ESCOLTA AÉREA
Por Emerson Teixeira
Foto JBNews
Apontado pela Polícia Civil como liderança do Comando Vermelho, “Virgulino” foi preso no Paraguai, teria continuado dando ordens à facção durante a fuga e é investigado também por “Novo Cangaço” e esquema de raspadinhas
João Batista Vieira dos Santos, conhecido como “Virgulino”, investigado por envolvimento na construção de um túnel de aproximadamente 257 metros que teria como objetivo chegar à Penitenciária Central do Estado (PCE) para resgatar integrantes de uma facção criminosa, foi transferido para Cuiabá nesta quarta-feira (30).
O recambiamento para Mato Grosso ocorre sob forte esquema de segurança e mobiliza a Gerência de Combate ao Crime Organizado e a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (GCCO/Draco), além de uma aeronave do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) e equipes do Setor de Operações Táticas da Polícia Penal do Paraná.
Apontado pela Polícia Civil como uma das lideranças do Comando Vermelho, Virgulino deverá ser encaminhado justamente para a PCE, unidade que, segundo uma das investigações contra ele, teria sido alvo de um plano de resgate de presos por meio de um túnel.

A transferência ocorre por determinação judicial. Como os processos relacionados aos mandados de prisão contra João Batista tramitam em Mato Grosso, ele ficará à disposição da Justiça estadual após a chegada a Cuiabá.
Virgulino foi localizado e preso no dia 3 de setembro, em Assunção, capital do Paraguai, em cumprimento a uma ordem judicial expedida em Mato Grosso. Depois da captura, foi trazido ao Brasil e permaneceu custodiado na Cadeia Pública Laudemir Neves, em Foz do Iguaçu, no Paraná, até a organização do recambiamento definitivo.
A operação desta quarta-feira foi cercada de protocolos especiais de segurança, adotados tanto para preservar a integridade física do preso quanto dos policiais envolvidos no deslocamento.
Um dos episódios de maior repercussão ligados ao nome de Virgulino remonta a 2022. Naquele ano, investigações identificaram um túnel com cerca de 257 metros de extensão, escavado a partir de um imóvel em Cuiabá e direcionado à Penitenciária Central do Estado.

A suspeita dos investigadores era de que a estrutura subterrânea estivesse sendo preparada para permitir o resgate de integrantes de uma organização criminosa recolhidos na PCE. João Batista passou a ser citado nas apurações relacionadas ao plano.
O histórico investigativo, porém, vai além do episódio do túnel. Virgulino também é investigado por possível participação em roubo contra instituição financeira utilizando características da modalidade conhecida como “Novo Cangaço”, marcada por ações criminosas organizadas, emprego de armamento e operações planejadas contra bancos.

Mesmo enquanto estava foragido, João Batista teria mantido contato com integrantes da organização criminosa e continuado exercendo influência sobre as atividades do grupo, segundo a GCCO/Draco.
As investigações identificaram videochamadas nas quais ele supostamente transmitia orientações e fazia cobranças a outros integrantes. O material coletado pela polícia foi encaminhado às autoridades responsáveis pelos processos para subsidiar pedido de revisão de laudos relacionados à alegada incapacidade mental do investigado.
Na avaliação apresentada pelos investigadores, os comportamentos registrados durante o período de fuga seriam, em tese, incompatíveis com um quadro de incapacidade total. A conclusão definitiva sobre a validade dos laudos, entretanto, cabe ao Judiciário a partir das provas e avaliações técnicas existentes nos respectivos processos.
A vida de Virgulino enquanto permanecia fora do alcance da Justiça também foi objeto de monitoramento. Segundo as investigações, ele utilizava identidades falsas, inclusive em perfis mantidos nas redes sociais.
Em uma das contas identificadas pelos policiais, eram publicados registros de exercícios físicos, visitas a bares e outros momentos da rotina do investigado, além de fotografias ao lado da esposa.
Os levantamentos também apontaram uma relação de amizade entre Virgulino e Dayane Souza de Oliveira, conhecida como “Baratinha”, que também é procurada pelas forças de segurança.
Outro braço das investigações concentra-se na movimentação financeira atribuída ao suspeito. A Polícia Civil aponta João Batista como coordenador estadual do chamado “Raspa Brasil Nacional”, esquema envolvendo a comercialização de raspadinhas.
Segundo a investigação, Virgulino não seria apenas participante da atividade. Ele é apontado como responsável por definir diretrizes de arrecadação e trabalhar na expansão do esquema em Mato Grosso.
Monitoramentos realizados durante as investigações teriam registrado João transportando banners e outros materiais utilizados na divulgação das raspadinhas. A análise de aparelhos celulares também revelou, segundo a polícia, comunicações com pessoas apontadas como responsáveis pela administração da atividade.

As mensagens analisadas indicariam ainda que Virgulino cobrava o envio de planilhas com informações detalhadas sobre o funcionamento do esquema, incluindo a quantidade de estabelecimentos comerciais envolvidos, número de bilhetes distribuídos, valores arrecadados e percentuais que deveriam ser repassados.
Conforme a GCCO/Draco, quando as determinações não eram cumpridas, havia a possibilidade de acionamento da chamada “disciplina” da facção, estrutura utilizada internamente pela organização criminosa para cobrar o cumprimento de determinações.
A prisão no Paraguai encerrou um período em que João Batista permaneceu foragido e utilizando documentos ou identidades falsas, conforme apontam as investigações. A partir do retorno definitivo a Mato Grosso nesta quarta-feira, ele ficará sob custódia e à disposição da Justiça para o andamento dos processos e cumprimento das ordens judiciais existentes contra ele.
As diferentes suspeitas atribuídas a Virgulino — desde o túnel em direção à PCE até a possível participação em roubo a instituição financeira, a atuação dentro da facção e a coordenação do esquema de raspadinhas — permanecem submetidas aos respectivos procedimentos investigativos e judiciais, nos quais deverão ser individualizadas as responsabilidades e garantido o direito de defesa.