ALVO NA TOMADA DE CONTAS

PF aponta 150 saques de R$ 15,6 milhões ligados a Sérgio Ricardo e suspeita de esquema para transformar recursos em dinheiro vivo

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PF aponta 150 saques de R$ 15,6 milhões ligados a Sérgio Ricardo e suspeita de esquema para transformar recursos em dinheiro vivo

DINHEIRO VIVO NO TCE-MT

JBNews

Por José Teixeira

A investigação da Polícia Federal que resultou na prisão preventiva do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo de Almeida, nesta quinta-feira (29), revelou uma sequência de movimentações financeiras milionárias que colocou o comando da Corte de Contas no centro de uma das mais graves investigações envolvendo a instituição. Conforme informações atribuídas à decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), os investigadores identificaram 150 saques em dinheiro vivo, que totalizaram R$ 15.645.500 em um período inferior a dez meses de 2025.

O volume de recursos movimentados, a frequência das operações e a forma como as retiradas foram realizadas despertaram a atenção dos investigadores, que passaram a examinar a possível existência de uma estrutura organizada para converter valores movimentados por contas bancárias em dinheiro em espécie. A suspeita é de que as operações financeiras possam estar relacionadas a irregularidades em contratos administrativos, pagamentos a servidores e movimentações de recursos vinculados ao TCE-MT.

Dos 150 saques identificados, 64 teriam sido realizados diretamente em caixas de atendimento bancário, somando aproximadamente R$ 15,47 milhões. Outras 86 retiradas ocorreram em terminais de autoatendimento. Isso significa que a maior parte do dinheiro movimentado foi retirada por meio de operações presenciais, envolvendo valores significativamente superiores aos normalmente utilizados em transações cotidianas.

A dimensão financeira das operações é um dos aspectos centrais da investigação. Considerando o montante total apontado, as retiradas representam uma média superior a R$ 1,56 milhão por mês, tomando como referência um intervalo de dez meses. O número, entretanto, não significa que os valores tenham sido distribuídos igualmente ao longo do período, uma vez que os investigadores identificaram oscilações e mudanças no comportamento das movimentações bancárias.

Outro elemento considerado relevante pela Polícia Federal foi a identificação de saques em valores próximos, mas inferiores a limites que exigem comunicação automática às autoridades de inteligência financeira. Os relatórios analisados levantaram a hipótese de que determinadas operações possam ter sido organizadas para reduzir a exposição das movimentações aos mecanismos de controle bancário.

Esse comportamento, conhecido no campo da investigação financeira como possível fracionamento de operações, pode ser utilizado para dificultar a identificação da movimentação de grandes quantias. A realização de saques em espécie, isoladamente, não constitui crime, mas a repetição das retiradas, associada à ausência de justificativas econômicas compatíveis e a outros indícios, pode fundamentar investigações sobre eventual ocultação da origem ou do destino dos recursos.

A investigação também identificou um episódio considerado importante para compreender o comportamento dos suspeitos diante do avanço das diligências policiais. Em 14 de outubro de 2025, agentes da Polícia Federal estiveram nas dependências do Tribunal de Contas para acompanhar movimentações financeiras consideradas relevantes para a apuração.

Durante a diligência, a presença dos policiais foi identificada pelo sistema de controle de acesso à instituição. Um dos agentes acabou abordado por integrantes da segurança do Tribunal. O episódio passou a integrar a análise dos investigadores, especialmente porque, posteriormente, foi observada uma alteração no comportamento das retiradas bancárias.

Segundo os elementos relatados na decisão, os saques de maior valor diminuíram temporariamente depois da identificação da presença policial. A mudança chamou a atenção da equipe responsável pelo acompanhamento financeiro, que passou a considerar a possibilidade de os investigados terem tomado conhecimento de alguma atividade de monitoramento.

A redução das retiradas não foi interpretada como encerramento definitivo das movimentações consideradas suspeitas. Conforme os dados apresentados, os investigadores identificaram posteriormente uma retomada das operações, incluindo novos registros de saques em maio de 2026.

A sequência temporal ganhou relevância para a análise judicial porque as movimentações não estariam restritas a acontecimentos antigos. A identificação de operações posteriores ao episódio de outubro de 2025 passou a integrar a avaliação sobre a possível continuidade das condutas investigadas.

Na decisão que autorizou a prisão preventiva, o ministro Og Fernandes teria considerado a suspeita de que Sérgio Ricardo ocupasse uma posição de comando em uma estrutura que reuniria operadores financeiros responsáveis por movimentar e retirar recursos em espécie.

A hipótese investigativa é de que a transformação de valores bancários em dinheiro vivo poderia facilitar operações financeiras de difícil rastreamento, sobretudo quando os recursos passam a circular fora dos mecanismos convencionais de transferência eletrônica e identificação dos destinatários.

Um dos pontos que a Polícia Federal procura esclarecer é o destino efetivo dos R$ 15,6 milhões identificados nas movimentações. O fato de uma quantia ter sido retirada de contas bancárias não demonstra, por si só, que houve apropriação indevida ou que o dinheiro tenha sido entregue a terceiros. Para estabelecer eventual responsabilidade criminal, será necessário demonstrar a origem dos valores, quem autorizou ou executou as operações, quem recebeu os recursos e sua possível vinculação aos crimes investigados.

A apuração financeira se conecta a outra frente da Operação Tomada de Contas: as suspeitas de irregularidades na gestão de contratos administrativos. Segundo a Polícia Federal, há indícios de que a suspensão de contratos tenha sido utilizada como instrumento de pressão sobre fornecedores, ao mesmo tempo em que determinadas empresas poderiam ter recebido tratamento diferenciado na liberação de pagamentos públicos.

Os investigadores também identificaram divergências em pagamentos realizados a empresas e movimentações bancárias consideradas atípicas envolvendo servidores públicos. A análise busca determinar se houve articulação entre decisões administrativas, liberação de recursos e retirada de valores em espécie, bem como identificar a participação individual de cada investigado.

A Operação Tomada de Contas foi deflagrada na manhã desta quinta-feira (29), com o cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Mais de 180 policiais federais foram mobilizados para executar as medidas autorizadas pelo Superior Tribunal de Justiça.

Além das prisões, a investigação resultou em determinações de afastamento de sigilos e sequestro de bens, medidas destinadas à obtenção de provas e à preservação de patrimônio eventualmente relacionado aos fatos investigados.

Sérgio Ricardo, que ocupa a presidência da instituição responsável pela fiscalização da aplicação de recursos públicos estaduais e municipais, foi um dos principais alvos da operação. Sua prisão ampliou a repercussão institucional do caso, especialmente porque o Tribunal de Contas exerce atribuições de fiscalização de contratos, despesas governamentais e atos de gestão administrativa.

O caso também envolve outros servidores e pessoas ligadas à estrutura administrativa da Corte. A Polícia Federal procura estabelecer se as suspeitas correspondem a iniciativas individuais ou a uma atuação coordenada, com divisão de funções entre agentes públicos e operadores financeiros.

A investigação pode resultar na apuração de crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A configuração dessas infrações dependerá da comprovação dos fatos, da identificação da origem e do destino dos recursos e da demonstração de eventual participação consciente dos investigados.

A prisão preventiva tem natureza cautelar e não representa condenação. Os elementos financeiros identificados deverão ser submetidos à análise no decorrer da investigação e do processo judicial, com garantia do contraditório e do direito de defesa.

A defesa de Sérgio Ricardo informou, após a operação, que ainda não havia tido acesso ao conteúdo do inquérito, que tramita sob sigilo, e orientou o conselheiro a permanecer em silêncio.

O esclarecimento do destino dos R$ 15,6 milhões, da finalidade das retiradas e da eventual ligação entre os saques e os contratos administrativos permanece como uma das questões centrais da investigação. A Polícia Federal deverá confrontar registros bancários, documentos apreendidos, informações financeiras e outros elementos de prova para determinar se houve utilização irregular de recursos e quem seriam os beneficiários das operações.