JB News
Por Nayara Cristina
Prefeito de Cuiabá afirma que direita conquistou força no Congresso, aposta na vitória de Flávio Bolsonaro, critica situação econômica do país e anuncia mobilização bolsonarista na UFMT e nas ruas da capital
O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), elevou o tom contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmou que, mesmo que o petista consiga vencer o segundo turno das eleições presidenciais, não terá condições políticas de governar o Brasil. Em entrevista ao JB News, o prefeito sustentou que a nova composição do Congresso Nacional, com expressiva presença de parlamentares de direita, poderá inviabilizar uma eventual nova administração petista e chegou a prever um processo de impeachment em menos de seis meses.
“A esquerda não vai ganhar. A esquerda já perdeu, na verdade. A gente tem maioria no Senado, maioria na Câmara. A esquerda já perdeu. Se acontecer de Lula virar presidente, vamos supor que isso acontecesse, não tem governabilidade, acabou. Acabou a governabilidade da esquerda. Ele sofre impeachment em menos de seis meses”, disparou.
A declaração representa uma das manifestações mais contundentes de Abílio durante a campanha presidencial de 2026 e demonstra o clima de enfrentamento político que marca a disputa entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL), marcada para ser decidida nas urnas em 25 de outubro.
O prefeito argumenta que a eleição de uma bancada conservadora numerosa para a Câmara dos Deputados e o Senado alterou a correlação de forças em Brasília, independentemente de quem vencer a Presidência.
A previsão de impeachment, entretanto, é uma avaliação política de Abílio, não uma consequência automática do resultado eleitoral. A Constituição exige fundamento jurídico específico para a responsabilização do presidente da República, além do cumprimento de procedimentos e da obtenção de maiorias qualificadas no Congresso. Uma eventual dificuldade de articulação política, isoladamente, não constitui motivo suficiente para afastamento.
Abílio, por outro lado, demonstrou confiança na vitória de Flávio Bolsonaro e afirmou que a candidatura do senador ultrapassou as fronteiras do eleitorado tradicional da direita.
“Essa eleição é uma eleição em que, para o Brasil, nós precisamos eleger o Flávio Bolsonaro. Só com Flávio Bolsonaro que esse país vai para a frente”, declarou.
Na avaliação do prefeito, o crescimento da candidatura bolsonarista está diretamente relacionado à insatisfação de parte da população com a economia, especialmente com o custo dos alimentos e a perda do poder de compra.
Abílio afirmou que o brasileiro enfrenta dificuldades crescentes para manter as despesas domésticas e criticou o governo federal pela situação econômica.
“Não é possível mais ir ao mercado e, com cem reais, você conseguir comprar duas sacolas de mercado. Isso é um absurdo. As pessoas não têm mais um salário chegando até o fim do mês”, afirmou.
O prefeito sustentou que muitos trabalhadores já comprometem praticamente toda a renda nos primeiros dias após receber o salário, situação que, segundo ele, favorece a mobilização de diferentes partidos em torno da candidatura de Flávio.
Para Abílio, o projeto eleitoral do senador deixou de representar exclusivamente a direita e passou a reunir grupos interessados em uma mudança na condução do país.
Ele também afirmou que a recuperação econômica precisa estar acompanhada do respeito às instituições, à Constituição e à democracia.
“O Brasil tem que sair do buraco em que está. A democracia precisa ser respeitada, a Constituição precisa ser respeitada, porque o país precisa dar certo e seguir para a frente”, declarou.
Outro assunto abordado na entrevista foi a discussão nacional sobre o fim da escala de trabalho 6x1. Diferentemente de lideranças conservadoras que demonstram resistência à alteração da jornada, Abílio elogiou a posição adotada por Flávio Bolsonaro, que anunciou apoio à proposta de mudança do atual modelo.
O prefeito afirmou que considera positiva a possibilidade de modernização das relações trabalhistas e defendeu mecanismos que permitam maior flexibilidade de horários e remuneração por hora trabalhada.
“Eu vejo com bons olhos. Acredito que a proposta dele é excelente. Não só a 6x1, mas também a jornada flexível por hora trabalhada, conforme acontece nos Estados Unidos”, afirmou.
Abílio mencionou trabalhadores que exercem atividades em home office e profissionais que poderiam organizar seus horários de maneira diferente, sem necessariamente ficarem vinculados a jornadas convencionais.
Segundo o prefeito, o Brasil precisa avançar nas modalidades de contratação para acompanhar as transformações do mercado de trabalho.
Questionado sobre as críticas de setores da esquerda, que argumentam que negociações individuais poderiam favorecer empregadores e fragilizar direitos dos empregados, Abílio reagiu acusando os adversários de dificultarem a atividade profissional.
“Eu acho que o maior erro da esquerda é querer atrapalhar o trabalhador a trabalhar. Esse é o maior erro da esquerda”, afirmou.
Para sustentar seu posicionamento, citou pedreiros, entregadores e motoristas de aplicativos que passaram a trabalhar como autônomos ou por meio de modelos de prestação de serviços.
Na avaliação do prefeito, esses exemplos demonstram que o mercado procura alternativas quando as regras tradicionais não atendem às necessidades de determinados profissionais.
Abílio afirmou ainda que a informalidade cresce no Brasil e atribuiu parte desse movimento às dificuldades impostas pelas normas trabalhistas. A relação de causa e efeito apresentada pelo prefeito é sua interpretação política e econômica, não tendo sido acompanhada, na entrevista, de dados que comprovassem a comparação entre o crescimento do emprego formal e informal.
A entrevista também abordou a polarização política nos ambientes de trabalho e nas universidades.
Questionado sobre um vídeo atribuído a um influenciador ligado ao PT, que teria orientado trabalhadores a esconder suas preferências eleitorais dos empregadores, Abílio afirmou que o comportamento também ocorreria entre eleitores da direita, mas por motivos diferentes.
Segundo o prefeito, haveria eleitores de Flávio Bolsonaro que escondem suas escolhas políticas para evitar problemas profissionais ou acadêmicos.
Ele chegou a afirmar que estudantes de instituições públicas simulam apoio a Lula por receio de sofrer represálias de professores.
“Mente na universidade federal falando que vai votar no Lula, faz até o L fingindo que vai votar no Lula, só para o professor da universidade federal não prejudicar o cara, não tirar uma nota do cara”, declarou.
As afirmações foram apresentadas pelo prefeito sem identificação de casos concretos ou provas de que professores tenham efetivamente alterado notas ou promovido retaliações em razão da preferência eleitoral de estudantes.
Abílio também alegou que Flávio Bolsonaro teria obtido votação expressiva dentro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A afirmação não foi acompanhada de dados eleitorais específicos na entrevista.
A UFMT, inclusive, deverá se transformar em novo palco de mobilização política durante o segundo turno. Abílio comentou a organização de uma caminhada de apoiadores da direita na universidade, prevista para sexta-feira, 16 de outubro, em meio ao acirramento das manifestações políticas entre eleitores dos dois candidatos.
Questionado sobre a possibilidade de confrontos entre bolsonaristas e militantes de esquerda, o prefeito afirmou que a orientação é para que o ato seja realizado de maneira pacífica.
“O mais importante é que a gente seja respeitado e a nossa opinião seja respeitada, assim como respeitamos a opinião de todos”, declarou.
Abílio garantiu que os participantes ligados à direita deverão manter uma postura respeitosa durante a mobilização.
“A direita vai se portar sempre com respeito, com ética e com cidadania”, afirmou.
Apesar do discurso em defesa do respeito às opiniões divergentes, o prefeito fez duras críticas aos militantes de esquerda e afirmou que manifestações públicas de adversários acabam fortalecendo a candidatura de Flávio Bolsonaro.
“O maior cabo eleitoral da direita, o maior cabo eleitoral do Flávio Bolsonaro, é a esquerda”, ironizou.
Ele chegou a sugerir que estudantes, professores e militantes ligados à esquerda realizem caminhadas por regiões centrais de Cuiabá, alegando que a exposição pública desses grupos estimularia eleitores a votar no candidato do PL.
O prefeito também reagiu a uma declaração do deputado estadual Lúdio Cabral (PT), que teria feito uma provocação política envolvendo a diferença de votos entre ambos.
Em tom irônico, Abílio sugeriu que o petista dispute o Governo de Mato Grosso na próxima eleição.
“Eu acho que ele tem todo o direito de ser candidato a governador na próxima. Ele vai ganhar. Vai lá, Lúdio, você é candidato a governador, tá? Vai dar tudo certo”, provocou.
O prefeito ainda comentou a aproximação de integrantes de outros partidos à campanha de Flávio Bolsonaro, incluindo movimentações de setores do MDB em Mato Grosso.
Sem demonstrar resistência à entrada de antigos adversários no mesmo campo eleitoral, Abílio afirmou que todos os apoios serão recebidos.
“Todo mundo que quiser apoiar o Flávio é bem-vindo”, declarou.
A manifestação sinaliza que o prefeito pretende priorizar a ampliação da base eleitoral bolsonarista no segundo turno, mesmo com a participação de lideranças que estiveram em campos políticos diferentes durante a disputa estadual.
Abílio chegou a brincar que até o deputado Lúdio Cabral votaria em Flávio Bolsonaro, numa provocação direta ao parlamentar petista.
O prefeito também foi questionado sobre a presença de Júlio Campos e o possível alinhamento de diferentes grupos políticos em torno da candidatura presidencial do PL.
Na resposta, procurou reforçar a ideia de que a disputa ultrapassa rivalidades partidárias.
“Todo mundo está no Brasil, né? Se o Brasil afundar, todo mundo afunda junto”, afirmou.
Ao encerrar a entrevista, Abílio anunciou mais uma atividade da campanha presidencial em Cuiabá.
Segundo ele, apoiadores de Flávio Bolsonaro estão organizando para domingo, 18 de outubro, o chamado “Bloquinho do 22”, com concentração prevista na região do Chopão, na capital.
O evento deverá reunir apoiadores do candidato, com adesivagem de veículos e outras ações de mobilização eleitoral.
O prefeito afirmou que a intenção é ampliar a presença da campanha nas ruas e estimular a participação de eleitores na reta final do segundo turno.
A ofensiva eleitoral anunciada por Abílio evidencia a estratégia de intensificar a mobilização conservadora em Mato Grosso, estado onde o campo político de direita saiu fortalecido das eleições de 4 de outubro.
Ao prever que Lula não teria governabilidade e poderia enfrentar um impeachment em menos de seis meses, o prefeito transforma a composição do novo Congresso em argumento central da campanha bolsonarista.
A disputa presidencial, entretanto, permanece aberta e será decidida pelo voto popular. Embora Abílio afirme que a esquerda já perdeu a eleição, a escolha do próximo presidente ainda depende do resultado das urnas no dia 25 de outubro.
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