PRESA PELA PF

“Nunca pisei numa delegacia”, chora advogada dona do Tatu Bola em depoimento antes de ser transferida ao presídio feminino em Cuiabá

· 3 min de leitura
“Nunca pisei numa delegacia”, chora advogada dona do Tatu Bola em depoimento antes de ser transferida ao presídio feminino em Cuiabá

OPERAÇÃO BÓREAS

A empresária e advogada Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro afirmou estar vivendo uma realidade completamente diferente de sua rotina ao participar da audiência de custódia que analisou sua prisão preventiva. Detida pela Polícia Federal durante a Operação Bóreas, ela foi encaminhada para a Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá.

A audiência foi realizada por videoconferência, na noite desta terça-feira (25), na Superintendência da Polícia Federal. Visivelmente abalada, Thatiana disse nunca ter sido presa, conduzida a uma delegacia ou chamada anteriormente para prestar esclarecimentos.

“Eu nunca pisei numa delegacia, nunca fui chamada para ouvir nada, nunca tive o nome no Serasa, para hoje estar aqui na Polícia Federal”, declarou.

Durante a audiência, a advogada não relatou ter sofrido agressões físicas no cumprimento da ordem judicial. Ela, porém, demonstrou forte impacto emocional ao descrever a maneira como foi conduzida ao Instituto Médico Legal (IML) para a realização do exame de corpo de delito.

“Eu fui levada como se fosse uma presidiária federal até o IML. Eu estou me sentindo, assim, em um mundo totalmente fora da minha realidade”, afirmou.

Em alguns momentos, Thatiana interrompeu o próprio relato e pediu desculpas por estar nervosa. Ela alegou não compreender os fundamentos que levaram à decretação de sua prisão preventiva e sustentou que mantém uma vida pública, residência fixa e atividade comercial conhecida em Cuiabá.

“As minhas redes sociais são abertas. Eu tenho horário de chegar ao trabalho, tenho um comércio que é público”, argumentou.

A empresária também afirmou morar há aproximadamente 21 anos na mesma cidade e declarou respeito ao Poder Judiciário. Segundo ela, sua rotina profissional e sua exposição pública demonstrariam a existência de vínculos sólidos e a ausência de intenção de fugir ou se esconder das autoridades.

Após a audiência de custódia, Thatiana foi conduzida à Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May. Por possuir inscrição profissional como advogada, ela deverá permanecer em um espaço destinado a integrantes da advocacia, conforme as prerrogativas previstas em lei. A defesa já protocolou um pedido para revogar a prisão preventiva.

Thatiana é investigada por suspeita de participação em uma organização criminosa que, conforme a Polícia Federal, atuaria no tráfico internacional de drogas. A Operação Bóreas apura o transporte de grandes carregamentos de cocaína e armas da Bolívia e do Peru para o território brasileiro.

De acordo com a investigação, o grupo utilizaria aeronaves e pistas clandestinas para viabilizar a entrada e a distribuição dos carregamentos no país. Além das prisões, a Justiça autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão e medidas de bloqueio e sequestro de bens e valores.

A apuração também alcança Márcio Theodoro, irmão de Thatiana, apontado como possível liderança da organização investigada. Ele foi preso em fevereiro de 2025, em Marianópolis, no Tocantins, dentro de uma aeronave que, segundo as autoridades, transportava cocaína.

Durante seu relato, Thatiana mencionou possuir um irmão preso fora do estado, mas afirmou desconhecer os fatos que fundamentaram a medida decretada contra ela. A investigada também disse que conseguiu ter acesso apenas recentemente a documentos anexados ao processo.

O advogado Fernando Faria, responsável pela defesa, sustenta que Thatiana não possui ligação direta com o esquema investigado. Ele também afirma que a empresa da qual ela é sócia, responsável pelo Tatu Bola Bar, localizado na Praça Popular, em Cuiabá, não é alvo da Operação Bóreas.

Segundo o defensor, não houve mandado de busca e apreensão, bloqueio de valores ou qualquer outra medida judicial direcionada ao estabelecimento comercial.

A Polícia Federal também solicitou a inclusão de dez investigados na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo utilizado para localizar e prender pessoas procuradas internacionalmente. Os alvos poderão responder, de acordo com a participação atribuída a cada um, pelos crimes de tráfico internacional de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

A audiência de custódia teve como finalidade verificar a legalidade e as condições da prisão, sem analisar profundamente as acusações investigadas. A responsabilidade de Thatiana e dos demais suspeitos será apurada no decorrer das investigações, assegurados o contraditório e a ampla defesa.

0:00
/1:34