De acordo com a apuração da DECOR, o esquema teria funcionado a partir do acesso privilegiado de uma servidora municipal ao sistema bancário e contábil da prefeitura. Ela, segundo a polícia, realizava transferências indevidas em favor de uma empresa fornecedora do município, sem empenho, sem respaldo contratual e, em diversos casos, com duplicidade de pagamentos de despesas já quitadas. Para dificultar a identificação das fraudes, os valores eram lançados junto a pagamentos legítimos e posteriormente fragmentados para ocultar a origem ilícita do dinheiro.
A empresa investigada, conforme a polícia, funcionava como elo de distribuição dos recursos desviados. Depois de receber valores oriundos de contas públicas ligadas à saúde, educação e assistência social, o dinheiro era pulverizado entre servidores públicos municipais, um servidor estadual e um policial militar, apontado como o maior beneficiário individual do esquema. A corregedoria da Polícia Militar de Mato Grosso acompanhou o cumprimento dos mandados relacionados ao militar investigado.
As irregularidades vieram à tona de forma fortuita, após um fiscal de tributos do município questionar a ausência do pagamento de sua gratificação por desempenho e apresentar documentos divergentes dos registros oficiais. A inconsistência levou à descoberta de receitas omitidas na contabilidade da prefeitura. A partir disso, a contadora-chefe do município instaurou auditoria interna, que evoluiu para sindicância administrativa e, posteriormente, para inquérito policial conduzido pela DECOR. O caso também foi comunicado ao Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, que instaurou tomada de contas especial.
Embora a polícia ainda não tenha divulgado oficialmente os nomes dos investigados nesta nova fase da Operação Dupla Face, a apuração aponta o envolvimento de uma ex-servidora com acesso exclusivo ao sistema financeiro, do proprietário da empresa usada para receber os repasses, de um secretário municipal ligado à pasta responsável pela maioria dos pagamentos suspeitos, de um servidor estadual e de um policial militar. A Polícia Civil informou que as diligências continuam para conclusão do inquérito, análise do material apreendido e eventual indiciamento dos envolvidos pelos crimes de peculato, associação criminosa, ordenação de despesa não autorizada e fraudes licitatórias.