JB News
por Nayara Cristina
Pedido de cassação, operação policial e plenário tenso marcam volta dos vereadores à Câmara de Cuiabá
A retomada dos trabalhos legislativos na Câmara Municipal de Cuiabá nesta terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, confirmou aquilo que já se tornou quase uma marca do Parlamento cuiabano: sessões marcadas por tensão política, embates nos bastidores e denúncias que ultrapassam os limites do plenário. Logo na abertura do ano legislativo, a Casa foi palco do protocolo de um pedido de cassação de mandato contra o vereador Chico 2000, ex-presidente da Câmara, atualmente afastado por decisão judicial no bojo da chamada Operação Gorjeta.
A sessão inaugural foi marcada pela ausência de Chico 2000, afastado do cargo na última semana após ser alvo de investigação que apura um suposto esquema de desvio de recursos públicos por meio de uma instituição ligada ao esporte. Segundo as investigações, os recursos teriam sido utilizados na organização de corridas supostamente fraudadas, dentro de um esquema que, conforme as apurações preliminares, pode ter desviado mais de R$ 5 milhões dos cofres públicos. Além do ex-presidente da Câmara, outros seis vereadores aparecem entre os investigados, além de empresários e familiares diretamente ligados à execução do esquema.
A ofensiva política contra Chico 2000 veio de forma imediata. Logo na primeira sessão do ano, o ex-juiz federal Julier Sebastião, adversário político do vereador, protocolou formalmente um pedido de quebra de decoro parlamentar, dando início a um processo que pode culminar, em última instância, na cassação do mandato. O gesto reforçou o clima de instabilidade política e ampliou a pressão sobre a Mesa Diretora da Câmara, que agora terá de conduzir o trâmite do pedido sob forte vigilância pública.
Questionada sobre o protocolo do pedido, a presidente do Parlamento, Paula Calil, afirmou que o requerimento seguirá o rito regimental e será submetido à análise e discussão em plenário. Segundo ela, ainda é cedo para qualquer conclusão definitiva sobre perda de mandato ou cassação, mas destacou a necessidade de que os fatos sejam devidamente esclarecidos. “É muito cedo para nós falarmos em perda de mandato ou cassação. A instauração de uma comissão processante dá a oportunidade para que o parlamentar acusado possa apresentar suas explicações. O que nós queremos é transparência e respostas claras para a sociedade”, afirmou.
Paula Calil ponderou ainda que a Câmara tem o dever institucional de agir com responsabilidade, garantindo o direito à ampla defesa, mas sem ignorar a gravidade das acusações. Para a presidente, o momento exige equilíbrio, mas também firmeza, diante da repercussão social do caso. Ela ressaltou que a população de Cuiabá espera explicações concretas e que o Legislativo não pode se furtar ao debate público sobre suspeitas que envolvem recursos destinados a áreas sensíveis.
A Operação Gorjeta, deflagrada pela Polícia Civil, investiga um suposto esquema estruturado de desvio de emendas parlamentares e outros recursos públicos, com participação de vereadores, empresários, intermediários e familiares. Entre os alvos estão o empresário Chiroli, sua esposa e outros investigados que, segundo a polícia, teriam atuado de forma coordenada para fraudar contratos e direcionar recursos, simulando atividades esportivas para justificar a movimentação financeira.
Nos bastidores da Câmara, o clima é de apreensão. A possibilidade de abertura de uma comissão processante contra Chico 2000 expõe fissuras internas, reacende disputas políticas antigas e coloca sob suspeita a atuação de parte do Legislativo municipal. Parlamentares evitam declarações públicas mais contundentes, enquanto líderes partidários avaliam o impacto político de uma eventual cassação em pleno início de ano legislativo.
O retorno dos vereadores, que deveria marcar o início de debates sobre projetos e prioridades para a cidade, acabou dominado por denúncias, investigações e questionamentos sobre ética e moralidade pública. A ausência do ex-presidente da Casa, agora investigado e afastado, tornou-se o símbolo de uma legislatura que começa sob forte pressão e com a credibilidade do Parlamento novamente em xeque.
Enquanto o pedido de cassação aguarda tramitação, a sociedade acompanha de perto os desdobramentos. A expectativa é de que a Câmara dê uma resposta institucional à altura da gravidade do caso, garantindo transparência, respeito ao devido processo legal e, sobretudo, esclarecimentos claros sobre o destino dos recursos públicos supostamente desviados. O episódio reforça a percepção de que, em Cuiabá, o ano político começa sob tensão máxima — e com o plenário transformado, mais uma vez, em palco de crise.
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