DIREITO SUCESSÓRIO

Projeto na Câmara quer impedir que condenados por matar familiares recebam herança de outros parentes

· 2 min de leitura
Projeto na Câmara quer impedir que condenados por matar familiares recebam herança de outros parentes

Por Marcos Padilha

Um projeto em tramitação na Câmara dos Deputados pretende endurecer as regras sucessórias no Brasil e fechar brechas legais que atualmente permitem que pessoas condenadas por homicídio contra familiares ainda possam ser beneficiadas com heranças provenientes de outros membros da mesma família.

A proposta, apresentada pela deputada federal Dayany Bittencourt, altera dispositivos do Código Civil para ampliar as hipóteses de exclusão de herdeiros considerados indignos. O objetivo é impedir que condenados por crimes dolosos contra parentes obtenham vantagens patrimoniais indiretas por meio de heranças deixadas por familiares colaterais, como irmãos, tios, sobrinhos e primos.

O texto ganhou repercussão nacional por fazer referência ao caso de Suzane von Richthofen, condenada pelo assassinato dos próprios pais em 2002. Embora tenha perdido o direito à herança dos pais em razão da condenação, a legislação atual não impede, em determinadas situações, que ela venha a receber bens provenientes de outros parentes da família.

Pela legislação em vigor, o chamado instituto da indignidade exclui da sucessão pessoas que cometeram crimes graves contra o autor da herança ou contra parentes próximos, como cônjuge, companheiro, pais e filhos. No entanto, segundo a justificativa da proposta, a regra não alcança parentes colaterais, criando uma lacuna jurídica que pode permitir benefícios patrimoniais a condenados por homicídio familiar.

De acordo com a autora do projeto, a mudança busca preservar os princípios éticos que fundamentam o direito sucessório brasileiro. A parlamentar argumenta que não é razoável permitir que alguém condenado por destruir uma estrutura familiar possa, futuramente, ser favorecido financeiramente por integrantes dessa mesma família.

A proposta amplia a aplicação da indignidade sucessória para alcançar parentes até o quarto grau de parentesco, abrangendo situações que atualmente não são contempladas pelo Código Civil. Na prática, a alteração impediria que condenados por homicídio contra familiares tivessem acesso ao patrimônio herdado de outros parentes ligados ao mesmo núcleo familiar.

Especialistas avaliam que a discussão envolve princípios jurídicos relacionados à moralidade, à proteção da família e à função social do direito sucessório. O tema também reacende o debate sobre a necessidade de atualização da legislação para acompanhar situações que ganharam relevância após casos de grande repercussão nacional.

O Projeto de Lei nº 23 de 2026 tramita em caráter conclusivo na Câmara dos Deputados. O texto deverá passar pela análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania antes de seguir para apreciação dos parlamentares. Caso seja aprovado pela Câmara e pelo Senado, o projeto poderá modificar significativamente as regras de sucessão hereditária no país.