ESTRATÉGIA BILIONÁRIA

Muito além da soja: AMAGGI consolida aquisição de 40% da companhia de etanol FS e avança sobre o mercado de energia limpa

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Muito além da soja: AMAGGI consolida aquisição de 40% da companhia de etanol FS e avança sobre o mercado de energia limpa

JB News

Por Jota de Sá

A consolidação da aquisição de 40% da FS pela AMAGGI representa um dos movimentos empresariais mais relevantes do agronegócio brasileiro em 2026 e reforça uma transformação silenciosa que vem ocorrendo em Mato Grosso: a migração das grandes tradings agrícolas para um modelo de negócios cada vez mais industrializado, sustentável e voltado à geração de energia renovável. Após receber o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a operação foi oficialmente concluída, marcando a entrada definitiva da AMAGGI no segmento do etanol de milho em larga escala e consolidando uma parceria estratégica entre duas gigantes nascidas em solo mato-grossense.

A operação envolve a aquisição de 40% do capital da FS, combinando um aporte primário de US$ 100 milhões para acelerar a expansão da companhia com a compra de participações pertencentes aos atuais acionistas. Mais do que uma simples aquisição societária, o negócio inaugura uma nova etapa para ambas as empresas, que passam a unir competências em logística, originação de milho, exportação, inovação industrial e descarbonização da economia.

Com raízes em Mato Grosso, tanto a FS quanto a AMAGGI compartilham uma trajetória construída sobre inovação, crescimento sustentável e protagonismo no agronegócio brasileiro. A união das duas empresas simboliza um novo momento para a economia estadual, fortalecendo uma cadeia produtiva que deixa de olhar apenas para a produção agrícola e passa a agregar valor por meio da industrialização, da produção de biocombustíveis e da geração de energia limpa.

Embora seja conhecida mundialmente pela produção e comercialização de soja, milho e algodão, a AMAGGI vem construindo há alguns anos uma estratégia de forte diversificação dos seus investimentos. O grupo deixou de atuar exclusivamente como produtor e exportador de commodities para investir pesadamente em industrialização, geração de energia renovável, biodiesel, transporte hidroviário e rodoviário, operações portuárias, comercialização de energia elétrica e soluções financeiras voltadas ao agronegócio.

Essa verticalização reduz custos operacionais, agrega valor à produção agrícola, amplia a rentabilidade das cadeias produtivas e fortalece a competitividade internacional da companhia. A entrada definitiva no setor de etanol de milho amplia esse posicionamento, colocando a empresa em um dos segmentos que mais crescem no agronegócio brasileiro e que deverá receber novos investimentos impulsionados pela transição energética global.

A escolha pela FS não ocorreu por acaso. Fundada em Mato Grosso, a empresa revolucionou o mercado nacional ao se tornar a primeira produtora brasileira de etanol fabricado exclusivamente a partir do milho. Hoje é considerada referência mundial em eficiência energética, baixa emissão de carbono e aproveitamento integral da matéria-prima.

Além do etanol, a companhia produz DDG, proteína de alto valor destinada à alimentação animal, e óleo de milho, transformando praticamente toda a produção agrícola em produtos de elevado valor agregado. Atualmente, processa cerca de seis milhões de toneladas de milho por safra e produz aproximadamente 2,6 bilhões de litros de etanol por ano, números que deverão crescer significativamente com a expansão já em andamento.

O plano de investimentos prevê a inauguração da quarta unidade industrial em Campo Novo do Parecis até o final de 2026 e da quinta planta em Querência, em julho de 2027. Ao término desse ciclo de expansão, a capacidade produtiva deverá alcançar cerca de 3,8 bilhões de litros de etanol e aproximadamente três milhões de toneladas anuais de DDG, consolidando a FS entre as maiores produtoras mundiais de biocombustíveis derivados do milho.

O acordo entre AMAGGI e FS também chega em um momento considerado estratégico para todo o setor de biocombustíveis brasileiro. Poucos dias antes da conclusão da operação, o Governo Federal anunciou novas medidas para ampliar a participação dos combustíveis renováveis na matriz energética nacional, fortalecendo ainda mais as perspectivas de crescimento para empresas que investem em etanol, biodiesel e energia limpa.

Durante agenda recente em Mato Grosso, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, destacou que o percentual de etanol anidro misturado à gasolina, que havia sido elevado para 30%, deverá avançar para 32%, tornando o Brasil o país com uma das maiores participações de etanol na gasolina em todo o mundo. Segundo ele, trata-se de uma medida que beneficia simultaneamente o meio ambiente, a economia e a agroindústria brasileira.

Alckmin ressaltou que ampliar o consumo de etanol significa agregar valor à produção agrícola nacional. Em vez de exportar apenas milho e soja in natura, o país fortalece sua indústria de transformação, amplia a produção de combustíveis renováveis, gera empregos, aumenta a arrecadação e impulsiona novos investimentos privados. Na avaliação do vice-presidente, o Brasil passa a vender produtos industrializados de maior valor agregado, elevando sua competitividade internacional.

O vice-presidente também lembrou que o percentual obrigatório de biodiesel no diesel voltou a crescer e alcançará 15%, recuperando o ritmo de expansão da indústria nacional de biodiesel. A medida fortalece diretamente a cadeia da soja, principal matéria-prima utilizada na produção do combustível, estimulando novos investimentos industriais e ampliando o mercado para produtores rurais e empresas do agronegócio.

Outro ponto destacado por Alckmin foi o enorme potencial brasileiro para liderar a produção do SAF (Sustainable Aviation Fuel), o combustível sustentável destinado à aviação comercial. Segundo ele, diante das mudanças climáticas e das novas exigências ambientais internacionais, o mundo deverá substituir gradativamente o querosene convencional por combustíveis renováveis, abrindo um mercado bilionário para países capazes de produzir bioenergia em grande escala. Nesse cenário, Mato Grosso aparece como um dos estados mais preparados para atender essa futura demanda mundial.

Sob essa perspectiva, a aquisição de parte da FS pela AMAGGI deixa de representar apenas uma operação empresarial e passa a simbolizar um posicionamento estratégico diante de uma nova realidade econômica global. Ao ampliar sua presença no setor de etanol de milho justamente quando o Brasil aumenta a participação dos biocombustíveis em sua matriz energética, a empresa se antecipa a um mercado que tende a crescer de forma acelerada nas próximas décadas.

Outro diferencial estratégico da FS é a aposta em tecnologias de captura e armazenamento de carbono, projeto que coloca a companhia entre as mais avançadas do planeta no desenvolvimento de combustíveis de baixa emissão. A iniciativa reforça a tendência mundial de valorização de produtos sustentáveis e atende às exigências dos mercados internacionais por cadeias produtivas cada vez mais limpas.

Para a AMAGGI, a aquisição também simboliza uma mudança importante em sua estratégia de crescimento. Nos últimos anos, a empresa ampliou sua presença em usinas de biodiesel, geração de energia elétrica renovável, infraestrutura logística e transporte, buscando reduzir a dependência exclusiva da comercialização de grãos. A parceria com a FS fortalece esse processo de diversificação e posiciona o grupo entre os protagonistas da transição energética no agronegócio brasileiro.

Além dos ganhos ambientais, especialistas apontam que a união das duas companhias deverá gerar importantes ganhos econômicos, especialmente na originação de milho, redução de custos logísticos, aumento da eficiência operacional, fortalecimento da industrialização, ampliação das exportações de biocombustíveis e maior competitividade internacional dos produtos brasileiros.

Com sede em Cuiabá e presença em diversos países, a AMAGGI comercializa atualmente cerca de 24,7 milhões de toneladas de grãos e fibras por ano e mantém relacionamento comercial com aproximadamente 5,6 mil produtores rurais. A empresa também atua na Argentina, China, Holanda, Noruega, Suíça, Singapura e Panamá, consolidando-se como uma das maiores multinacionais brasileiras do agronegócio.

A conclusão do acordo demonstra que Mato Grosso continua liderando não apenas a produção agrícola brasileira, mas também os investimentos em inovação, industrialização e energia limpa. Ao unir a força logística e comercial da AMAGGI com a tecnologia da FS na produção de etanol de milho, o Estado fortalece sua posição como um dos principais polos mundiais da bioeconomia. Mais do que ampliar seus negócios, a AMAGGI consolida uma estratégia econômica de longo prazo baseada na diversificação, na agregação de valor, na industrialização do agro e na liderança de um mercado global que caminha, cada vez mais, para a substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia. A empresa deixa claro que seu futuro já não está apenas na soja, mas na construção de um dos maiores ecossistemas de bioenergia, combustíveis renováveis e desenvolvimento sustentável do Brasil.