“Irmão gêmeo”, amante e fortuna milionária: celular de Zampieri revela esquema que teria movimentado mais de R$ 14 milhões e derrubou desembargador de Mato Grosso

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JB News por Emerson Teixeira Um dos maiores escândalos já registrados no Judiciário de Mato Grosso veio à tona após a análise do celular do advogado Roberto Zampieri, material que acabou revelando um suposto esquema de venda de decisões judiciais dentro do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. As descobertas levaram o Conselho Nacional de Justiça a determinar o afastamento do desembargador Dirceu dos Santos por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e negociação de sentenças. De acordo com as investigações, o empresário Luciano Cândido Amaral seria o principal intermediário do magistrado em um esquema que transformava decisões judiciais em um verdadeiro balcão de negócios. Nos contatos do celular de Zampieri, Amaral aparecia identificado pelo apelido “Irmão Gêmeo – DD”, referência interpretada pelos investigadores como ligação direta com o desembargador. A perícia no aparelho revelou um episódio considerado emblemático para a investigação. No dia 27 de setembro de 2023, Zampieri encaminhou a Amaral um processo em que um advogado buscava um efeito suspensivo. Apenas 15 segundos depois, o empresário já respondia sobre o andamento do caso. No dia seguinte, a decisão liminar favorável foi assinada por Dirceu dos Santos no tribunal, levantando suspeitas de que a decisão teria sido previamente negociada.  As mensagens também mostraram que o esquema envolvia pagamentos e repasses financeiros. Entre 2020 e 2023, cerca de R$ 600 mil foram transferidos por Zampieri para contas e empresas ligadas a Luciano Amaral. Parte desse dinheiro teria circulado por empresas usadas para disfarçar pagamentos ilícitos, entre elas uma construtora vinculada ao empresário.  Um dos rastros considerados mais graves pelos investigadores foi a transferência de R$ 140 mil feita pela empresa Veritas Construtora diretamente para a conta de Carla Patrícia Monteiro dos Santos, esposa do desembargador. A operação reforçou a suspeita de que vantagens indevidas estariam sendo distribuídas para beneficiar decisões judiciais.  Outro elemento que chamou atenção foi a utilização de empresas para movimentar recursos suspeitos. Uma delas seria a MS Comércio de Pizzas e Massas, registrada em nome de uma mulher apontada nas investigações como amante do magistrado. Segundo o relatório citado nas investigações, embora não estivesse formalmente no quadro societário, o próprio desembargador administrava o negócio e utilizava cartões pessoais para pagar fornecedores. As quebras de sigilo bancário e fiscal revelaram ainda uma evolução patrimonial considerada incompatível com os rendimentos legais de um magistrado. Em apenas cinco anos, Dirceu dos Santos movimentou mais de R$ 14,6 milhões em bens e operações patrimoniais, valor muito superior ao que poderia ser acumulado com os vencimentos de um desembargador.  A investigação também apontou que o patrimônio do magistrado saltou de cerca de R$ 5,6 milhões em 2019 para mais de R$ 15,5 milhões em 2024, gerando uma “sobra financeira” superior a R$ 9,6 milhões sem origem comprovada nas declarações fiscais.  No levantamento feito pelo CNJ, o magistrado acumulou 92 operações patrimoniais, incluindo imóveis de luxo, fazendas, terrenos em condomínios de alto padrão, veículos e aplicações financeiras milionárias. Entre os bens identificados estão imóveis em Cuiabá, áreas rurais, maquinário agrícola e até uma residência nos Estados Unidos.  Outro ponto levantado pelas investigações é que, apenas em 2023, o desembargador teria gastado R$ 1,9 milhão a mais do que seus rendimentos legais permitiriam, reforçando a suspeita de que parte da fortuna teria origem em pagamentos ilegais ligados ao suposto esquema de venda de decisões.  Apesar das suspeitas, Dirceu dos Santos nega irregularidades. Em sua defesa, o magistrado afirmou que os R$ 14,6 milhões movimentados nos últimos anos teriam sido devidamente declarados no Imposto de Renda, sustentando que não houve qualquer irregularidade em sua evolução patrimonial.  Com base nos indícios reunidos, o CNJ determinou o afastamento imediato do desembargador e a abertura de procedimento disciplinar. Paralelamente, as provas coletadas foram encaminhadas para análise da Procuradoria-Geral da República, que poderá apresentar denúncia criminal. Enquanto isso, o celular de Roberto Zampieri — considerado peça central na investigação — continua sendo examinado pelas autoridades. Para investigadores, o conteúdo ainda pode revelar novos personagens e ampliar as dimensões de um caso que já é tratado nos bastidores jurídicos como um dos maiores escândalos de corrupção já registrados no Judiciário de Mato Grosso.