Operação hidra expõe suspeita de infiltração criminosa em órgão estratégico do estado e acende alerta sobre fraude em identidades em mt
JB News
Por Emerson Teixeira
A segunda fase da Operação Hidra, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso na manhã desta quarta-feira (6), colocou no centro das investigações um servidor que atuava há mais de duas décadas em uma das áreas mais sensíveis da estrutura de identificação criminal do Estado. O alvo da ação foi o papiloscopista Wilton Souza de Arruda, servidor da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), suspeito de envolvimento em um esquema de emissão fraudulenta de documentos de identidade utilizados por integrantes de facções criminosas.
A ofensiva policial aprofunda uma investigação que já vinha causando preocupação nos bastidores da segurança pública mato-grossense após a descoberta de que criminosos estavam vivendo há anos sob identidades falsas no Estado. O caso ganhou repercussão nacional quando a Polícia identificou que Ricardo Batista Ambrózio, apontado como integrante de organização criminosa e foragido da Justiça há cerca de 12 anos, circulava livremente utilizando documentação adulterada juntamente com a companheira e os dois filhos adolescentes.
Segundo as investigações, o esquema teria permitido a emissão irregular de segundas vias de documentos civis, mecanismo considerado extremamente perigoso pelas forças de segurança por abrir caminho para ocultação de identidade, lavagem de dinheiro, movimentação financeira clandestina e até facilitação logística para facções criminosas.
As ordens judiciais foram cumpridas simultaneamente na residência do servidor, em Várzea Grande, e também dentro do Instituto Médico Legal (IML), em Cuiabá, onde ele exercia funções ligadas à identificação humana e emissão documental. Wilton atuava como papiloscopista desde 2001 e ocupava, até pouco tempo, cargo de gerência na Diretoria Metropolitana de Medicina Legal da Politec.
Durante as buscas, os investigadores encontraram uma grande quantidade de medicamentos de origem irregular, incluindo canetas emagrecedoras contrabandeadas, anabolizantes, seringas, agulhas e produtos derivados de tabaco sem autorização legal. Entre os materiais apreendidos estavam medicamentos utilizados para controle glicêmico e emagrecimento que se popularizaram no mercado clandestino nos últimos meses, especialmente devido à alta procura estética no Brasil.

Diante do flagrante, o servidor foi conduzido à Delegacia Especializada de Estelionato de Cuiabá e, posteriormente, encaminhado à Polícia Federal, que deverá aprofundar a apuração sobre possível entrada ilegal de medicamentos no país e eventuais conexões interestaduais do esquema.
O delegado Gustavo Godoy afirmou que a investigação ainda está em fase inicial no que diz respeito à extensão da fraude documental, mas confirmou que equipamentos eletrônicos apreendidos — entre eles notebooks, celulares e tablets — passarão por perícia detalhada para identificar se outras identidades falsas foram produzidas dentro da estrutura pública.
A suspeita de utilização de um órgão técnico do Estado para favorecer integrantes do crime organizado provocou forte reação nos bastidores da segurança pública. Especialistas ouvidos por investigadores apontam que fraudes em documentos oficiais estão entre os mecanismos mais utilizados por facções para infiltração econômica, abertura de empresas de fachada, aquisição de patrimônio e fuga de operações policiais.
Internamente, a Politec informou que instaurou Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o servidor investigado. O procedimento poderá resultar na demissão definitiva do quadro efetivo do Estado, dependendo do avanço das investigações criminais e da análise das provas recolhidas durante a operação.
A Operação Hidra recebeu esse nome em referência à criatura mitológica de múltiplas cabeças, numa analogia ao modelo ramificado das fraudes investigadas pela Polícia Civil. A avaliação das autoridades é de que o esquema pode ter conexões mais amplas e envolver outras pessoas ligadas à cadeia de emissão documental.
Nos bastidores das forças de segurança, o caso é tratado como extremamente delicado por atingir um setor considerado estratégico para o controle de identidade civil e criminal no Estado. A investigação agora tenta responder quantos documentos podem ter sido emitidos de forma irregular e se integrantes de facções utilizaram a estrutura pública para desaparecer oficialmente dos radares das autoridades brasileiras.