EMENDA OCULTA

Saques de R$ 720 mil, R$ 7,7 milhões em repasses e dinheiro vivo expõem suspeita de esquema com emendas em Mato Grosso

· 2 min de leitura
Saques de R$ 720 mil, R$ 7,7 milhões em repasses e dinheiro vivo expõem suspeita de esquema com emendas em Mato Grosso

JB News

Por Emerson Teixeira


A Operação Emenda Oculta abriu uma nova frente de desgaste político em Mato Grosso ao colocar no centro das investigações o deputado estadual Elizeu Nascimento (Novo) e o irmão dele, o vereador por Cuiabá Cezinha Nascimento (União Brasil). Deflagrada pelo Núcleo de Ações de Competência Originária (Naco), do Ministério Público Estadual, a ação apura um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Social Mato-Grossense (ISMAT) e ao Instituto Brasil Central (IBRACE).  


Embora o caso tramite sob sigilo, documentos e informações já revelados pela imprensa local apontam que Elizeu teria destinado mais de R$ 7,7 milhões em emendas ao ISMAT, entidade que, segundo a investigação, estaria no centro de uma engrenagem montada para movimentar recursos públicos e devolver parte dos valores a agentes políticos. A suspeita é de que Elizeu e Cezinha tenham recebido ao menos R$ 720 mil dentro do esquema.  


O ponto de partida da investigação teria sido relatórios do Coaf, que identificaram saques em espécie feitos pela empresa Sem Limite Esporte e Eventos Ltda. e pelo empresário João Nery Chiroli. Segundo o RDNews, foram três retiradas que chamaram a atenção dos investigadores: R$ 250 mil em 16 de dezembro, R$ 350 mil em 23 de dezembro e R$ 120 mil em 21 de janeiro, totalizando R$ 720 mil.  


A apuração aponta que, no primeiro saque, João Nery teria chegado ao banco com uma mochila, retirado o dinheiro e, em seguida, entrado em um veículo atribuído, em tese, a Elizeu Nascimento. Em outro episódio, após novo saque, o empresário teria se deslocado até o Condomínio Florais Itália, onde, conforme os investigadores, teria ocorrido um encontro com Cezinha Nascimento.  


Na prática, a suspeita do Naco é que as emendas eram direcionadas aos institutos investigados e, depois, parte dos recursos retornava por meio da empresa Sem Limite Esporte e Evento Ltda., ligada a João Nery Chiroli. A mesma empresa já havia aparecido na Operação Gorjeta, deflagrada em janeiro pela Polícia Civil, que investigou possível desvio de cerca de R$ 3 milhões em emendas na Câmara de Cuiabá e na Secretaria Municipal de Esportes.  


Além de Elizeu e Cezinha, também foram alvos da operação João Nery Chiroli, João Batista de Almeida e Silva, assessor parlamentar de Elizeu, Samara Regina Lucas Barbosa, presidente do ISMAT, e Jony Silva, presidente do IBRACE. Todos foram alvos de mandados de busca e apreensão domiciliar, pessoal e veicular.  


Durante as buscas, o Naco apreendeu R$ 200 mil em espécie nas residências dos parlamentares: R$ 150 mil na casa de Elizeu e R$ 50 mil na residência de Cezinha. Também foram recolhidos celulares, notebooks e documentos que devem ser analisados para aprofundar o rastreamento da movimentação financeira e das possíveis ligações entre os institutos, a empresa e os agentes políticos.  


A investigação, segundo os elementos já divulgados, trabalha com a hipótese de um mecanismo de ocultação do caminho do dinheiro público: primeiro, as emendas eram destinadas às entidades; depois, valores eram repassados a uma empresa contratada; por fim, parte do montante seria sacada em espécie, o que dificultaria o rastreamento bancário e permitiria a devolução clandestina a beneficiários do esquema.


A defesa de Elizeu afirmou que ainda não teve acesso aos autos por causa do sigilo, que o deputado colaborou com as diligências e que aguarda o andamento da investigação para uma manifestação mais aprofundada. A defesa também disse que ele reafirma compromisso com a legalidade, transparência e respeito aos trâmites institucionais. A defesa de Cezinha foi procurada por veículos locais, mas não havia se manifestado até a publicação das reportagens consultadas.