42 ANOS DE FUGA

Foragido da “Tragédia do Baldo” que matou 19 pessoas é localizado em Mato Grosso e preso após quatro décadas escondido

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Foragido da “Tragédia do Baldo” que matou 19 pessoas  é localizado em Mato Grosso e preso após quatro décadas escondido

JB News

Por Emerson Teixeira

REPORTAGEM ESPECIAL

Quarenta e dois anos de fuga: como a Polícia desvendou a vida dupla do homem que escapou da Justiça desde a Tragédia do Baldo

Foram necessários 42 anos para que a Justiça alcançasse um homem que, durante mais de quatro décadas, conseguiu desaparecer dos radares da polícia e reconstruir a própria vida utilizando outra identidade. A prisão de Aluísio Farias Batista, de 69 anos, realizada nesta sexta-feira (27), em Mato Grosso, encerra uma das mais longas caçadas policiais da história recente do Rio Grande do Norte e representa o desfecho de um caso que marcou profundamente a memória da população potiguar. Condenado definitivamente a 21 anos de prisão pelos crimes relacionados à Tragédia do Baldo, ele viveu durante décadas acreditando que o tempo havia sepultado o processo judicial. Não sepultou. A investigação permaneceu viva, atravessou gerações de policiais civis, acompanhou a transformação das técnicas de investigação criminal no Brasil e terminou com a sua captura em uma operação conjunta entre as Polícias Civis do Rio Grande do Norte e de Mato Grosso.

A história começou na madrugada de 25 de fevereiro de 1984. Natal vivia o auge do Carnaval quando milhares de pessoas acompanhavam um tradicional bloco carnavalesco pelas ruas da capital. Músicos e foliões seguiam pela região conhecida como Baldo quando um ônibus conduzido por Aluísio perdeu o controle e atingiu violentamente a multidão. O cenário foi de absoluto desespero. Dezenove pessoas morreram e outras doze ficaram gravemente feridas. O acidente tornou-se um dos episódios mais traumáticos da história do estado e passou a ser conhecido como Tragédia do Baldo. A repercussão foi imediata. O caso ocupou os principais noticiários da época, mobilizou autoridades e gerou forte comoção popular, principalmente pela quantidade de vítimas e pela brutalidade do ocorrido em plena festa popular.

Nos dias seguintes, a Polícia Civil iniciou uma investigação que, para os padrões da época, era extremamente complexa. É importante lembrar que o Brasil de 1984 era completamente diferente do atual. As delegacias trabalhavam com arquivos físicos, prontuários em papel, fotografias reveladas e fichas datilografadas. Não existiam computadores integrados, internet, bancos de dados nacionais, biometria, reconhecimento facial, monitoramento por câmeras ou compartilhamento eletrônico de informações entre os estados. Cada diligência exigia viagens, consultas presenciais, troca de ofícios enviados pelos Correios e entrevistas realizadas pessoalmente. Bastava um investigado mudar de cidade ou atravessar a divisa de um estado para que sua localização se tornasse extremamente difícil.

Foi exatamente nesse cenário que Aluísio desapareceu. Logo após a tragédia, ele deixou o Rio Grande do Norte e iniciou uma longa jornada para escapar da responsabilização criminal. Durante anos, as autoridades trabalharam com poucas pistas concretas. Delegados foram substituídos, investigadores se aposentaram, novas equipes assumiram o caso e diferentes linhas de investigação foram abertas ao longo das décadas. Mesmo diante das dificuldades impostas pela tecnologia limitada da época, o processo nunca foi arquivado e o mandado de prisão permaneceu ativo, aguardando o momento em que novas informações pudessem levar ao paradeiro do condenado.

Enquanto isso, longe do estado onde ocorreu a tragédia, Aluísio reconstruía completamente sua vida. As investigações revelaram que ele passou a viver em Mato Grosso há muitos anos. Curiosamente, em um primeiro momento, sequer utilizava documentação falsa. A Polícia Civil descobriu que, em 1995, ele chegou a emitir uma carteira de identidade utilizando seus dados verdadeiros. Naquele período, a ausência de integração entre os institutos de identificação estaduais permitia que documentos fossem expedidos sem qualquer alerta sobre processos existentes em outras unidades da federação.

No ano seguinte, entretanto, sua estratégia mudou completamente. Em 1996, um homem morreu em Natal e Aluísio passou a utilizar a identidade dessa pessoa falecida. A partir daí, iniciou uma nova vida. Com documentos em outro nome, conseguiu trabalhar, estabelecer residência e permanecer praticamente invisível aos mecanismos de controle existentes na época. Durante décadas, viveu sem levantar suspeitas, beneficiando-se das falhas de comunicação entre os órgãos públicos e da limitação tecnológica que caracterizava o sistema de investigação criminal brasileiro nas décadas de 1980 e 1990.

Apesar da longa fuga, o caso jamais deixou de ser lembrado pela Polícia Civil do Rio Grande do Norte. Com o avanço da tecnologia, os investigadores decidiram revisar completamente os autos do processo. O trabalho praticamente recomeçou do zero. Havia poucas informações disponíveis e praticamente nenhum rastro recente do condenado. Entre os elementos preservados ao longo do tempo estava apenas uma fotografia antiga de Aluísio, registrada ainda na época da tragédia. Foi justamente essa imagem histórica que serviu como ponto de partida para uma nova etapa das investigações.

Os delegados passaram então a realizar um amplo cruzamento de registros civis, documentos públicos, informações cartoriais, cadastros estaduais, vínculos familiares e históricos documentais. A investigação ganhou um novo ritmo graças às modernas ferramentas de inteligência policial, capazes de conectar informações que, décadas atrás, permaneceriam isoladas em arquivos espalhados pelo país.

Foi durante essa varredura documental que surgiu uma pista considerada decisiva. Os investigadores descobriram que o pai de Aluísio havia falecido em 2021, na cidade de Tangará da Serra, em Mato Grosso. A informação revelou que a família possuía vínculos no estado e levou os policiais a concentrarem os esforços naquela região. A partir desse momento, iniciou-se uma intensa cooperação entre a Polícia Civil potiguar e a Polícia Civil mato-grossense. Equipes de inteligência passaram a compartilhar dados, confrontar documentos, analisar registros e reconstruir passo a passo a trajetória percorrida pelo condenado ao longo de mais de quatro décadas.

Com a confirmação de que Aluísio vivia em Mato Grosso, os investigadores iniciaram uma fase discreta de monitoramento. O objetivo era confirmar sua verdadeira identidade antes do cumprimento do mandado judicial. As diligências apontaram seu local de trabalho e sua residência. Foi então planejada a Operação Resgate, mobilizando policiais dos dois estados para garantir que a prisão ocorresse de forma segura e sem risco de nova fuga.

Os agentes seguiram inicialmente até o local onde ele trabalhava, mas descobriram que o condenado não estava presente. A equipe deslocou-se imediatamente para sua residência. No primeiro contato com os policiais, Aluísio ainda tentou sustentar a identidade falsa utilizada durante tantos anos. Apresentou outro nome e procurou convencer os investigadores de que não era a pessoa procurada. Entretanto, dessa vez, os policiais já possuíam um robusto conjunto de provas documentais reunidas ao longo da investigação. Diante das evidências, ele admitiu sua verdadeira identidade e recebeu voz de prisão, encerrando uma fuga iniciada ainda na década de 1980.

Conduzido à delegacia, Aluísio passou pelos procedimentos legais e foi encaminhado ao sistema prisional, onde cumprirá a pena definitiva de 21 anos de reclusão em regime fechado. Sua prisão representa mais do que o cumprimento de uma decisão judicial. Ela simboliza a evolução das técnicas de investigação criminal no Brasil e demonstra como a integração entre os órgãos de segurança pública transformou a capacidade do Estado de localizar foragidos, mesmo décadas após os fatos.

Embora as autoridades não tenham divulgado oficialmente todas as cidades por onde Aluísio passou durante os 42 anos em que permaneceu foragido, as investigações confirmam que Mato Grosso foi o estado onde conseguiu permanecer oculto por mais tempo. O caso também evidencia como criminosos conseguiram, durante muitos anos, aproveitar lacunas existentes nos sistemas de identificação civil e na ausência de comunicação entre os estados brasileiros. Hoje, porém, a realidade é outra. O cruzamento eletrônico de informações, a inteligência policial e a cooperação institucional permitem reabrir casos considerados praticamente insolúveis e levar à Justiça pessoas que acreditavam jamais serem encontradas.

Para as famílias das 19 vítimas da Tragédia do Baldo, a prisão não apaga a dor de uma madrugada que marcou para sempre a história do Rio Grande do Norte. Entretanto, representa o encerramento de um capítulo que permaneceu aberto por mais de quatro décadas e reforça um princípio que norteia a atuação das forças de segurança: o tempo pode retardar a Justiça, mas não é capaz de impedir que ela alcance aqueles que tentam escapar de suas responsabilidades.

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