extrema. Entre os fundamentos analisados estão a possibilidade de interferência na produção de provas e eventual influência sobre testemunhas ligadas ao caso.

Nos bastidores da investigação, a avaliação é de que a decisão fortalece o trabalho desenvolvido pelas equipes responsáveis pela apuração e amplia as condições para o esclarecimento completo dos fatos.

O caso também mobilizou entidades representativas da advocacia. Desde a morte de Renato Nery, a Ordem dos Advogados do Brasil acompanha os desdobramentos da investigação e tem cobrado a responsabilização de todos os envolvidos, independentemente da função pública ou posição ocupada pelos investigados.

Quase dois anos após o assassinato, o caso continua produzindo novos capítulos e permanece entre os mais complexos e emblemáticos da história recente de Mato Grosso.

Enquanto as autoridades avançam na análise de provas, depoimentos e materiais apreendidos ao longo das operações, a expectativa é que as próximas fases da investigação permitam esclarecer definitivamente quem executou Renato Nery, quem financiou a ação criminosa e quem teria determinado a morte do advogado.

A nova prisão dos policiais militares demonstra que o caso está longe de ser encerrado. Pelo contrário. As decisões judiciais mais recentes indicam que as investigações continuam avançando sobre uma estrutura que, segundo os investigadores, pode envolver uma cadeia criminosa muito maior do que a inicialmente revelada, mantendo vivo um dos processos mais sensíveis e impactantes já registrados no sistema de Justiça mato-grossense.