CAMPO DE BATALHA ELEITORAL

“No ar-condicionado e no céu de brigadeiro é fácil julgar”, diz Gilberto ao acusar CPI da Saúde de virar palanque eleitoral

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“No ar-condicionado e no céu de brigadeiro é fácil julgar”, diz Gilberto ao acusar CPI da Saúde de virar palanque eleitoral

JB News

por Nayara Cristina e Guilherme Augusto

O ex-secretário de Estado de Saúde de Mato Grosso, Gilberto Figueiredo, reagiu com dureza ao avanço da CPI da Saúde na Assembleia Legislativa e classificou a investigação como uma tentativa de transformar decisões tomadas durante a pandemia da covid-19 em munição política e eleitoral. As declarações foram feitas na noite desta segunda-feira (15), durante entrevista concedida à imprensa na inauguração da nova sede do partido Republicanos, em Cuiabá, evento que reuniu lideranças políticas, parlamentares e pré-candidatos que já se movimentam de olho nas eleições de 2026.


Filiado ao Podemos e colocado no tabuleiro político para as eleições de 2026, Gilberto afirmou que está à disposição da Assembleia para prestar esclarecimentos, mas criticou o momento e o tom da comissão. Para ele, parlamentares tentam analisar, em um cenário de normalidade, decisões que foram tomadas “no olho do furacão”, quando o sistema de saúde enfrentava pressão máxima e cada minuto poderia representar a diferença entre salvar ou perder vidas.


A CPI da Saúde foi criada para investigar contratos firmados pela Secretaria de Estado de Saúde entre 2019 e 2023, período que inclui a fase mais crítica da pandemia. O foco da comissão envolve atos administrativos, pagamentos, contratações emergenciais e procedimentos adotados pela pasta durante a gestão da crise sanitária.


Gilberto, que comandou a SES durante o período investigado, sustenta que as ações adotadas seguiram a legislação federal e estadual vigente à época. Segundo ele, as decisões foram tomadas em meio à urgência provocada pela pandemia, quando gestores públicos precisavam agir rapidamente para ampliar leitos, garantir atendimento, contratar serviços e evitar o colapso da rede pública.


Em sua manifestação, Gilberto também questionou o momento escolhido para a análise dos atos praticados durante a pandemia. Segundo ele, existe uma diferença significativa entre avaliar decisões tomadas em meio a uma emergência sanitária sem precedentes e julgá-las anos depois, quando o cenário é completamente diferente. O ex-secretário afirmou que muitos dos atos hoje colocados sob investigação foram adotados em um contexto de extrema pressão, com hospitais lotados, escassez de insumos e necessidade de respostas imediatas por parte dos gestores públicos.


Para reforçar seu posicionamento, Gilberto afirmou que é fácil analisar o passado quando a crise já passou. “Depois de três anos da pandemia, no céu de brigadeiro, no ar-condicionado, querer analisar decisões tomadas no olho do furacão é muito fácil”, declarou. Na avaliação dele, as circunstâncias enfrentadas pelos gestores naquele período precisam ser consideradas para que as conclusões da comissão não sejam distorcidas pela realidade atual.


O ex-secretário também voltou a insinuar que a CPI possui componentes que extrapolam a simples fiscalização administrativa. Segundo ele, a investigação acaba servindo como espaço de projeção política em um momento em que diversos agentes públicos já se movimentam visando as eleições de 2026. Embora tenha afirmado respeitar o papel fiscalizador da Assembleia Legislativa, Gilberto avaliou que parte do debate em torno da comissão está contaminada pelo ambiente pré-eleitoral.


O ex-secretário também afirmou que não se arrepende das medidas adotadas e disse ter dedicado sua vida à missão de salvar o maior número possível de pessoas. A fala ocorre em meio à convocação aprovada pela CPI para que ele preste depoimento aos deputados estaduais.


Em tom político, Gilberto apontou que a CPI também carrega componente eleitoral. Ele afirmou que a comissão acaba servindo como palanque, especialmente porque há integrantes com pretensões eleitorais. Sem citar diretamente nomes, destacou que, a partir do momento em que passou a ser mencionado como possível pré-candidato, sua atuação à frente da Saúde passou a receber atenção ainda maior.


A declaração aumenta a temperatura política dentro da Assembleia Legislativa. De um lado, os membros da CPI defendem que a comissão tem papel fiscalizador e deve apurar com profundidade contratos e decisões tomadas na Saúde. De outro, Gilberto sustenta que a investigação tenta julgar, anos depois, escolhas feitas em um dos momentos mais dramáticos da história recente de Mato Grosso.


A pandemia exigiu medidas excepcionais dos governos estaduais em todo o país. Em Mato Grosso, a Secretaria de Saúde precisou lidar com alta demanda por internações, escassez de insumos, pressão por leitos de UTI, contratação de serviços e necessidade de respostas rápidas diante do avanço da covid-19.


Para Gilberto, esse contexto não pode ser ignorado pela CPI. Ele argumenta que analisar o período sem considerar o ambiente de emergência sanitária é reduzir uma gestão de crise a uma disputa política. Ainda assim, o ex-secretário afirmou que comparecerá sempre que for chamado e que pretende defender sua atuação com documentos, dados e explicações.


A CPI da Saúde entra agora em uma fase considerada decisiva, com depoimentos de ex-gestores, servidores, procuradores e autoridades que participaram direta ou indiretamente das decisões tomadas no período investigado. O depoimento de Gilberto Figueiredo deve ser um dos momentos mais aguardados da comissão, tanto pelo peso administrativo da função que ocupou quanto pelo impacto político de suas declarações.


Nos bastidores, a investigação já é vista como um dos principais embates da pré-campanha de 2026. A Saúde, área historicamente sensível para a população, volta ao centro do debate público em Mato Grosso, agora misturando fiscalização, pandemia, contratos públicos e disputa eleitoral.


Gilberto tenta se posicionar como gestor que enfrentou a maior crise sanitária da geração. Já a CPI busca mostrar que nenhuma emergência justifica falta de transparência ou eventuais irregularidades. O confronto entre essas duas narrativas deve marcar os próximos capítulos da investigação na Assembleia Legislativa.

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