PRESA NA BOLIVIA

Angeliquinha: investigação aponta que ela teria ordenado 80% das execuções da facção e comandado o crime até de dentro da cadeia

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Angeliquinha: investigação aponta que ela teria ordenado 80% das execuções da facção e comandado o crime até de dentro da cadeia

Apontada pela Polícia Civil como principal liderança de facção no extremo norte de MT, criminosa acumulava mais de 260 anos em condenações, seis mandados de prisão e permaneceu 13 meses foragida até ser localizada em Santa Cruz de la Sierra

A captura de Angélica Saraiva de Sá, de 34 anos, conhecida como “Angeliquinha”, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, encerrou uma caçada que atravessou a fronteira brasileira e durou aproximadamente 13 meses. Por trás da prisão realizada na terça-feira (22), porém, existe uma sequência de investigações que acompanha há anos a ascensão da criminosa dentro de uma facção, passando por tráfico de drogas, homicídios, ocultação de cadáveres, extorsões, circulação de armas, suspeitas de lavagem de dinheiro e atuação em regiões de garimpo no norte de Mato Grosso.

Quando foi localizada, Angeliquinha possuía seis mandados de prisão em aberto expedidos ao longo de 2026 e acumulava mais de 260 anos de condenações por diferentes crimes. A Polícia Civil a aponta como uma das principais lideranças da organização criminosa no extremo norte do Estado, especialmente em Alta Floresta e municípios da região.

O delegado Victor Hugo Caetano de Freitas, titular da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), dimensionou a influência atribuída à investigada. Segundo ele, aproximadamente 80% dos homicídios relacionados à facção em Alta Floresta e cidades próximas teriam Angeliquinha como mandante. A estimativa é uma afirmação da investigação policial e não significa que ela tenha sido condenada judicialmente por todos esses assassinatos.

A trajetória investigada pela Polícia Civil antecede em vários anos a fuga para a Bolívia. Há registros judiciais e investigações apontando Angeliquinha como liderança de uma estrutura criminosa instalada no norte de Mato Grosso. Uma investigação iniciada ainda no segundo semestre de 2019 identificou Alta Floresta como uma espécie de centro das atividades do grupo, com divisão de funções e atuação ligada principalmente ao tráfico, mas também a homicídios, roubos e outros crimes associados ao controle territorial da organização.

Um dos episódios mais graves atribuídos a Angeliquinha ocorreu em agosto de 2022, em Nova Monte Verde. Quatro trabalhadores que haviam saído do Paraná para trabalhar em Mato Grosso — Alan Rodrigues Pereira, de 36 anos, Caio Paulo da Silva, de 31, Jefferson Vale Paulino, de 27, e João Vitor da Silva, de 19 — foram sequestrados, torturados e mortos.

Segundo a investigação da Polícia Civil, integrantes da organização passaram a desconfiar de que os trabalhadores pertenceriam a uma facção rival. A suspeita teria começado depois da publicação de uma fotografia nas redes sociais na qual uma das vítimas fazia um gesto com as mãos interpretado pelos criminosos como símbolo utilizado pelo grupo adversário.

No dia dos crimes, duas vítimas teriam ido à residência de um dos denunciados. Elas foram mantidas em cárcere e torturadas até supostamente admitirem ligação com a organização rival. Conforme a acusação posteriormente levada ao Tribunal do Júri, Angeliquinha determinou que as duas fossem executadas e que os criminosos localizassem também os outros dois trabalhadores que permaneciam no alojamento.

Alan e João Vitor morreram por esgorjamento. Caio Paulo e Jefferson sofreram traumatismo cranioencefálico. Os quatro corpos foram encontrados em 8 de agosto de 2022, em uma área rural de Nova Monte Verde. Três dias antes da localização dos cadáveres, o veículo utilizado pelas vítimas havia sido encontrado incendiado em uma estrada rural.

O caso chegou ao Tribunal do Júri de Nova Monte Verde em março de 2025. Em 27 de março daquele ano, Angeliquinha foi condenada a 99 anos e 11 meses de reclusão e ao pagamento de 100 dias-multa. Os jurados reconheceram homicídios qualificados, ocultação de cadáver e participação em organização criminosa. O cumprimento da pena foi fixado inicialmente em regime fechado.

Essa condenação, somada a outras decisões judiciais, elevou posteriormente o total das penas atribuídas a Angeliquinha para mais de 260 anos, conforme informou a Polícia Civil após sua captura na Bolívia.

A prisão, entretanto, não teria retirado Angeliquinha da cadeia de comando da organização. De acordo com Victor Hugo, mesmo recolhida na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, ela mantinha posição hierárquica superior a outras integrantes do grupo e continuava exercendo influência sobre as atividades criminosas realizadas fora do sistema penitenciário.

A situação mudou drasticamente na madrugada de 17 de agosto de 2025. Angeliquinha e Jéssica Leal da Silva, conhecida como “Arlequina”, também apontada como liderança criminosa, escaparam da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May.

Informações divulgadas durante a apuração da fuga apontaram que as detentas teriam serrado duas grades da cela 11, localizada no Raio 4. Depois, teriam rompido outra grade na parte superior, alcançado o pavilhão e chegado à área externa. A saída teria ocorrido pela região onde funcionava uma obra da fábrica existente dentro do complexo penitenciário, cujo portão estaria apenas encostado e sem vigilância naquele momento.

A Secretaria de Estado de Justiça instaurou procedimento interno por meio da Corregedoria e da Inteligência para descobrir como duas detentas consideradas de alta periculosidade conseguiram deixar a unidade. Entre os pontos submetidos à apuração estava a possibilidade de eventual facilitação da fuga. Equipes das forças de segurança e do Serviço de Operações Penitenciárias Especializadas foram mobilizadas imediatamente.

Enquanto as buscas avançavam, investigadores começaram a reconstruir o caminho utilizado por Angeliquinha depois de deixar Cuiabá. Segundo Victor Hugo, os elementos obtidos durante a investigação indicaram uma rota compatível com a saída de Mato Grosso em direção à Bolívia. A apuração posteriormente confirmou que ela havia se estabelecido em Santa Cruz de la Sierra.

A distância não significou, segundo a Polícia Civil, rompimento com a facção. Os investigadores afirmam que Angeliquinha continuou conversando com integrantes subordinados a ela e mantendo influência sobre decisões da organização no norte mato-grossense.

O delegado atribui à investigada uma estrutura de comando que ultrapassava o tráfico de drogas. A atuação envolveria extorsões contra garimpos, controle da circulação de armamentos, especialmente em áreas rurais, além de interferência direta na comercialização de entorpecentes e determinação de homicídios.

Em março de 2026, quando Angeliquinha já estava fora do país, outra investigação atingiu diretamente o núcleo familiar associado a ela. A Polícia Civil deflagrou a Operação Showdown para cumprir 31 ordens judiciais contra investigados por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e divulgação de jogos de azar.

Foram expedidos quatro mandados de prisão, sete mandados de busca e apreensão, seis ordens de sequestro de veículos, quatro sequestros de imóveis, sete bloqueios de contas bancárias e três suspensões de pessoas jurídicas. As determinações partiram da 5ª Vara Criminal de Sinop e foram cumpridas principalmente em Alta Floresta e Nova Bandeirantes.

Entre os alvos estavam familiares de Angeliquinha. A investigação alcançou o pai dela, Paulo Felizardo de Sá, a filha Kauany Beatriz e Guilherme Laureth, apontado como genro da líder criminosa. A apuração foi desenvolvida conjuntamente por unidades de combate ao crime organizado e pela Delegacia de Alta Floresta.

A investigação financeira chamou especialmente a atenção dos policiais. Segundo a Polícia Civil, o núcleo investigado teria movimentado mais de R$ 20 milhões e utilizado mecanismos como empresas de fachada, negócios nos setores de roupas, calçados e beleza, atividades relacionadas a garimpos e plataformas de jogos de azar para dar aparência lícita aos recursos investigados.

Victor Hugo afirmou posteriormente que Kauany, então com 20 anos, teria movimentado aproximadamente R$ 20 milhões em dois anos, embora, segundo a investigação, não apresentasse renda compatível com esse volume financeiro. A origem e a destinação dos recursos fazem parte da investigação sobre possível lavagem de dinheiro.

Enquanto o núcleo era atingido em Mato Grosso, Angeliquinha permanecia em Santa Cruz de la Sierra. Segundo o delegado, ela mantinha uma residência com piscina e chegou a publicar imagens de festas e momentos de lazer durante o período em que estava foragida.

A Polícia Civil também descobriu que a aparência da foragida havia mudado. Conforme Victor Hugo, Angeliquinha realizou mais de cinco procedimentos estéticos durante os 13 meses em que permaneceu fora do sistema prisional. Quando finalmente foi abordada na Bolívia, apresentou ainda um documento de identidade brasileiro falso, com nome diferente do verdadeiro.

Em maio de 2026, a procura ganhou dimensão nacional. Angeliquinha passou a integrar o Projeto Captura, lista mantida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública reunindo criminosos procurados considerados prioritários pelas forças de segurança.

A investigação sobre seu paradeiro prosseguiu com intercâmbio de informações entre autoridades brasileiras e bolivianas. A Polícia Civil de Mato Grosso concentrou os trabalhos na Gerência de Combate ao Crime Organizado/Draco e na Gerência Estadual de Polinter e Capturas, que passaram a atuar em conjunto com a polícia da Bolívia.

O cerco terminou em 22 de setembro de 2026. Angeliquinha foi localizada em Santa Cruz de la Sierra e capturada durante a operação conjunta. Segundo informações divulgadas após a ação, ela estava na rua quando foi abordada. O documento falso não impediu sua identificação.

A captura, entretanto, não encerra as investigações. Uma das principais questões agora é descobrir o que exatamente Angeliquinha fazia durante o período em que permaneceu na Bolívia.

A permanência prolongada em Santa Cruz de la Sierra levantou a suspeita de que sua presença no país vizinho poderia ir além da tentativa de escapar das autoridades brasileiras. Segundo Victor Hugo, existem indícios de que ela tenha desempenhado função relacionada à entrada, saída e negociação de drogas destinadas à organização criminosa.

A Draco pretende aprofundar essa frente para identificar contatos, fornecedores, rotas, movimentações financeiras e a posição que Angeliquinha eventualmente ocupava no esquema transnacional. Até o momento, a Polícia Civil trata essa atuação específica no tráfico a partir da Bolívia como objeto de investigação, e não como fato definitivamente comprovado.

Para os investigadores, porém, a captura representa a retirada de circulação de uma liderança que, segundo a Polícia Civil, manteve capacidade de comando em três situações distintas: em liberdade, dentro do sistema penitenciário e, posteriormente, como foragida instalada fora do Brasil.

Angeliquinha retorna ao alcance das autoridades brasileiras carregando uma extensa sequência de condenações e investigações. Além das penas que ultrapassam 260 anos, existem seis mandados expedidos durante o período em que permaneceu foragida e procedimentos que ainda procuram dimensionar a estrutura criminosa e financeira atribuída a ela.

A prisão na Bolívia, portanto, encerra a busca pela foragida, mas não a investigação. A próxima etapa deverá concentrar-se justamente na reconstrução dos 13 meses em que Angeliquinha permaneceu em Santa Cruz de la Sierra e na identificação de eventuais conexões entre o comando exercido no norte de Mato Grosso e o mercado de drogas operado a partir do território boliviano.