DESAFIO ENERGÉTICO

Excesso de energia solar leva ONS a acionar plano inédito de cortes e coloca Mato Grosso entre os estados afetados

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Excesso de energia solar leva ONS a acionar plano inédito de cortes e coloca Mato Grosso entre os estados afetados

JB News

Por José Teixeira

O crescimento acelerado da geração de energia solar no Brasil passou a impor novos desafios à operação do sistema elétrico nacional. Neste domingo (7), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou pela primeira vez o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição, mecanismo criado para reduzir temporariamente a produção de algumas usinas diante do risco de excesso de oferta de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN). Mato Grosso está entre os estados diretamente impactados pela medida por meio da Energisa Mato Grosso, uma das distribuidoras incluídas no plano emergencial.


A decisão foi tomada após análises técnicas indicarem uma combinação de fatores capaz de provocar um desequilíbrio operacional no sistema. A forte incidência solar registrada durante o período diurno, somada às temperaturas mais amenas, ao feriado prolongado e ao baixo consumo característico dos domingos, resultou em uma situação incomum: uma produção elevada de energia e uma demanda significativamente reduzida.


Segundo o ONS, o desafio surge principalmente em razão da expansão da chamada micro e minigeração distribuída, formada por sistemas instalados em telhados de residências, propriedades rurais, empresas e indústrias. Essas unidades produzem energia diretamente para consumo próprio e injetam excedentes na rede elétrica, mas não são controladas pelo operador nacional da mesma forma que as grandes hidrelétricas, termelétricas e parques de geração centralizada.


Quando a demanda por energia cai drasticamente e a geração distribuída continua produzindo em grande escala, o sistema passa a operar com uma demanda líquida muito baixa. Nessas condições, aumenta a dificuldade para manter parâmetros essenciais à segurança elétrica, como frequência, tensão e estabilidade da rede. Especialistas explicam que a manutenção desses indicadores é fundamental para evitar oscilações, desligamentos automáticos e até interrupções mais amplas no fornecimento de energia.


O tema ganhou relevância nacional após episódios recentes que acenderam o alerta entre operadores e agentes do setor. Um dos momentos considerados mais críticos ocorreu no Dia dos Pais do ano passado, quando o sistema elétrico brasileiro enfrentou uma situação de elevada geração solar associada à redução do consumo, aproximando-se de um cenário de instabilidade operacional. Desde então, o ONS e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) passaram a discutir mecanismos emergenciais para lidar com o novo perfil da matriz energética brasileira.


Antes de acionar o plano emergencial, o operador informou que utilizou todas as ferramentas convencionais disponíveis para reduzir a oferta de energia. Entre as medidas adotadas esteve a diminuição da geração das grandes usinas sob seu controle direto, principalmente hidrelétricas. Como essa ação não foi suficiente para eliminar os riscos previstos para o período de maior incidência solar, tornou-se necessária a aplicação do plano aprovado pela Aneel em novembro de 2025.


A medida permite que o ONS solicite às distribuidoras a redução temporária da geração de usinas classificadas como Tipo III, categoria que engloba empreendimentos conectados diretamente às redes de distribuição e que não possuem despacho centralizado pelo operador nacional. Nesse grupo estão pequenas usinas solares, eólicas, de biomassa e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs).


Ao contrário das grandes usinas conectadas à rede básica de transmissão, essas unidades operam de forma descentralizada e possuem menor capacidade de controle por parte do sistema nacional. Por isso, em situações excepcionais de excesso de geração, podem ser alvo de cortes temporários para preservar a segurança operacional do SIN.


Mato Grosso aparece entre os estados mais relevantes nesse cenário. Nos últimos anos, o estado consolidou-se como um dos principais mercados de energia solar do país, impulsionado principalmente pelo crescimento da geração distribuída em áreas urbanas e rurais. A instalação de milhares de sistemas fotovoltaicos transformou o estado em uma referência nacional no setor, contribuindo para a diversificação da matriz energética e para a redução dos custos de energia de consumidores residenciais, produtores rurais e empresários.


Entretanto, o avanço acelerado da energia solar também ampliou os desafios relacionados à operação da rede elétrica. Em determinados períodos, principalmente durante fins de semana, feriados e dias de clima ameno, a produção solar pode superar significativamente a demanda local, exigindo ações de gerenciamento para evitar riscos à estabilidade do sistema.


A Energisa Mato Grosso integra o grupo de 12 distribuidoras selecionadas para executar o plano emergencial. Juntas, essas concessionárias concentram aproximadamente 80% de toda a potência instalada das pequenas usinas abrangidas pela medida. Além da Energisa MT, participam distribuidoras de Minas Gerais, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco e Mato Grosso do Sul.


De acordo com o ONS, a escolha dessas distribuidoras ocorreu justamente porque elas concentram a maior parte dos empreendimentos que podem ser acionados em situações de excedente energético. O objetivo é garantir maior eficiência operacional e ampliar a capacidade de resposta do sistema em momentos considerados críticos.


A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) informou que as empresas do setor estão preparadas para cumprir as determinações operacionais emitidas pelo operador nacional. No entanto, a entidade defende que os procedimentos adotados sejam aprimorados para oferecer maior segurança aos agentes envolvidos.


Segundo a associação, ainda existe necessidade de detalhamento dos critérios técnicos que definirão quais usinas serão afetadas, em quais circunstâncias e por quanto tempo os cortes poderão ocorrer. Para a Abradee, a definição de regras claras, transparentes e robustas é fundamental para garantir previsibilidade aos investidores e reduzir eventuais questionamentos jurídicos.


A entidade também alerta que a ausência de procedimentos mais detalhados pode gerar insegurança jurídica para geradores, distribuidoras e demais participantes do mercado elétrico. O setor defende que o crescimento das fontes renováveis seja acompanhado por regulamentações capazes de equilibrar a expansão da geração com a segurança operacional do sistema.


Outro aspecto destacado pela Abradee é que o problema deixou de ser uma preocupação futura e passou a fazer parte da realidade operacional brasileira. Situações semelhantes tendem a ocorrer com maior frequência em períodos de baixo consumo, especialmente durante feriados prolongados, datas comemorativas e até mesmo em eventos de grande mobilização nacional, como jogos da Seleção Brasileira em Copas do Mundo, quando o comportamento do consumo energético costuma sofrer alterações significativas.


Além dos desafios operacionais, o cenário também traz reflexos econômicos importantes para Mato Grosso, um dos estados que mais expandiram a geração solar nos últimos anos. Impulsionado pelo agronegócio, pela indústria e pela crescente adesão de consumidores à geração distribuída, o setor movimenta bilhões de reais em investimentos privados e sustenta uma ampla cadeia econômica formada por fabricantes, distribuidores de equipamentos, empresas de instalação, engenheiros, técnicos e prestadores de serviços especializados.


A discussão sobre eventuais cortes temporários na geração de energia também desperta atenção entre investidores, empresários e produtores rurais. Embora o plano emergencial tenha caráter excepcional e preventivo, especialistas apontam que restrições frequentes podem impactar a previsibilidade financeira dos empreendimentos, uma vez que a viabilidade econômica dos projetos está diretamente relacionada à quantidade de energia efetivamente gerada e aproveitada pelo sistema elétrico.


Em Mato Grosso, a energia solar tornou-se uma importante ferramenta de redução de custos para o agronegócio, especialmente em atividades como irrigação, armazenagem de grãos, beneficiamento de produtos agrícolas e funcionamento de estruturas produtivas de grande consumo energético. A expansão do setor contribuiu para aumentar a competitividade de diversas cadeias produtivas e atraiu investimentos para diferentes regiões do estado.


O debate também evidencia a necessidade de acelerar investimentos em infraestrutura energética. Representantes do setor defendem a ampliação das redes de transmissão e distribuição, além da implantação de sistemas de armazenamento por baterias capazes de absorver o excedente produzido durante os períodos de maior incidência solar. Essas medidas são apontadas como fundamentais para permitir a continuidade do crescimento das fontes renováveis sem comprometer a estabilidade do sistema elétrico.


Para analistas do mercado energético, o episódio demonstra que o Brasil enfrenta um novo desafio: não apenas produzir energia suficiente para atender à demanda, mas também criar condições para armazenar, transportar e gerenciar de forma eficiente a crescente oferta de eletricidade proveniente das fontes renováveis. Em estados como Mato Grosso, que se consolidaram como protagonistas da transição energética nacional, a solução desses gargalos será decisiva para garantir a continuidade dos investimentos e o fortalecimento da economia ligada ao setor.


Para especialistas do setor elétrico, o episódio evidencia uma transformação estrutural na matriz energética nacional. Durante décadas, a principal preocupação das autoridades era garantir energia suficiente para atender ao crescimento do consumo. Agora, em determinadas regiões e horários do dia, o desafio passa a ser justamente administrar o excesso de geração renovável produzido por milhares de sistemas espalhados pelo país.


Nesse contexto, cresce a discussão sobre a necessidade de investimentos em tecnologias capazes de aumentar a flexibilidade do sistema elétrico. Entre as soluções apontadas estão sistemas de armazenamento por baterias de grande porte, ampliação das linhas de transmissão, modernização dos equipamentos de controle, fortalecimento da infraestrutura digital do setor e mecanismos que incentivem consumidores a deslocar seu consumo para horários de maior produção solar.


O debate também envolve a formulação de políticas públicas voltadas para a reorganização do sistema elétrico diante da nova realidade energética brasileira. O entendimento entre técnicos e agentes do setor é que a expansão das fontes renováveis continuará avançando nos próximos anos, tornando indispensável a criação de instrumentos capazes de absorver o crescimento da geração sem comprometer a estabilidade da rede.


Apesar do ineditismo da medida, o ONS ressalta que o acionamento do plano possui caráter preventivo e busca justamente evitar problemas mais graves, como apagões ou oscilações de grande porte. O operador afirma que continuará monitorando permanentemente as condições climáticas, os níveis de consumo e o comportamento da geração distribuída para adaptar a operação do sistema a um cenário cada vez mais marcado pela presença da energia solar.


Para Mato Grosso, um dos líderes nacionais em geração fotovoltaica, o episódio representa um sinal claro de que a expansão das energias renováveis exigirá investimentos contínuos em infraestrutura, tecnologia e planejamento. O desafio agora não é apenas produzir mais energia limpa, mas garantir que todo esse potencial possa ser integrado ao sistema elétrico de forma segura, eficiente e sustentável.