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Por Emerson Teixeira
O afastamento do desembargador Dirceu dos Santos, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, abriu mais um capítulo de forte desgaste institucional no Judiciário estadual. Depois da decisão da Corregedoria Nacional de Justiça, que determinou a saída imediata do magistrado por suspeitas de corrupção, negociação de decisões judiciais e evolução patrimonial incompatível com a renda, o presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira — e não “José Zuckin”, como por vezes aparece de forma equivocada — mandou exonerar os servidores comissionados ligados ao gabinete de Dirceu, num movimento para esvaziar a estrutura funcional do desembargador afastado e preservar o andamento das apurações.
A decisão que tirou Dirceu dos Santos do cargo foi assinada pelo corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, em 2 de março de 2026. Segundo o CNJ, a investigação identificou indícios de que o desembargador teria proferido decisões judiciais mediante recebimento de vantagens indevidas, com intermediação de terceiros, empresários e advogados. O órgão também apontou que a quebra de sigilos bancário e fiscal revelou movimentação patrimonial considerada incompatível com os rendimentos declarados pelo magistrado, com mais de R$ 14,6 milhões em bens movimentados nos últimos cinco anos.
As apurações ganharam ainda mais peso porque, de acordo com a imprensa jurídica e mato-grossense, o caso está inserido na esteira das investigações derivadas da análise de mensagens extraídas do celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado em Cuiabá em 2023. Esse material passou a sustentar suspeitas de uma rede de intermediação de decisões judiciais no estado. Reportagens apontam que o CNJ viu nas conversas elementos de possível atuação de intermediários, além de suspeitas de lavagem de dinheiro e uso de operações imobiliárias para mascarar a origem de recursos.
O desdobramento administrativo dentro do Tribunal foi rápido. Após o afastamento cautelar, o gabinete de Dirceu dos Santos foi lacrado, senhas de acesso aos sistemas do Judiciário foram bloqueadas e equipamentos funcionais passaram a ficar à disposição da perícia e das investigações. Em seguida, José Zuquim determinou as exonerações dos comissionados lotados no gabinete, com efeitos retroativos à data do afastamento do magistrado.
Há, porém, um ponto importante de precisão jornalística: embora uma postagem em rede social tenha repercutido a informação de que 10 servidores teriam sido desligados, as reportagens consultadas com lista nominal dos exonerados apontam nove servidores comissionados exonerados do gabinete de Dirceu dos Santos. Entre os nomes citados pela imprensa estão Marcos Matos dos Reis, Kimbelly Cavalcanti Eufrasio, Ivan Sabo de Oliveira Junior, Francine Burali Garcia, Fernando de Moura Carvalho, Danilo Alexandre Alves, Cassiano D’Cristian da Silva Juliani, Ana Karolina Constancia da Guia e Amanda de Castro Rangrab Arrais.
A medida adotada pela presidência do TJMT foi interpretada como uma resposta administrativa para desmontar a base de confiança do desembargador afastado e impedir qualquer interferência na coleta de provas ou na rotina do gabinete. Até o momento, não há indicação pública de que os assessores exonerados sejam investigados pelo mesmo conteúdo atribuído ao magistrado; o foco das apurações continua centrado em Dirceu dos Santos e na suspeita de que decisões judiciais teriam sido negociadas em benefício de partes interessadas.
O caso teve ampla repercussão em Mato Grosso e também fora do estado. Além da cobertura intensa de veículos como MidiaJur, MidiaNews, RDNews, Folhamax, Olhar Jurídico e Diário de Cuiabá, a decisão do CNJ e seus desdobramentos circularam em perfis e páginas nas redes sociais, especialmente no Instagram, ajudando a ampliar o impacto político e institucional do afastamento. A soma desses fatores transformou o episódio em um dos mais sensíveis já enfrentados recentemente pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
Outro dado que elevou a gravidade do caso foi o encaminhamento das informações à Procuradoria-Geral da República para apuração criminal. Segundo a cobertura da imprensa, Dirceu dos Santos recebeu prazo para apresentar defesa prévia e complementar esclarecimentos antes de eventual avanço do procedimento disciplinar no CNJ. Assim, além da consequência administrativa imediata, o magistrado passou a enfrentar também um ambiente de risco jurídico mais amplo, com reflexos cíveis, disciplinares e criminais.
No plano político-institucional, a exoneração dos comissionados reforça o tamanho da crise instalada no TJMT. O afastamento de um desembargador por suspeita de corrupção já é, por si só, um fato de enorme gravidade. Quando esse afastamento é seguido do lacre do gabinete, apreensão de equipamentos, bloqueio de acessos e desmonte completo da equipe de confiança, a mensagem que fica é a de que o tribunal tenta reagir rapidamente para conter danos e preservar a credibilidade da Corte diante de um escândalo que abalou o Judiciário mato-grossense.