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Por Emerson Teixeira
A Justiça de Mato Grosso decidiu levar a júri popular o casal de empresários Julinere Goulart Bentos e Cesar Jorge Sechi, além dos policiais militares Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira, acusados de participação no assassinato do advogado Renato Nery, crime que abalou o meio jurídico e político de Mato Grosso e ganhou repercussão nacional pela complexidade da investigação e pelo envolvimento de agentes públicos.
A decisão foi assinada nesta quarta-feira pelo juiz João Bosco Soares da Silva, da 14ª Vara Criminal de Cuiabá, que acolheu integralmente a denúncia apresentada pelo Ministério Público Estadual. Com isso, os acusados passam a responder perante o Tribunal do Júri por homicídio qualificado e participação em organização criminosa. A data do julgamento ainda será definida pela Justiça.
Segundo a acusação, o assassinato teria sido executado dentro de uma estrutura criminosa organizada, com divisão de funções entre supostos mandantes, intermediários e executores. O Ministério Público sustenta que o crime foi planejado de forma minuciosa e teria sido motivado por interesses considerados torpes pela investigação. A denúncia aponta ainda que os envolvidos agiram mediante pagamento, utilizando recursos que dificultaram qualquer possibilidade de defesa da vítima.
Renato Nery tinha 72 anos quando foi morto em julho de 2024, em Cuiabá. Reconhecido no meio jurídico mato-grossense, o advogado acumulava décadas de atuação profissional e era conhecido por sua participação em causas de grande repercussão no estado. A morte dele provocou forte reação da advocacia, de entidades de classe e de setores políticos, que cobraram rigor absoluto na apuração do caso.
Agora, quase dois anos após o assassinato, os acusados finalmente deverão enfrentar julgamento perante o Tribunal do Júri. O tempo transcorrido entre a execução e a decisão de pronúncia reflete a dimensão e a complexidade da investigação, que envolveu perícias técnicas, cruzamento de dados telefônicos, depoimentos, análises financeiras e a apuração da suposta atuação de uma organização criminosa estruturada para planejar e executar o homicídio.
As investigações apontaram que o crime não teria ocorrido de forma isolada ou impulsiva. Conforme os autos, a execução teria sido antecedida por monitoramento da rotina da vítima, articulação logística e atuação coordenada entre os envolvidos. A Polícia Civil e o Ministério Público passaram meses reunindo provas, depoimentos, cruzamentos telefônicos e elementos periciais para sustentar a tese de que o homicídio foi arquitetado por uma organização criminosa estruturada.
Durante a fase de instrução processual, as defesas dos acusados tentaram afastar a competência do Tribunal do Júri e questionaram diversos pontos da investigação, incluindo a legalidade de provas e a consistência dos indícios apresentados pela acusação. No entanto, o magistrado entendeu que existem elementos suficientes para que o caso seja submetido ao julgamento popular.
Na decisão, a Justiça manteve todas as qualificadoras apresentadas pelo Ministério Público, incluindo motivo torpe, homicídio mediante paga, utilização de meio que resultou perigo comum e recurso que dificultou a defesa da vítima. Também foi mantida a causa de aumento de pena relacionada à idade avançada de Renato Nery, além da acusação de participação em organização criminosa.
Caso sejam condenados pelo Conselho de Sentença, os réus poderão enfrentar penas elevadas previstas no Código Penal Brasileiro. O homicídio qualificado prevê pena que varia de 12 a 30 anos de prisão. Entretanto, diante das qualificadoras apontadas pelo Ministério Público e da acusação paralela de organização criminosa, as punições podem ser ampliadas de forma significativa. Dependendo do entendimento dos jurados e da sentença aplicada ao final do julgamento, as condenações podem ultrapassar várias décadas de prisão, sobretudo se a Justiça reconhecer participação direta no planejamento, financiamento e execução do assassinato.
O caso passou a ser tratado como um dos crimes mais emblemáticos da história recente de Mato Grosso justamente pela combinação entre execução planejada, possível atuação de agentes de segurança pública e suspeita de participação de empresários. Desde o início da investigação, autoridades classificaram o assassinato como uma ação sofisticada, cercada de interesses e marcada por forte repercussão institucional.
Com a decisão de pronúncia, o processo entra agora em uma nova etapa, em que os quatro acusados serão julgados por um conselho de sentença formado por jurados populares. Até lá, o caso continuará cercado por expectativa e tensão nos bastidores do sistema de Justiça de Mato Grosso.