JB News
por Nayara Cristina
BASTIDORES
O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, já não trata como certa a possibilidade de se afastar do comando do Palácio Alencastro para acompanhar de forma integral a campanha eleitoral de sua esposa, a deputada estadual Samantha Iris, nas eleições previstas para o fim de outubro. O que até a semana passada era tratado como um movimento praticamente definido passou a ser revisto diante do novo cenário político criado após a decisão da vice-prefeita Vânia Rosa de deixar o Partido Novo e se filiar ao MDB, legenda historicamente adversária do prefeito.
Abílio havia declarado publicamente que pretendia pedir afastamento do cargo para ajudar diretamente na articulação política e no fortalecimento da campanha de Samanta Iris, que se colocou como candidata à reeleição à Assembleia Legislativa nos últimos dias. No entanto, a movimentação de Vânia Rosa provocou uma fissura política dentro da gestão municipal e abriu um impasse institucional que levou o prefeito a colocar “o pé no freio” e reavaliar sua estratégia.
A filiação da vice-prefeita ao MDB, partido liderado em Cuiabá por figuras como o ex-prefeito Emanuel Pinheiro e o deputado federal Emanuelzinho Pinheiro — adversários diretos de Abílio nas últimas eleições — foi interpretada como um gesto de distanciamento político e de desalinhamento com o projeto que venceu as urnas em 2024. O prefeito já afirmou publicamente que não se identifica com a trajetória e as práticas do MDB, chegando a declarar que, se depender dele, o partido “nunca mais” comandará a Prefeitura de Cuiabá.
Apesar do desgaste evidente, Abílio evitou comentar diretamente a decisão de Vânia Rosa durante entrevista coletiva concedida nesta segunda-feira, durante a inauguração de um espaço infantil voltado ao atendimento de crianças com transtorno do espectro autista, na capital. Questionado sobre a mudança partidária da vice, o prefeito preferiu o silêncio, o que, nos bastidores, foi interpretado como um sinal claro de desconforto e de tentativa de evitar o acirramento público da crise.
O problema central, agora, está na sucessão administrativa em caso de afastamento do prefeito. Pela linha hierárquica, a Prefeitura de Cuiabá seria automaticamente assumida por Vânia Rosa, mesmo estando filiada a um partido de oposição ao chefe do Executivo. Esse cenário passou a ser visto com extrema cautela por Abílio, especialmente após as declarações duras que fez contra o MDB nos últimos dias.
Há ainda uma segunda variável que amplia a instabilidade: a possibilidade de a própria Vânia Rosa renunciar ao cargo de vice-prefeita para disputar uma vaga de deputada estadual, movimento que, nos bastidores, é apontado como um dos principais fatores que motivaram sua mudança para o MDB. Caso isso ocorra, a presidência do Executivo municipal passaria à presidente da Câmara Municipal, Paula Calil, irmã do deputado estadual Faisal Calil, que também articula uma candidatura nas eleições deste ano, seja para a reeleição ou para outro cargo eletivo.
Dessa forma, o desenho sucessório está claro, mas politicamente delicado. Se Abílio se afasta, assume a vice-prefeita. Se a vice renuncia, assume a presidente da Câmara. É justamente esse encadeamento que levou o prefeito a admitir, nos últimos dias, que fará uma nova avaliação antes de tomar qualquer decisão definitiva sobre deixar ou não o comando da Prefeitura.
O impasse escancara um momento de forte descompasso político dentro da administração municipal e coloca Abílio Brunini diante de uma escolha estratégica: manter-se no cargo para evitar que adversários políticos ocupem o Palácio Alencastro, ainda que temporariamente, ou cumprir o plano inicial de se afastar para dedicar-se à campanha de Samanta Iris, assumindo os riscos institucionais e políticos dessa decisão.
Nos bastidores, a avaliação é de que a filiação de Vânia Rosa ao MDB mudou completamente o tabuleiro e transformou uma decisão administrativa em um dilema político de grandes proporções. O prefeito, agora, sinaliza que só anunciará sua decisão final após uma análise mais profunda do novo cenário, deixando claro que o afastamento, antes dado como certo, passou a ser uma incógnita.
veja
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