OPERAÇÃO GEMINI

Investigação da PF aponta imobiliária usada para lavar dinheiro e movimentação de R$ 3,3 milhões em contas ligadas a desembargador

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Investigação da PF aponta imobiliária usada para lavar dinheiro e movimentação de R$ 3,3 milhões em contas ligadas a desembargador

JB News

Por Nayara Cristina

OPERAÇÃO GEMINI

A suspeita de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro está no centro da Operação Gemini, deflagrada pela Polícia Federal nesta segunda-feira (8), em Mato Grosso. As investigações apontam para a existência de uma estrutura criada para ocultar recursos supostamente obtidos por meio da comercialização de decisões judiciais e dar aparência de legalidade a movimentações financeiras milionárias.

Entre os principais alvos da operação estão um desembargador afastado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e o deputado estadual Faissal Calil (PL), apontado pelos investigadores como operador financeiro e patrimonial do magistrado. A investigação também alcança pessoas e empresas que teriam sido utilizadas para movimentar recursos e dificultar o rastreamento do dinheiro.

Segundo a Polícia Federal, a apuração avançou após a análise de dados extraídos de aparelhos celulares, relatórios de inteligência financeira, informações compartilhadas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e cruzamentos realizados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O material revelou indícios de uma engrenagem financeira paralela que operaria à margem dos mecanismos tradicionais de controle.

Um dos elementos que mais chamou a atenção dos investigadores foi a identificação de aproximadamente R$ 3,3 milhões em movimentações consideradas suspeitas. Os valores teriam circulado por contas bancárias ligadas aos investigados e a terceiros, em operações que, segundo a PF, não apresentaram justificativas econômicas compatíveis com a natureza das transações realizadas.

Para os investigadores, a movimentação financeira pode indicar a existência de um mecanismo estruturado para ocultação patrimonial e dissimulação da origem dos recursos. A suspeita é que parte do dinheiro tenha sido pulverizada entre diferentes contas e operações para dificultar a identificação dos beneficiários finais.

Outro foco central da investigação é uma imobiliária apontada pela Polícia Federal como peça importante no suposto esquema de lavagem de dinheiro. De acordo com os levantamentos, a empresa teria sido utilizada para conferir aparência de legalidade a recursos sob suspeita, por meio de negociações imobiliárias, transferências patrimoniais e operações realizadas com a participação de terceiros.

A PF apura se imóveis foram usados como instrumento para ocultar patrimônio e mascarar a origem dos valores movimentados. A suspeita é que algumas operações imobiliárias possam ter sido realizadas não com finalidade comercial legítima, mas para criar uma justificativa formal para a circulação do dinheiro investigado.

As investigações também apontam para a existência de triangulações patrimoniais envolvendo pessoas físicas e jurídicas. Segundo a Polícia Federal, empresas e terceiros teriam sido utilizados para intermediar negócios e afastar os verdadeiros beneficiários das movimentações financeiras. O objetivo seria dificultar o rastreamento dos recursos e criar barreiras para a identificação da origem do dinheiro.

Nesse contexto, a PF aponta o deputado estadual Faissal Calil como um dos principais personagens da estrutura investigada. Além da atividade parlamentar, Faissal atua como advogado e, segundo os investigadores, exerceria a função de operador financeiro do desembargador afastado. A suspeita é de que ele participasse da intermediação de movimentações financeiras, negociações patrimoniais e operações destinadas a conferir aparência de legalidade aos recursos sob investigação.

Os relatórios policiais descrevem o parlamentar como um elo entre o magistrado e a estrutura financeira utilizada para movimentação dos valores. A Polícia Federal busca esclarecer qual foi o grau de participação de cada investigado e se houve atuação coordenada para ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro.

A atual fase da Operação Gemini é resultado de um aprofundamento de investigações anteriores conduzidas pela Corregedoria Nacional de Justiça. O desembargador já havia sido afastado do cargo após o surgimento de indícios de irregularidades. A análise dos aparelhos eletrônicos apreendidos naquela ocasião forneceu novos elementos que levaram à abertura desta nova frente investigativa.

Durante o cumprimento dos mandados judiciais, agentes da Polícia Federal apreenderam celulares, computadores, documentos, armas e outros materiais que agora serão submetidos à perícia. Também foram autorizadas medidas de quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático dos investigados.

A expectativa é que a análise desse material permita identificar a origem dos recursos, os beneficiários das movimentações financeiras e a extensão da rede patrimonial investigada. A Polícia Federal procura esclarecer se a estrutura identificada tinha como finalidade exclusiva a lavagem de dinheiro ou se também era utilizada para operacionalizar outras práticas ilícitas relacionadas à suposta comercialização de decisões judiciais.

Os investigados terão direito à ampla defesa e ao contraditório durante o andamento das apurações. Até o momento, não há condenações, e as suspeitas levantadas pela Polícia Federal ainda serão submetidas à análise da Justiça.

A Operação Gemini passa a ser considerada uma das mais relevantes investigações recentes envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial em Mato Grosso, atingindo diretamente estruturas que, segundo a PF, teriam sido utilizadas para transformar recursos de origem suspeita em patrimônio aparentemente regular.