Ressocialização vira estratégia do governo para enfraquecer facções em MT

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Ana Paula Figueiredo

Quase 28% dos presos trabalham por meio da Fundação Nova Chance; foco é reduzir reincidência e atingir o capital humano do crime organizado

Diante do crescimento da população carcerária e da expansão das facções criminosas, o Governo de Mato Grosso passou a apostar na ressocialização como estratégia complementar de segurança pública. A política é executada por meio da Fundação Nova Chance, que oferece trabalho e educação a pessoas privadas de liberdade, com o objetivo de reduzir a reincidência criminal e enfraquecer o capital humano das organizações criminosas.

Dados apresentados pelo secretário de Estado de Justiça, Vitor Hugo Bruzulato, indicam que quase 28% da população carcerária do Estado está atualmente inserida em atividades laborais, distribuídas em 36 frentes de trabalho nas 41 unidades prisionais de Mato Grosso.

Segundo o secretário, a lógica adotada vai além da repressão tradicional. “O enfraquecimento numérico das facções passa, necessariamente, pela retirada de pessoas do ciclo do crime. O trabalho e a educação ampliam as perspectivas do detento e reduzem a reincidência”, afirmou em entrevista ao Leiagora.

O cenário nacional reforça o desafio. Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de 900 mil pessoas presas, sendo que cerca de 40% ainda aguardam julgamento, conforme dados do Observatório Nacional de Direitos Humanos. O relatório também aponta que 75% das prisões provisórias atingem pessoas negras, evidenciando a seletividade do sistema penal.

Apesar do encarceramento em massa, facções ampliaram sua influência e diversificaram suas fontes de renda, atuando em extorsões, cobranças ilegais de serviços, lavagem de dinheiro e especulação imobiliária, o que tornou o tráfico de drogas apenas uma das atividades criminosas.

Um dos desafios do programa, segundo a Secretaria de Justiça, está nas atividades extra-muro. A maior parte das fugas registradas em 2025 ocorreu durante trabalhos externos, como obras públicas. Ainda assim, Bruzulato destaca que houve redução de 30% nas fugas em relação ao ano anterior.

Para mitigar riscos, a pasta estuda o reforço da vigilância com tornozeleiras eletrônicas, drones e novas tecnologias de monitoramento, a fim de preservar a segurança e garantir a continuidade do projeto.

“A proposta é oferecer uma alternativa real ao crime. Quando o preso enxerga uma possibilidade concreta de sustento após cumprir a pena, ele tende a respeitar o processo”, concluiu o secretário.