Por Nayara Cristina
Grupo pretende criar padrões técnicos que permitam identificar quando reportagens são utilizadas e negociar remuneração com empresas de tecnologia
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) passou a integrar uma coalizão internacional criada para ampliar o controle dos veículos de comunicação sobre a utilização de conteúdo jornalístico por sistemas de inteligência artificial.
A entidade brasileira aderiu à Standards for Publisher Usage Rights, conhecida pela sigla SPUR. O grupo busca desenvolver regras técnicas e comerciais para que jornais, portais e outras empresas possam identificar como suas publicações são utilizadas por plataformas e modelos generativos.
A adesão foi anunciada no dia 13 de outubro, em Londres, junto com outras seis entidades das Américas: Sociedade Interamericana de Imprensa, Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas, Associação Colombiana de Meios de Informação, Associação Nacional da Imprensa do Chile, Alianza de Medios MX e Conselho da Imprensa Peruana.
A expansão acrescentou 44 integrantes à iniciativa. A SPUR passou a reunir mais de 80 membros distribuídos por mais de 20 países.
Entre os participantes estão The New York Times, Agence France-Presse, The Economist, The Atlantic e The Observer. A coalizão foi fundada por organizações como BBC, Financial Times, Guardian Media Group, Sky News, Telegraph Media Group e Associated Press.
A ANJ reúne mais de 100 empresas jornalísticas brasileiras. Segundo a entidade, a participação na coalizão pretende fortalecer a proteção dos direitos autorais e a capacidade de negociação dos veículos nacionais, inclusive publicações locais e regionais.
Rastreamento do conteúdo
Uma das principais iniciativas da SPUR é o Content Telemetry Standard, padrão técnico criado para registrar etapas da utilização de reportagens por sistemas de inteligência artificial.
A proposta é permitir que o titular dos direitos saiba quando determinado conteúdo foi localizado por uma ferramenta, incorporado ao contexto utilizado para produzir uma resposta, citado ao usuário, apresentado na tela e convertido em acesso ao site original.
Atualmente, os veículos conseguem identificar parte dos rastreadores automatizados que visitam suas páginas, mas não possuem visibilidade completa sobre o uso posterior das informações.
Uma reportagem pode servir de base para uma resposta de inteligência artificial sem gerar clique, referência clara ou remuneração ao produtor original. A telemetria tenta transformar esse uso invisível em um registro que possa ser auditado e utilizado em negociações comerciais.
O padrão também poderá ajudar empresas jornalísticas a reunir provas sobre utilizações não autorizadas de textos, fotografias e bancos de dados.
A iniciativa, entretanto, ainda não representa receita garantida. Sua efetividade depende da adesão das empresas de inteligência artificial e da existência de mecanismos independentes de verificação.
A SPUR esclarece que não funcionará como uma organização de licenciamento coletivo. Cada empresa jornalística continuará livre para negociar diretamente seus contratos com plataformas e desenvolvedores de IA.