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Da Redação
A inauguração da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher e Vulneráveis com funcionamento 24 horas em Várzea Grande ocorreu em um dos momentos mais delicados da segurança pública de Mato Grosso no enfrentamento à violência contra mulheres. O novo modelo de atendimento permanente surge em meio ao crescimento dos índices de feminicídio registrados no estado nos últimos anos e foi tratado pelas autoridades como uma resposta urgente diante do agravamento da violência doméstica, principalmente nas regiões periféricas e de maior vulnerabilidade social.
Dados das forças de segurança apontam que Mato Grosso permanece entre os estados brasileiros com maiores taxas proporcionais de feminicídio do país. Somente nos últimos dois anos, dezenas de mulheres foram assassinadas em contexto de violência doméstica, muitas delas dentro da própria residência e na presença de familiares. Levantamentos divulgados por órgãos estaduais indicam que os crimes seguem concentrados em cidades de médio porte e regiões metropolitanas, atingindo principalmente mulheres de baixa renda, com menor escolaridade e histórico de dependência econômica dos companheiros.
Nos últimos seis meses, o estado voltou a registrar uma sequência de assassinatos de mulheres que reacendeu o debate sobre falhas na rede de proteção. Grande parte das vítimas tinha idade entre 20 e 45 anos, vivia em bairros periféricos e já havia sofrido algum tipo de ameaça, agressão física ou violência psicológica antes do desfecho fatal. Em muitos casos, os autores dos crimes eram companheiros ou ex-companheiros com histórico de comportamento agressivo, baixa escolaridade e vínculos marcados por desemprego, alcoolismo, uso de drogas ou instabilidade financeira.
Especialistas em segurança pública e assistência social apontam que o feminicídio está diretamente ligado às desigualdades sociais e ao ciclo estrutural da pobreza. Estudos nacionais mostram que mulheres economicamente dependentes possuem maior dificuldade para romper relações abusivas, denunciar agressores ou deixar ambientes violentos. A vulnerabilidade aumenta em regiões onde há ausência de políticas públicas, precariedade habitacional, baixa renda familiar e dificuldade de acesso à rede de proteção estatal.
Foi nesse cenário que o Governo de Mato Grosso inaugurou a nova estrutura da Delegacia da Mulher em Várzea Grande, com atendimento ininterrupto durante madrugadas, finais de semana e feriados — justamente os períodos considerados mais críticos para ocorrências de violência doméstica. Durante a solenidade, a desembargadora Maria Erotides Kneip afirmou que o funcionamento 24 horas da unidade representa uma ferramenta essencial para impedir mortes.

“Delegacia 24 horas significa garantia de vidas”, declarou a magistrada ao defender a ampliação das estruturas especializadas no estado. Segundo ela, boa parte dos crimes contra mulheres acontece à noite ou em momentos em que as vítimas encontram dificuldade para buscar socorro imediato. Para a desembargadora, sem acolhimento rápido, profissionais capacitados e integração entre os órgãos públicos, o combate ao feminicídio se torna insuficiente.
A magistrada também destacou que Mato Grosso ampliou nos últimos anos a formação das redes de enfrentamento à violência doméstica, reunindo Judiciário, Ministério Público, Polícia Civil, assistência social, saúde pública e prefeituras municipais. A estratégia busca fortalecer o acolhimento humanizado e reduzir a subnotificação de casos de agressão.
O governador Otaviano Pivetta classificou o feminicídio como uma das formas mais cruéis de criminalidade e afirmou que o Estado precisa agir de forma mais rígida contra os agressores. Já a prefeita Flávia Moretti declarou que a implantação da delegacia representa uma mudança histórica para o município e reforça o compromisso das instituições no enfrentamento à violência contra mulheres, crianças e idosos.
A nova unidade passa a funcionar em sede ampliada na Avenida Senador Filinto Müller, na região central de Várzea Grande, com equipes compostas por delegados, escrivães e investigadores treinados para atendimento especializado. A delegada Paula Gomes Araújo afirmou que o acolhimento não pode ter horário limitado e destacou que muitas vítimas procuram ajuda justamente durante a madrugada, quando os episódios de violência costumam atingir maior gravidade.
A inauguração da delegacia acontece em um momento simbólico e dramático para Mato Grosso, onde os recentes casos de feminicídio voltaram a provocar comoção social e pressão por respostas mais rápidas do poder público. Para especialistas, além do fortalecimento das forças de segurança, o combate à violência doméstica também passa pela redução das desigualdades sociais, ampliação do acesso à educação, independência financeira das mulheres e fortalecimento das políticas de assistência nas comunidades mais vulneráveis do estado.