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Por Nayara Cristina
Exames da Politec confirmaram ausência de cocaína e outras substâncias entorpecentes nas amostras analisadas. Familiares afirmam que o material era composto por sabão caseiro, sal e açúcar.
A Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec) descartou definitivamente a suspeita de que o material esbranquiçado encontrado em uma carreta envolvida em um acidente com duas mortes na BR-163, em Guarantã do Norte, fosse cocaína ou outra substância entorpecente identificável pelos métodos utilizados. O resultado consta de um laudo concluído em 16 de outubro de 2026, mais de um mês depois da tragédia que matou Erasmo Eros Mosena, de 59 anos, e Rodrigo Rodrigues de Jesus, de 40 anos, ambos moradores de Sorriso. A conclusão encerra uma suspeita que ganhou repercussão após o acidente e provocou questionamentos sobre o conteúdo encontrado no veículo.
O acidente ocorreu em 6 de setembro, na região da Serra do Cachimbo, no km 1.102 da BR-163, trecho localizado no município de Guarantã do Norte, no extremo norte de Mato Grosso. Na ocasião, a carreta Scania R124, que transportava um caminhão munck Ford Cargo 4432, perdeu a estabilidade durante a passagem por uma curva e tombou na rodovia, provocando a morte dos dois ocupantes.
Erasmo Eros Mosena conduzia a carreta, enquanto Rodrigo Rodrigues de Jesus era o responsável pelo caminhão munck transportado sobre o veículo de carga. Ambos morreram em decorrência da gravidade do acidente, antes que pudessem receber atendimento médico.
Durante os trabalhos de atendimento à ocorrência, equipes da concessionária Via Brasil, responsável pela administração daquele trecho da rodovia, encontraram materiais esbranquiçados no interior do veículo. As características físicas das substâncias levantaram suspeitas iniciais de que poderiam se tratar de cocaína e pasta base de cocaína.
Foram localizados um tablete de aproximadamente 180 gramas, com aparência semelhante à pasta base, e dois frascos de vidro contendo cerca de 230 gramas de um material em pó. No total, aproximadamente 410 gramas de substâncias inicialmente consideradas suspeitas foram recolhidas e encaminhadas para os procedimentos policiais e periciais.
A descoberta passou a integrar o registro da ocorrência e ganhou repercussão na imprensa regional. Entretanto, naquele momento, não havia qualquer confirmação laboratorial de que os materiais fossem drogas. A suspeita decorria exclusivamente das características visuais dos produtos encontrados.
A Polícia Civil também esclareceu que não era possível atribuir a posse dos materiais a qualquer um dos ocupantes do veículo. Essa ressalva era especialmente importante porque Erasmo e Rodrigo morreram no acidente e não tiveram oportunidade de esclarecer pessoalmente a origem e a finalidade dos objetos encontrados.
A primeira análise foi realizada em 17 de setembro, na unidade da Politec de Guarantã do Norte. O exame ficou sob responsabilidade do perito criminal César Santana da Silva, que submeteu as três amostras aos procedimentos preliminares de identificação de substâncias entorpecentes.
O resultado foi negativo para cocaína em todas as porções analisadas, afastando a suspeita inicialmente levantada sobre o material apreendido.
Apesar da primeira conclusão, a investigação solicitou exames complementares para esclarecer a natureza dos produtos. As amostras foram encaminhadas ao Laboratório Forense da Politec, em Cuiabá, onde passaram por novos procedimentos técnicos destinados à pesquisa de substâncias controladas.
O laudo definitivo foi concluído em 16 de outubro e assinado pelo perito criminal Josué Gomes Vieira Filho. O documento confirmou que nenhuma das três amostras apresentou resultado positivo para cocaína.
A análise também não identificou, dentro dos limites de detecção e dos métodos empregados, outras substâncias catalogadas capazes de provocar dependência ou alterações do comportamento.
O exame definitivo, portanto, reforçou a conclusão da primeira perícia e afastou a hipótese de que o material recolhido correspondesse à cocaína ou a outros entorpecentes pesquisados.
Existe, contudo, uma distinção técnica importante: os exames foram direcionados à identificação de drogas e não estabeleceram a composição química exata dos produtos. Por isso, o documento permite afirmar que as substâncias pesquisadas não foram detectadas, mas não identifica definitivamente quais eram os materiais encontrados na carreta.
A família das vítimas sustenta que os produtos transportados eram itens de uso cotidiano, levados durante a viagem. Segundo os familiares, tratava-se de sal, açúcar e sabão caseiro, materiais que, dependendo de sua apresentação, poderiam ser confundidos visualmente com outras substâncias.
Essa explicação foi apresentada pelos parentes após a repercussão da ocorrência e ganhou relevância diante dos resultados negativos dos exames periciais. A versão familiar, entretanto, não equivale a uma identificação laboratorial da composição dos produtos, já que o laudo não realizou essa classificação definitiva.
A divulgação da suspeita inicial provocou indignação entre familiares, especialmente porque os dois homens haviam perdido a vida no acidente e não tinham condições de se defender de possíveis associações com o tráfico de drogas.
Em 21 de outubro, o Portal Paranatinga publicou uma nota de esclarecimento e retratação a pedido da família de Erasmo Eros Mosena, representada por Gabrieli Mosena. O comunicado fez referência a uma reportagem divulgada em 8 de setembro, quando ainda não havia conclusão pericial sobre a natureza dos materiais.
A manifestação ressaltou que a existência de produtos com aparência semelhante à de drogas não autorizava afirmar que os ocupantes estivessem envolvidos em qualquer atividade criminosa.
A família também destacou a informação prestada pela Polícia Civil de que não havia elementos para atribuir a posse do material a Erasmo ou Rodrigo. O esclarecimento buscou afastar interpretações que pudessem comprometer a imagem dos dois trabalhadores e ampliar o sofrimento dos parentes.
A conclusão definitiva da Politec fortalece esse esclarecimento, ao demonstrar que a suspeita de presença de cocaína não encontrou respaldo nos exames laboratoriais.
Além da controvérsia sobre o material recolhido, a Polícia Civil de Guarantã do Norte continua responsável pela investigação das circunstâncias do acidente.
Conforme os primeiros levantamentos, a carreta Scania R124 transportava o caminhão munck Ford Cargo 4432 quando perdeu a estabilidade em uma curva da BR-163. O tombamento deixou parte da estrutura do veículo de carga sobre a pista, criando uma situação de risco para os demais motoristas.
Um Renault Sandero que trafegava pela rodovia também se envolveu na ocorrência. Segundo informações divulgadas após o acidente, o motorista tentou realizar uma manobra para evitar a colisão ao se deparar com o caminhão tombado, mas perdeu o controle da direção e atingiu a defensa metálica da rodovia.
O condutor do automóvel foi socorrido e encaminhado a uma unidade hospitalar antes da chegada das equipes do Corpo de Bombeiros. Não foram divulgadas informações atualizadas sobre o estado de saúde dele.
Os corpos de Erasmo e Rodrigo foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML), onde passaram pelos procedimentos de necropsia. Posteriormente, as vítimas foram veladas e sepultadas em Sorriso, município onde residiam.
O inquérito sobre o acidente deverá considerar os levantamentos realizados no local, as condições da rodovia, os vestígios encontrados e os demais elementos necessários para esclarecer a dinâmica do tombamento.
A confirmação de que os materiais examinados não continham as drogas pesquisadas também representa um desdobramento importante para a apuração. A investigação sobre as causas do acidente permanece distinta da suspeita inicial sobre as substâncias encontradas.
Não há, nas informações divulgadas, conclusão de que o material tenha provocado ou contribuído para o tombamento da carreta. Tampouco foi demonstrado qualquer vínculo das vítimas com o tráfico de entorpecentes em razão desses objetos.
O caso evidencia a importância dos exames científicos na confirmação ou no afastamento de suspeitas surgidas durante ocorrências policiais. Características como cor, textura e apresentação de determinado produto podem justificar sua apreensão para análise, mas não são suficientes para estabelecer, de maneira conclusiva, que se trata de droga.
Entre o acidente de 6 de setembro e a emissão do laudo definitivo, em 16 de outubro, transcorreram 40 dias. Nesse período, a dúvida sobre os materiais encontrados permaneceu presente na repercussão da tragédia, apesar de o primeiro exame, realizado em 17 de setembro, já ter apresentado resultado negativo para cocaína.
Com a conclusão da segunda análise, a Politec confirmou a ausência das substâncias entorpecentes pesquisadas e forneceu uma resposta técnica para uma das principais dúvidas levantadas depois do acidente.
Para os familiares de Erasmo Eros Mosena e Rodrigo Rodrigues de Jesus, a conclusão também representa um esclarecimento importante diante das suspeitas divulgadas após a morte dos dois homens.
A investigação sobre as circunstâncias do tombamento prossegue na Polícia Civil de Guarantã do Norte. Quanto ao material encontrado na carreta, os dois exames realizados pela Politec não identificaram cocaína, e o laudo definitivo tampouco detectou outras substâncias catalogadas pesquisadas pelos métodos empregados.