CONFISSÃO NO JÚRI

“Atirei porque ouvi que pagariam R$ 200 mil”, diz caseiro ao confessar assassinato de Renato Nery; versão confronta acusação do MPE

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“Atirei porque ouvi que pagariam R$ 200 mil”, diz caseiro ao confessar assassinato de Renato Nery; versão confronta acusação do MPE

JB News

Por Emerson Teixeira

O julgamento do caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva ganhou um novo e decisivo capítulo nesta quarta-feira (15), durante sessão do Tribunal do Júri, em Cuiabá. Diante do juiz Marcos Faleiros da Silva, dos jurados, promotores e advogados de defesa, o réu confessou, sem hesitação, ser o autor dos disparos que mataram o advogado Renato Nery, em 5 de julho de 2024, em frente ao escritório da vítima. A principal novidade, porém, foi a versão apresentada em plenário: Alex afirmou que não foi contratado previamente para executar o crime, contrariando a tese sustentada pelo Ministério Público de Mato Grosso.

Em um dos momentos de maior tensão do julgamento, o magistrado perguntou diretamente ao acusado se a imputação de homicídio era verdadeira. A resposta veio de forma imediata: “É verdade”. Na sequência, o caseiro detalhou a dinâmica da execução. Segundo ele, foi até o escritório do advogado, aguardou sua chegada e, quando Renato Nery desceu do veículo, efetuou os disparos que resultaram em sua morte.

A confissão chamou a atenção pela mudança de narrativa em relação à investigação. Conforme relatou aos jurados, a decisão de matar o advogado teria surgido após ouvir, durante um churrasco realizado dois dias antes do crime, uma conversa do policial militar da Rotam Heron Teixeira Pena Vieira. De acordo com Alex, o militar comentou que existiam pessoas dispostas a pagar R$ 200 mil pela morte do advogado.

O acusado afirmou que pesquisou quem era Renato Nery na internet, refletiu sobre a possibilidade de obter o dinheiro e decidiu agir por conta própria. Segundo sua versão, não recebeu ordem direta nem promessa antecipada de pagamento para cometer o assassinato.

Durante o interrogatório, Alex afirmou que enfrentava uma grave crise financeira. Disse estar endividado, sendo pressionado por agiotas e temendo pela segurança de sua família. Alegou que essa situação de desespero teria sido determinante para a decisão de executar o crime, acreditando que posteriormente conseguiria receber a recompensa mencionada pelo policial.

O juiz insistiu em esclarecer quem teria efetivamente prometido o pagamento. Alex respondeu que Heron nunca lhe fez uma proposta formal antes da execução. Segundo ele, somente depois de matar Renato Nery comunicou o policial sobre o homicídio. Ainda conforme seu depoimento, Heron teria respondido que buscaria cobrar o dinheiro das pessoas que, supostamente, desejavam a morte do advogado.

Outro ponto relevante do interrogatório foi a afirmação de que Alex não conhecia os possíveis mandantes do crime. Ele declarou que jamais teve contato com essas pessoas e que sequer sabia suas identidades quando decidiu executar o homicídio.

A versão apresentada em plenário, entretanto, confronta diretamente a denúncia formulada pelo Ministério Público. Conforme a acusação, o homicídio foi resultado de uma execução cuidadosamente planejada, envolvendo uma cadeia de participação criminosa. Para os promotores, o policial militar Heron Teixeira Pena Vieira atuou como intermediário entre os executores e os supostos mandantes, identificados como o casal Julinere Goulart Bastos e César Jorge Sechi, que nega envolvimento no crime.

Nos bastidores do julgamento, a estratégia da defesa ficou evidente ao tentar desvincular Alex de uma organização criminosa estruturada e afastar a caracterização de homicídio mediante paga, qualificadora que pesa na acusação. Ao admitir a autoria dos disparos, mas negar a contratação prévia, a defesa busca convencer os jurados de que o crime teria sido uma iniciativa individual motivada pelo desespero financeiro do acusado, e não uma execução encomendada.

Já a acusação trabalha para demonstrar que o relato apresentado em plenário não resiste ao conjunto de provas produzidas ao longo da investigação. O Ministério Público sustenta que interceptações, depoimentos, perícias e demais elementos reunidos durante o inquérito indicam que houve planejamento, divisão de tarefas e articulação entre executores, intermediários e mandantes.

O depoimento de Alex foi acompanhado com atenção por familiares de Renato Nery, advogados, integrantes das forças de segurança e operadores do Direito. A expectativa agora se concentra nos debates entre acusação e defesa, etapa em que ambas as partes buscarão convencer o Conselho de Sentença sobre a versão que deve prevalecer.

Considerado um dos julgamentos mais aguardados de Mato Grosso neste ano, o caso envolve uma investigação complexa que apura desde a execução material do advogado até a suposta contratação do crime. A decisão dos jurados deverá definir não apenas a responsabilidade criminal de Alex Roberto de Queiroz Silva, mas também poderá influenciar o andamento das demais ações penais relacionadas ao assassinato de Renato Nery.