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Por José Teixeira
A derrota do senador Wellington Fagundes (PL) na disputa pelo Governo de Mato Grosso, neste domingo (4), foi além da perda de uma eleição. O resultado das urnas atingiu um dos maiores agrupamentos de lideranças políticas tradicionais reunidos em torno de uma candidatura ao Palácio Paiaguás e encerrou, ou pelo menos interrompeu, ciclos de personagens que durante décadas ocuparam posições centrais na política mato-grossense.
Wellington entrou na eleição sustentado por uma ampla estrutura política e cercado por nomes que atravessaram diferentes gerações do poder em Mato Grosso. Ao final da apuração, porém, o senador não conseguiu transformar essa musculatura em votos suficientes para derrotar Otaviano Pivetta (Republicanos).
O resultado acabou produzindo uma fotografia simbólica da eleição de 2026: de um lado, a vitória de Pivetta; do outro, uma sequência de derrotas envolvendo algumas das famílias e lideranças mais antigas da política estadual.
Nos bastidores, a expressão “velhas raposas”, historicamente utilizada para definir políticos experientes, com décadas de atuação e forte capacidade de articulação, voltou a circular para resumir o tamanho da mudança provocada pelas urnas.
Entre os nomes atingidos pelo novo desenho político estão integrantes ou representantes de grupos que durante décadas tiveram influência direta sobre governos, Assembleia Legislativa, Congresso Nacional, prefeituras e estruturas partidárias de Mato Grosso.
A família Campos é um dos exemplos mais emblemáticos. Jayme e Júlio Campos somam trajetórias que atravessam mais de meio século da vida pública mato-grossense, ocupando, ao longo das décadas, postos como Prefeitura de Várzea Grande, Governo do Estado, Senado da República, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa, além de exercerem forte influência partidária e eleitoral. Poucos grupos familiares permaneceram durante tanto tempo no centro das decisões políticas de Mato Grosso.
A dimensão histórica fica ainda mais evidente quando se observa a trajetória de Jayme Campos, cuja entrada na política eleitoral ocorreu ainda na década de 1980 e que passou pela Prefeitura de Várzea Grande, Governo de Mato Grosso e Senado. Júlio Campos, por sua vez, iniciou sua trajetória política ainda na década de 1970 e acumulou mandatos e funções como prefeito de Várzea Grande, deputado federal, governador, senador e deputado estadual. A trajetória de Júlio, isoladamente, já alcança cerca de cinco décadas de participação na vida pública.
Por isso, o revés sofrido pelo grupo nas eleições de 2026 não representa apenas uma derrota circunstancial. Ele atinge uma das estruturas familiares mais longevas da política estadual e reduz de maneira significativa a presença eleitoral de um grupo que atravessou diferentes governos, partidos e gerações.
Outro símbolo é o grupo político construído por José Riva. Durante mais de duas décadas, Riva foi um dos personagens mais poderosos da Assembleia Legislativa. Depois dele, Janaína Riva manteve a família diretamente inserida no centro do poder estadual por sucessivos mandatos.
Em 2026, Janaína decidiu deixar a segurança de uma candidatura proporcional para disputar uma das duas vagas ao Senado. Não conseguiu se eleger. A tentativa de manter a família na Assembleia com Jéssica Riva também não prosperou.
O resultado colocou fim a uma presença da família Riva no Legislativo estadual iniciada ainda na década de 1990.
A derrota ganhou um componente político ainda maior porque Janaína estava diretamente ligada ao projeto de Wellington Fagundes. Além da aliança eleitoral, Wellington é sogro da deputada, o que colocou os dois grupos no mesmo campo político durante a disputa.
Também ficaram pelo caminho outros nomes tradicionais da política estadual. Eduardo Botelho, que acumulou sucessivos mandatos e chegou à presidência da Assembleia Legislativa, não conseguiu retornar ao Parlamento estadual.
O cenário atingiu ainda lideranças históricas e estruturas políticas ligadas a nomes como Hélio Fagundes e outros personagens que durante anos participaram das articulações eleitorais e partidárias de Mato Grosso.
Carlos Bezerra, outro símbolo da política mato-grossense, também representa uma geração que comandou partidos e participou diretamente das principais decisões eleitorais do Estado durante décadas. Ex-governador, ex-senador e ex-deputado federal, Bezerra esteve durante anos entre os principais articuladores do MDB em Mato Grosso.
A eleição também redesenhou forças dentro do próprio PL.
Embora Wellington fosse o candidato oficial do partido ao Governo, uma parcela importante da direita não acompanhou integralmente sua candidatura. Durante a campanha, lideranças do próprio campo conservador declararam apoio a Pivetta, expondo uma divisão que se aprofundou na reta final.
O episódio mais emblemático ocorreu quando Eduardo Bolsonaro, mesmo pertencendo ao PL, divulgou apoio a Otaviano Pivetta para o Governo de Mato Grosso. Outras lideranças conservadoras também se aproximaram do republicano ao longo da campanha.
Assim, Wellington chegou às urnas cercado por uma estrutura partidária expressiva, por políticos veteranos e por grupos familiares com décadas de experiência eleitoral, mas não conseguiu converter essa soma de forças em vitória.
É justamente esse contraste que transforma o resultado de 2026 em algo maior do que uma simples troca no comando do Palácio Paiaguás.
As urnas também atingiram um modelo de construção política baseado durante décadas em sobrenomes, grupos familiares, padrinhos eleitorais e lideranças capazes de atravessar sucessivas eleições mantendo influência sobre diferentes espaços de poder.
Isso não significa que todos esses grupos tenham desaparecido da política. Muitos continuam com partidos estruturados, aliados, bases eleitorais e capacidade de articulação. Mas o resultado deste domingo mostrou uma redução concreta do espaço ocupado por várias dessas lideranças nas estruturas eletivas.
Pivetta, por sua vez, saiu da eleição como principal beneficiário desse rearranjo. Sua vitória ocorreu justamente em uma disputa na qual parte das forças tradicionais resolveu concentrar esforços em torno de Wellington.
Por isso, a derrota do senador ganhou uma dimensão simbólica.
Wellington não perdeu sozinho.
Ao redor de sua candidatura estavam reunidos sobrenomes, grupos e personagens que participaram diretamente de praticamente todas as grandes disputas políticas de Mato Grosso nas últimas décadas.
A eleição de 2026 colocou vários deles, simultaneamente, diante da derrota.
Mais do que definir quem comandará Mato Grosso nos próximos quatro anos, as urnas deste domingo redesenharam o mapa do poder estadual e sinalizaram o encerramento de ciclos que pareciam resistentes ao tempo.
No vocabulário dos bastidores, as chamadas “velhas raposas” não perderam a experiência nem desapareceram da política. Mas, desta vez, muitas delas perderam aquilo que durante décadas sustentou sua força: o voto necessário para permanecer no centro do poder.